sexta-feira, 17 abr. 2026

Onde param os carros de Hernâni Antunes? Ninguém sabe

Foram apreendidas 18 viaturas avaliadas em 11 milhões. Gabinete de Administração de Bens não diz onde estão nem em que estado.
Onde param os carros de Hernâni Antunes? Ninguém sabe

O destino e o estado dos veículos de luxo apreendidos a Hernâni Vaz Antunes, em julho de 2023, tem sido um dos motivos de maior atividade do inquérito-crime conhecido como Operação Picoas. No último ano, a defesa do principal arguido apresentou recursos e requerimentos sucessivos para saber onde os carros estão guardados, que medidas foram tomadas para os conservar e como foi feita a sua avaliação, que atinge os 11 milhões de euros – sem que fosse possível obter uma resposta do Gabinete de Administração de Bens (GAB). Tudo motivado por uma comunicação do próprio GAB, que viria a revelar-se incorreta.

Para compreender o imbróglio é necessário recuar às buscas de julho de 2023, quando foram apreendidos 18 carros de luxo em várias propriedades de Hernâni Antunes e da sua família. Para os magistrados, os veículos foram adquiridos com os alegados ganhos ilícitos obtidos por Hernâni Antunes – com a colaboração de Armando Pereira – no esquema de viciação de contratação de fornecedores do grupo Altice. Ganhos esses que, segundo o MP, só pela criação de empresas em zonas de tributação reduzida, terão rendido um valor estimado de 100 milhões de euros. De acordo com o MP, esses ganhos indevidos conduziram «à identificação de esquemas de circulação e conversão de fundos, em manobras de branqueamento e integração desses ganhos ilícitos». Um desses esquemas seria «a aquisição de viaturas de elevado valor comercial, algumas delas modelos raros e de coleção, numa verdadeira lógica de constituição de ativos de investimento e de ostentação».

Inicialmente, os carros ficaram à guarda das filhas, mulher e irmão de Hernâni Vaz Antunes. Todavia, segundo o MP, face ao «servilismo» dos mesmos em relação ao empresário e ao risco de as viaturas se extraviarem, foi decidida a sua apreensão e remoção. Era «essencial acautelar a preservação das mesmas, por representarem um produto indireto dos ganhos ilícitos gerados».

Em outubro de 2023, coube ao GAB alugar os meios – camião e armazém – para recolher e preservar 18 viaturas das marcas Porsche, Ferrari, Aston Martin, McLaren, Bentley e Bugatti (modelo Chiron). Este último foi avaliado em 3,7 milhões, logo seguido de um Ferrari Monza cujo valor será de 3,1 milhões. Ao todo, a coleção valerá 11,2 milhões.

A CARTA POLÉMICA

Em abril de 2024 a diretora do GAB, Ana Marcolino, enviou a Hernâni Antunes uma carta a dar conta da avaliação das viaturas e da possibilidade de, no prazo de 10 dias, requerer ao MP «a entrega do veículo contra o depósito do valor da avaliação» à ordem do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos de Justiça. Mas no final da missiva, acrescentava-se que «findo este prazo, na ausência de resposta, fica notificado de que o GAB irá dar seguimento ao procedimento de venda antecipada das referidas viaturas». E foi aí que começou uma guerra jurídica dentro do processo Altice.

A defesa de Hernâni Antunes, através dos advogados Rui Patrício, Tiago Monfort e Edgar Palma, começou por contestar a venda dos carros, a legalidade das apreensões e a pedir a sua devolução. O MP acabou por esclarecer que não tinha intenção de avançar com a venda e indeferiu os pedidos – no que foi secundado pelo juiz de instrução criminal.

Em junho de 2024, Hernâni Antunes recorreu da decisão para o Tribunal da Relação, voltando a alegar a falta de fundamento para a remoção dos veículos, a inexistência do perigo de extravio, uma diferença de tratamento em relação a Armando Pereira – que manteve a posse de todos os seus automóveis – e a invalidade das notificações de avaliação. Por fim pede que seja declarado «fiel depositário das viaturas», declarando que se compromete «a assegurar a sua manutenção, garantindo ainda que não desvalorizam e que permanecem em perfeitas condições», com o «inerente benefício para o erário público».

A resposta do MP, assinada pelo procurador Rosário Teixeira, elaborada em setembro, rejeita todos os pedidos da defesa. O magistrado justifica as apreensões com a «completa dependência» demonstrada pelos familiares de Hernâni Vaz Antunes em relação ao empresário, com o facto de vários carros estarem em nome de sociedades e ainda porque alguns não tinham matrícula ou tinham matrícula estrangeira, «fatores que facilitam a transmissão a terceiros das mesmas viaturas e que impedem o seu seguimento».

Sobre a diferença de tratamento em relação a Armando Pereira, Rosário Teixeira escreve que os automóveis deste não foram apreendidos por estarem «num único local, construído para o efeito, com características de um museu pessoal, estando registados em seu nome, identificados por matrículas e sem terem tido outra utilização que não a contemplação das mesmas». Além disso, acrescentou: «Não podemos deixar de reconhecer uma vasta esfera de negócios legítimos ao arguido Armando Pereira, desde logo como acionista do grupo Altice, enquanto que a larga maior parte dos proventos acumulados por Hernâni Antunes provém de negócios conspurcados de ilicitude, corrupção privada e burla, celebrados com a Altice».

Não se conhece a decisão da Relação mas no processo a guerra continuou. Os advogados de Hernâni Antunes já este ano quiseram saber quem guarda e mantém os carros, uma vez que alguns são modelos raros que precisam de cuidados especiais e que é público que o GAB não tem meios para o fazer. Apesar de o DCIAP ter notificado o GAB em janeiro para saber qual o estado dos automóveis e se a respetiva avaliação foi homologada, não terá havido qualquer resposta.

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