O César anti-plebiscito

Sánchez tornou-se não apenas num César de plebiscito, mas num César que quer evitar um novo plebiscito a todo o custo.

A democracia espanhola atravessa uma crise profunda. Os acontecimentos que nos chegam de Madrid diariamente não nos permitem chegar a uma conclusão diferente. Os escândalos em torno de Pedro Sánchez multiplicam-se e a teia que tem capturado e paralisado gradualmente setores fundamentais da sociedade e do Estado de Direito – da política à economia, da Justiça ao jornalismo – revela-se cada vez maior.

Os casos em questão já foram aqui abordados e não é o objetivo desta crónica dissecá-los ao pormenor. Para esse efeito talvez fosse necessário um livro, tal é a sua dimensão e profundidade. Quanto a isto, há apenas mais dois episódios recentes que merecem nota: a desfaçatez de vários membros da cúpula socialista em relação a Santos Cerdán e a “reforma” da estrutura do PSOE, prometida por Sánchez após o relatório bombástico da UCO. Quanto ao primeiro ponto, foi notável a tentativa, falhada, pois claro, por parte de membros importantes do PSOE de se afastarem de Santos Cérdan – entretanto encarcerado – mesmo que no mês anterior tenham expressado a sua solidariedade com o número dois de Sánchez. Cerdán era, aos seus olhos, uma vítima de «assédio por parte de extremistas de direita disfarçados de jornalistas», para citar o próprio presidente do Governo. Mas foi a vice-presidente do Governo, María Jesús Montero, que levou o contorcionismo para outros níveis. No passado mês de novembro, Montero disse que colocaria «a mão no fogo» por Cerdán. A 30 de junho, disse que «é um assunto de uma pessoa que não tem que ver com o PSOE». Seja como for, os socialistas partiram em busca de um sucessor para um Cerdán caído em desgraça. Escolheram Paco Salazar. Pilar Alegría, ministra da Educação e da Ciência, chegou a afirmar que Salazar «é um companheiro íntegro». Minutos depois, o mesmo Salazar demitiu-se por denúncias de assédio sexual.

Assim, Espanha é, hoje, um caso paradigmático da perversão do conceito de liberalismo, ou demo-liberalismo, da hipocrisia da esquerda que acredita ser detentora do monopólio do feminismo quando, na verdade, pratica o oposto, e, em última instância, do processo de autodestruição da própria democracia. Alexandre Herculano, na p.25 do Tomo I da sua obra Opúsculos, disponível na Biblioteca Nacional de Portugal, dizia em finais do século XIX, num tom vincadamente tocquevilleano, que «o velho liberalismo passa de moda» e que «a paixão pela liberdade esmorece, porque a absorve e transforma a da igualdade, a mais forte, a quase única paixão da democracia». Esta igualdade democrática, dizia, «caminha mais ou menos rápida, mas sem desvio, para a sua derradeira consequência, a anulação do indivíduo diante do Estado, manifestada por uma das duas fórmulas, o despotismo das multidões, ou despotismo dos césares de plebiscito».

Não será arriscado dizer que Pedro Sánchez, que nem sequer foi o candidato mais votado nas últimas eleições espanholas, se tornou não apenas num César de plebiscito, que vê o seu poder consolidado por uma maioria que o força a trucidar a Constituição que estabeleceu a coluna vertebral da democracia espanhola, mas também um César que quer evitar, a todo o custo – e o custo será inevitavelmente pago pelos espanhóis –, um novo plebiscito. Dito de outra forma, Sánchez sabe que não conta com o respaldo popular e, como oráculo da democracia progressista, está a proteger o seu povo da sua possível má decisão. Uma manobra de manual.

Por isso, quando nos questionamos, e bem, sobre as causas de regressão democrática no Ocidente, tentemos perceber primeiro o porquê das nossas democracias terem parido demagogos que as instrumentalizam para benefício pessoal, jurando defendê-las no processo. Os clássicos poderão ajudar nesse exercício. Porque criticar as falhas da democracia, «a pior forma de governo à exceção de todas as outras», como dizia Churchill, é o primeiro passo para a defender verdadeiramente.