O líder espiritual do Tibete cumpriu 90 anos no passado domingo. Além do peso espiritual que carrega para quem professa a sua religião, tem sido, ao longo da história, um símbolo da paz contra a violência e da independência contra a vassalagem. As suas palavras e ações valeram-lhe o Prémio Nobel da Paz. Mas a sucessão promete agitar as águas a nível tanto religioso como político.
Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, cumpriu no passado domingo o seu nonagésimo aniversário. São nove décadas de vida, das quais oito e meia foram dedicadas ao serviço do Estado e da espiritualidade do Tibete. Uma passagem pelo mundo terreno, utilizando uma linguagem religiosa, marcada por momentos fortes e simbólicos, por altos e baixos. Mas mais que um líder espiritual, é uma figura que transcende as fronteiras religiosas, carregando um peso político, nacional e internacional, que merece ser abordado. Mas quem é, e o que é, afinal, o Dalai Lama?
Reencarnação e juventude
Primeiro, e a título de contexto, importa abordar a questão ‘o que é?’. De acordo com o documento oficial sobre Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama, publicado pelo Departamento de Informação e de Relações Internacionais da Administração Central do Tibete, «Dalai Lama é um título mongol que significa “Oceano de Sabedoria”, e os Dalai Lamas são manifestações do Bodhisattva da Compaixão, Chenrezig. Os Bodhisattvas são seres iluminados que adiaram a sua própria iluminação e escolheram renascer para servir a humanidade».
O Dalai Lama, o décimo quarto, nasceu a 6 de julho de 1935 no seio de uma família de camponeses, na vila de Takster, no Tibete. De acordo com o documento já citado, e que pode ser consultado na íntegra online (https://tibet.net/wp-content/uploads/2011/07/dalailamabio.pdf), quando era ainda uma criança de dois anos, que carregava o nome Lhamo Dhondup, «foi reconhecido como a encarnação do décimo terceiro Dalai Lama, Thubten Gyatso». «Em outubro de 1939, o jovem Dalai Lama, acompanhado pelo grupo de busca e pelos membros da sua família, chegou a Lhasa, a capital do Tibete. A cerimónia de entronização teve lugar em 22 de outubro de 1940 no Palácio de Potala». Com apenas cinco anos, tornou-se na figura máxima do país e, um ano mais tarde, iniciou os seus estudos monásticos. Concluiu-os com o Grau Lharampa, «o nível mais elevado Geshe ou o doutoramento em filosofia budista», mas já depois de algumas convulsões importantes a nível político.
Invasão, exílio e Nobel
Em 1949, com 14 anos, assistiu à tomada de poder pelos comunistas liderados por Mao Tsé-Tung na China, que, desde logo, lançaram uma campanha para invadir o Tibete. A circunstância histórica, sempre fundamental no exercício de avaliação da História, fez com que o adolescente Dalai Lama fosse «chamado a assumir plenamente o poder político» no ano seguinte.
Após alguns anos de tentativas de negociação falhadas com Mao e outros membros de relevo do Politburo, foi em 1959 que a vida do líder tibetano mudou de figura. Para sempre. Como relata o documento oficial, «em 1959, as tropas chinesas de ocupação reprimiram brutalmente a revolta nacional tibetana em Lhasa e forçaram Sua Santidade o Dalai Lama e mais de 80.000 tibetanos a exilarem-se na Índia e nos países vizinhos». É na Índia, mais precisamente em Dharamsala, nos Himalaias, que se encontra até hoje.
Desde então, mostrou-se empenhado na autonomia, democratização e paz do seu território, apresentando várias iniciativas de relevo, como uma Constituição democrática ou vários planos de paz. Foi por «defender soluções pacíficas baseadas na tolerância e no respeito mútuo, a fim de preservar o património histórico e cultural do seu povo» que, em 1989, foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz. Além deste, acumula no seu palmarés dezenas de prémios, medalhas, doutoramentos honorários e outras honras.
Polémicas
Independentemente do pacifismo e da compaixão, a vida de Dalai Lama não fica isenta de controvérsias de vários tipos. O exemplo mais recente foi quando beijou uma criança na boca, pedindo-lhe, em seguida, que lhe «chupasse» a língua. O acontecimento levantou, naturalmente, uma onda de protestos que acabou por forçar o líder tibetano a emitir um pedido de desculpas.
Outros momentos, estes de ordem política, ficarão também marcados no seu legado. Para uns são uma mácula, para outros representam mais demonstrações de coragem de alguém que não se esconde dos problemas prementes do mundo contemporâneo. Um dos casos paradigmáticos foi a sua opinião sobre a imigração na Europa em 2018, numa altura em que a discussão não tinha ainda atingido, nem perto, as proporções atuais. O Dalai Lama disse, então, que somente «um número limitado» de imigrantes deveria ser autorizado a ficar, com os restantes a serem devolvidos «à sua própria terra». Acrescentou ainda, citado pela CNN, que seria «impossível» que «toda a Europa [se tornasse] eventualmente num país muçulmano» ou «africano» e que se deveria «manter a Europa para os europeus».
Criticou também a violência das cruzadas antiterroristas levadas a cabo pelos Estados Unidos, que, segundo o próprio, ignoraram os problemas profundos que alimentavam o terrorismo e ainda o sistema chinês, recomendando a sua abertura ao mundo democrático.
Estas opiniões deixam claro que, independentemente de ser um líder religioso, também é um ser político. Para além das opiniões, a sua morte também promete agitar as águas neste aspeto.
Implicações (geo)políticas
As tensões são constantes entre a China e o Tibete, um país fundamental dados os seus recursos naturais, principalmente os rios. Há também considerações estratégicas:a geografia específica do Tibete torna este território uma espécie de escudo contra invasores – inversamente, quem o detiver, pode constituir uma ameaça à China. Por isso Pequim não estará, certamente, disposto a abdicar dele, tendo até já mencionado que o próximo Dalai Lama poderá ser «patriótico». Por outras palavras, significa nascido na China e que esteja submetido aos interesses do Partido Comunista Chinês.
Mas as implicações políticas transcendem a circunscrição das tensões China-Tibete. E a faísca internacional salta principal e naturalmente da Índia, país que acolhe o Dalai Lama. Mais uma vez, a propósito do aniversário de Gyatso, assistimos a uma troca de galhardetes entre Pequim e Nova Deli. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, escreveu o seguinte na sua conta oficial da rede social X: «Junto-me a 1,4 mil milhões de indianos para expressar os nossos mais calorosos desejos a Sua Santidade o Dalai Lama», que, nas palavras do chefe de governo indiano, «tem sido um símbolo duradouro de amor, compaixão, paciência e disciplina moral». «A sua mensagem tem inspirado respeito e admiração em todas as religiões. Rezamos para que continue a gozar de boa saúde e de longa vida», acrescentou Modi. Sem grande surpresa, e pelas razões antes mencionadas, a China demonstrou prontamente o seu desagrado através das palavras de Mao Ning, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Ning alertou para o facto de que a Índia «deve estar plenamente consciente da elevada sensibilidade dos assuntos relacionados com o Tibete, reconhecer a natureza separatista e antichinesa do Dalai Lama e cumprir os compromissos assumidos nessa matéria» e que deverá cessar a utilização da «questão tibetana para interferir nos assuntos internos da China».
Qing, Xi, a sucessão e o futuro
Tendo cumprido o seu nonagésimo aniversário, a questão da sucessão já não é meramente um pano de fundo quando se fala do Dalai Lama, é um assunto inevitável e premente por várias razões. Na sequência do que já foi abordado, a China garante não apenas ter uma palavra a dizer, mas pretende assumir-se como condutor do processo, invocando, para tal efeito, uma reivindicação histórica, a da urna dourada, que remonta ao final do século XVIII, época em que a China estava sob o controlo da dinastia Qing. Não é de somenos relembrar que o Estado chinês é controlado pelo Partido Comunista, não professando qualquer religião, desde Mao Zedong. Este facto não impede que o Politburo se arrogue a si mesmo a tarefa de decidir uma reencarnação espiritual. Esta visão ficou cristalina nas palavras da porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, quando disse que «a reencarnação do Dalai Lama, do Panchen Lama e de outras grandes figuras budistas deve ser escolhida por sorteio numa urna de ouro e aprovada pelo governo central». Esta declaração foi dada na sequência de um vídeo partilhado pelo Dalai Lama, onde expressa de forma clara o seu desejo de não interferência chinesa no processo: «Ninguém mais tem autoridade para interferir neste assunto. (…) De acordo com a tradição passada, a procura da minha reencarnação e a nomeação de um 15.º Dalai Lama serão levadas a cabo», garantindo, de acordo com o The Guardian, que deixará instruções, ainda que não explicando claramente quais. «De acordo com todos esses pedidos, afirmo que a instituição do Dalai Lama continuará», acrescentou. Numa passagem do seu livro publicado recentemente, Voz para os Sem Voz, o Dalai Lama escreveu que «nascer no mundo livre» é uma condição sine qua non para que o seu sucessor continue o seu trabalho: «O objetivo de uma reencarnação é continuar o trabalho do antecessor. O novo Dalai Lama nascerá no mundo livre».
Os Estados Unidos corroboram a visão do Dalai Lama, com um porta-voz do Departamento de Estado americano, citado pela Reuters, a mencionar a necessidade de diálogo entre Pequim, o Dalai Lama e as autoridades tibetanas para que se possa chegar a um estado de «autonomia significativa para os tibetanos». Acrescenta o porta-voz: «Continuaremos também a apelar à China para que cesse a sua interferência na sucessão do Dalai Lama e de outros lamas budistas tibetanos e para que respeite a liberdade de religião ou de crença de indivíduos de todas as crenças».
Por tudo isto, é seguro dizer que o Dalai Lama, e a sua sucessão, não é um assunto que fica circunscrito à esfera espiritual. Quando chegar a devida altura, será possível verificar se a figura do Dalai Lama continua fiel à tradição, numa posição que desafia a supremacia chinesa, ou se acabará por tornar-se, como se tornou o Panchen Lama, mais um instrumento do Partido Comunista Chinês.