sexta-feira, 17 abr. 2026

Luís Jardim. O músico e produtor que deu o estuque ao firmamento internacional

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Luís Jardim. O músico e produtor que deu o estuque ao firmamento internacional

Ele sabia tanto de ritmos e percussão, que se tornou um autêntico trolha, pau para toda a obra em estúdio, sendo-lhe confiada a estrutura invisível que segura e combina as partes nos discos de muitos nomes maiores da cena internacional. E, se o seu rosto se tornou familiar dos portugueses nos concursos musicais que passavam na televisão, os nossos ouvidos encontram-no, mesmo sem o saber, numa infinidade de malhas que moldaram sucessivas gerações

Antes de se tornar familiar aquele rosto que, mesmo ao aparecer na televisão, parecia contrariado, fechando-se como um punho, as barbas a defender-lhe a expressão, como se aquilo fosse mais um compromisso, entre tantos, e aquela timidez também gostasse de levar porrada, imagine-se como soube ser desses tímidos ferozes, sempre de mala feita, ansiando por ir-se, experimentar outra coisa, e imagine-se a inquietação que serviu de faro a este filho da Madeira, sempre com essa maleta gasta por arrastar sonhos. Aos vinte, já enchia estúdios londrinos com o zumbido do seu entendimento particular da percussão. Além da bateria, fazia o que queria do baixo, da guitarra, e mais o que fosse preciso. Sendo um mago de estúdio, compôs e produziu para milhares de álbuns, para artistas a que perdeu a conta, estimando a certa altura que tenham sido «mais de dez mil» os discos em que foi participando, o que não deixou margem para que qualquer dos músicos nacionais lhe disputassem essa influência musical a nível internacional. Circulam por aí as listas dos seus feitos, das tantas participações como percussionista, produtor, com aquela presença discreta e, ao mesmo tempo, segura, indelével. Se não forçava o protagonismo, no entanto, estava lá, como um centro de gravidade a recortar a batida em muitas das músicas que moldaram o nosso ouvido, mesmo sem que o soubéssemos. Vamos então ao rol que atesta a confiança que tantos buscavam nele para mapear extensões por explorar musicalmente. Entre a lista de artistas internacionais, esteve em estúdio com os Rolling Stones, Paul McCartney, Trevor Horn, Asia, Bee Gees, Gloria Estefan, Duran Duran, Björk, Tom Jones, Seal, Diana Ross, Mariah Carey, Bryan Adams, Robbie Williams, Cher, Katie Melua, Celine Dion, Rod Stewart, George Michael e Tina Turner (com quem chegou a andar em digressão). Por fim, e no que toca a artistas nacionais, teve uma relação muito próxima com Rui Veloso e João Pedro Pais.

Nascido naquela ilha, em 1950, antes da fama, antes dos palcos, e de fazer do estúdio a sua caverna, houve provavelmente um quarto pequeno, sons indistintos vindos da rua, um rádio mal sintonizado. E a primeira pulsação: talvez uma caixa de fósforos, uma lata, um tampo de mesa. Algo que vibrasse. Antes de tudo o resto, a escuta — essa faculdade que não se ensina. Foi essa escuta que lhe deu o sentido do ilimitado, que lhe permitir ir onde quisesse, sendo aquele que sabe ver de olhos fechados. Nos anos oitenta, os estúdios fervilhavam: synths, reverb, ecos e overdubs — o maximalismo britânico em modo descontrolado. Mas no meio desse aparato tecnológico, Jardim veio explicar a necessidade da pausa certa, do intervalo. Trazia um som abafado, aquele tom grave que assinala um instante de tensão. “Quando cheguei a Londres, havia um frio na música. Nos primeiros anos devo ter tocado em cinco mil discos e trouxe uma coisa que eles não tinham, que era o balanço, o groove, ritmos mais sul-americanos, era uma coisa nova e foi assim que chamei a atenção do Mick Jagger. Comecei a ser convidado por muita gente, mas também tive um bocado de sorte, as artes têm destas coisas”, referiu numa entrevista à RTP, em 2009.

Foi isso, esse instinto decisivo, que levou um produtor de culto como Trevor Horn, a confiar nele. Esse raro dom de ser necessário sem ser evidente. Tocou com Tina Turner ao longo de quase três anos nas suas tournées, incluindo num concerto histórico no Maracanã, perante 200 mil pessoas. Fez ainda parte de digressões de Rod Stewart e George Michael, viveu por dentro o gigantismo do pop em arenas onde a música deixava de ser um mero espectáculo e se tornava uma forma de liturgia absoluta. E era precisamente aí, onde tudo é ruído e luz, que ele procurava o ponto de contacto com algo mais antigo: o pulso anterior ao aplauso.

Por cá, Rui Veloso e João Pedro Pais encontraram nele não um técnico, mas alguém que sabia ouvir o que ainda não existia. Afinal, um produtor não impõe, antes desenterra. E Jardim, no estúdio, era arqueólogo e jardineiro: cavava, esperava, cuidava. Tinha paciência. Apesar de ter pisado todos os palcos, o próprio país quis fazer dele um estranho. “Nunca fui convidado para atuar em Portugal. Cheguei a estar na estrada com o Bryan Adams 18 meses sem voltar a casa… Tive uma banda, Rouge, que vendemos dez milhões de discos… e nunca fui convidado para vir tocar a Portugal”.

Essa banda criou-a já em Londres. Mas nos anos 60, ainda no Funchal, fez parte do conjunto de yé-yé Demónios Negros. Foi na viragem da década, e com apenas 16 anos, que foi para Inglaterra estudar Direito, mas a música acabou por se impor, e três anos depoisj á estava a tocar no Hyde Park com os Rolling Stones. Entretanto estudou Administração Comercial e formou a tal banda, que vigorou entre 1973 e 1977. Viu então serem-lhe abertas as portas das casas de produção por Trevor Horn, tendo tocado nos anos 80 em discos marcantes como “The Lexicon of Love”, dos ABC, ou “Welcome To The Pleasure Dome”, dos Frankie Goes To Hollywood, bem como “Slave to the Rhythm”, de Grace Jones. Foi por este último que conquistou um Grammy. Trabalhou também no cinema, participando em mais de 20 bandas sonoras. Hans Zimmer confiou-lhe o ritmo interno de sequências que pediam mais do que percussão: exigiam atmosfera. Deu o seu contributo à magnífica banda sonora de O Gladiador e deixou também a sua marca em Um Peixe Chamado Wanda, Rain Man, The Bourne Ultimatum, No Time to Die. Tinha clara a noção de que o som não serve apenas para preencher o espaço — mas para dar-lhe profundidade.

A relação com o público português acabou por se tornar bastante equívoca, tendo sido chamado numa altura em que a reputação o precedia, e, sobretudo, para dar algum crédito a concursos musicais com os quais, nas últimas décadas, a televisão vem criando um vasto cemitério de carcaças expostas a céu aberto, as quais se constroem à volta de ilusões impossíveis de sustentar. E se Luís Jardim procurou fugir à caricatura, havendo nele uma contenção que o distinguia de outros dos seus colegas do painel de júris, e particularmente da boçalidade daqueles que, tantas vezes, aceitava troçar e martirizar gente que era atirada com as suas fraquezas e usada para alimentar a fornalha das audiências, ele escudava-se desses exercícios degradantes. Esteve envolvido em programas como Ídolos, da SIC, A Tua Cara Não Me É Estranha e Uma Canção Para Ti, na TVI. Talvez não tirasse nenhum gosto de humilhar, e algumas vezes parecia não estar tanto a julgar os concorrentes, como a própria ideia de sucesso que, hoje, tomou conta das artes, como se a lógica fosse procurar um atalho para alcançar a celebridade.

No fundo, talvez houvesse nele uma certa mágoa, tendo procurado sobreviver ao colapso da indústria discográfica, à era MTV, ao aparecimento da música digital e à forma como os êxitos passaram a degradar aquela relação com a escuta paciente. Afinal, ele tocara menos para se fazer ouvido e mais para sustentar o que se ouvia. Ele trabalhou toda a vida nessa arquitetura invisível das canções. A sua morte, a 4 de julho de 2025, aos 75 anos, no exacto dia em que nasceu, é o tipo de ironia que os deuses reservam para quem viveu sem pedir aplauso. Um ciclo fechado à unha. Deixou um tremendo legado, e cumpre defendê-lo da baixeza dos formatos em que colaborou na televisão portuguesa, de programas que nunca deixam propriamente um rastro, mas só um deserto. Assim, devemos lembrar a sua recusa em fazer da música um lugar de ego. O seu compromisso em tocar para que o astro de outros alcançasse o máximo poder de irradiação.