quarta-feira, 09 set. 2026

O Matuto e a Bebel

O Matuto, observando a cena doméstica, acredita que a Bebel vai arquivando tudo na sua memória afectiva: “os adultos são uns tontos! Eu aqui, feliz da vida, a divulgar o que penso e eles todos admirados. Que criaturas estranhas”

O Matuto e Dona Sirlei, a sua gentil esposa, foram visitados. A “Casa das Pontes” foi invadida duma alegre algazarra despertada pela Ana (8 anos) e a Sara (5 anos). Ao colo de mamãe vinha a Bebel, de 7 meses, sorridente e ostentando dois dentinhos dianteiros. Dona Sirlei presenteou a Ana e a Sara com uns utensílios de cozinha que desencadearam a azáfama de fazer comida para toda a gente. “É de brincadeirinha” – dizem Ana e Sara. Pediram-se pizzas porque afinal de contas os adultos têm estômagos que pedem nutrientes sérios. A toalha aos quadrados azuis e brancos empresta um ar familiar ao ambiente. A conversa solta-se, risos e olhares vão dançando entre as dentadas na pizza saborosa (gostosa, no Brasil, por favor).

É nesse momento que o Matuto percebe o show da Bebel. O titio está a alimentar a boquinha sempre aberta da bebé, com banana esmagada. A banana some dentro da boquinha num ápice. E logo a boquinha se abre exigindo mais. As colheradas de banana entram naquela boquinha, em caravana. Para a banana aquela boquinha virou uma tirana. Para a Bebel, pode vir banana todo o dia da semana: “que bacana”! O titio enternece olhando aquela amostra de gente, aconchegada no seu colo. A titia abre um sorriso carinhoso. 

A Ana e a Sara negociam com Dona Sirlei a logística dos brinquedos: “vovó, a gente vai deixar aqui os presentes que você deu hoje. Assim, temos sempre coisas para brincar quando a gente vem na sua casa”. Dona Sirlei concorda com este plano sensato. Os restantes familiares conversam sobre alguns restaurantes na cidade. O habitual: à mesa come-se e fala-se de comida. É quando a Bebel dá o seu contributo: “dá-dá-dá”. Dona Sirlei sobressalta-se: “quando é que ela começou a falar?” Todo o mundo (a globalização há muito que chegou ao Brasil) dá risada (gargalhada, em Portugal, por favor). Como assim!? “Quando é que ela começou a falar?”  - repete Dona Sirlei. A risada geral intensifica-se. Será que a surpresa de Dona Sirlei se prende com a dúvida quanto ao segundo exacto em que a Bebel começou a comunicar, ou com a ironia duma bebé transmitir sentimentos por monossílabos: “dá-dá-dá”.

O Matuto, observando a cena doméstica, acredita que a Bebel vai arquivando tudo na sua memória afectiva: “os adultos são uns tontos! Eu aqui, feliz da vida, a divulgar o que penso e eles todos admirados. Que criaturas estranhas”. Entretanto, a Bebel vai para o colo de Dona Sirlei: “huuummm! Dá vontade de apertar esta boneca”. “Deixa-te disso, e dá-me alguma coisa para eu brincar” – matuta a Bebel. Surgem uns copos de plástico. Nas mãos da Bebel viram chocalhos: “tap-tap-tap”. Perfeito. A Bebel achou a dinâmica ideal da brincadeira: bater com os copitos na mesa. Bracitos em sistema de alavanca, continua a batucada: “tap-tap-tap”, e a balbuciada: “dá-dá-dá”. No segundo seguinte a Bebel leva os copos à boca: “que delícia! Sabor de plástico. A vovó é um doce. Mas este copo de plástico é melhor. A vovó faz bbbrrrr e blá-blá-blá com os lábios – isso é muito divertido; às vezes faz shlock-shlock com a língua – rio à farta. É muito engraçado! Mas, este copo de plástico é melhor. Posso sempre levar ele à boca. Vovó é muito grande, não dá para pegar nela, e acho que ela nunca se deixaria levar à boa. Mesmo de brincadeirinha, e isso estraga a diversão” – vai pensando a Bebel.

O Matuto vê a Bebel passar para o colo da mamãe. A Bebel tenta levar o dedo da mamãe à boca. Mas o dedo esquiva-se num reflexo habitual. A Bebel resmunga docemente: “a mamãe tem um dedo muito útil e bom de segurar. Mas isso não chega. É preciso conhecer o sabor. Mas, sempre que tento levar o dedo de mamãe à boca ele foge, o maroto! Já tentei levar o nariz de papai à boca, mas papai não gostou da experiência. Parece que os adultos são seres que têm dedos e narizes só para decoração. Não servem para saborear. A brincadeira assim não tem piada”. A Bebel joga o copo de plástico ao chão. Mamãe apanha o copo. A Bebel joga novamente o copo ao chão. Mamãe, paciente, apanha de novo o copo. A Bebel conclui: “O adulto entende esta brincadeira. Que bom! Para esta tarefa está bem treinado”.

O Matuto sabe de fonte segura que a Bebel vai entesourando estes instantes no seu pequeno mundo. Lendo os seus pensamentos, o Matuto traduz: “na verdade, os adultos servem para muita coisa. Mamãe me levanta suavemente quando estou cansada de estar na posição horizontal. Ela me lava e deixa cheirosinha. Papai me lança no ar habilidosamente. Eu dou risadas e gosto muito quando papai me segura nos seus braços fortes. Além disso foram adultos, como o papai e a mamãe que inventaram os brinquedos: os mordedores, os chocalhos, os bonecos de peluche (pelúcia, no Brasil, por favor), as bolas coloridas, as bonecas, os puzzles de borracha, as estrelas com musiquinhas... os brinquedos que os adultos inventaram são uma belezinha para os meus sentidos. Posso levá-los à boca. Que saborosos! Posso pegar neles. São leves. Posso ver as suas cores azuis e rosa. Posso ouvir eles baterem na mesa: “toc-toc-toc”, e alguns têm musiquinha. Se tivessem cheirinho de leite, seriam perfeitos”.

O Matuto contempla a Bebel e suspeita que ela conhece a ordem das coisas: tudo gira à volta dum copo de plástico, desde que bata bem na mesa e caiba na boca. O resto — política, economia, ciência — são apenas variações duma brincadeira de adulto, a fazer muito barulho, mas pouco sentido.