Passados onze anos desde que foi detido na manga de um avião no aeroporto de Lisboa, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa começou, finalmente, a ser julgado pelos crimes de que foi acusado na Operação Marquês. Iniciou também, uma nova fase da luta que, em tempos, António Costa caracterizou como a da «sua verdade». E nunca, como agora, essa expressão parece tão adequada à realidade. Nas imagens dos interrogatórios que foram transmitidas em reportagens televisivas, os portugueses viram pela primeira vez aquilo que muitos diziam que José Sócrates era em privado enquanto secretário de Estado, ministro e depois primeiro-ministro: um homem colérico, exaltado, intolerante à crítica ou a questões que o pusessem em causa. Alguém que numa sala de interrogatório se atrevia a gritar com procuradores do Ministério Público (MP) e com os próprios advogados. Uma imagem distante do político com sorriso pepsodent, polido no trato, de apresentação impecável, que controlava em público os acessos de fúria que tinha em privado, mesmo que se percebesse que por vezes fazia um esforço por se conter. O político que só ocasionalmente se soltava para atacar quem o confrontava, muitas vezes em entrevistas, mostrando ao de leve o epíteto de «animal feroz» que substituiria o título de «menino de ouro do PS».
Agora, 11 anos mais velho, desgastado por um refúgio forçado na Ericeira e sem filtros ou necessidade de polimento para agradar a quem quer que seja, é provavelmente o verdadeiro Sócrates que os portugueses têm visto em tribunal. O homem que continua a lutar aos gritos pela «sua verdade» e que nunca foi tão transparente como na chegada ao Campus da Justiça: quer a todo o custo evitar o julgamento.
Depois das centenas de recursos, incidentes e requerimentos, continua a tentar manipular a opinião pública para falar do que lhe convém e não daquilo que o compromete. Faz comícios à porta e dentro do tribunal. Ataca e ofende juízes, magistrados, políticos adversários e jornalistas – não por acaso os poderes que nunca conseguiu controlar, apesar das tentativas –, num estilo a que os magistrados não estão claramente habituados e que estão com dificuldade em saber lidar. Sabem, no entanto, uma coisa: qualquer falha ou exagero será utilizado por Sócrates até à exaustão para se vitimizar aos olhos da opinião pública como um mártir, continuando a alimentar a narrativa de que é um político perseguido pelo sistema que tudo fez para evitar a sua candidatura à presidência da República.
Todavia, para além de todo o espetáculo que pode provocar a dúvida em alguns, o que os portugueses também têm visto é um homem que continua a viver numa realidade paralela, numa espécie de mundo dos unicórnios. Só assim se explica que alguém que está a ser julgado por factos constantes numa acusação que ocupa mais de 4 mil páginas (e que descreve uma teia complexa de eventos, suportada em escutas telefónicas, transferências bancárias, entregas de numerário e um estilo de vida muito acima das reais possibilidades), seja capaz de proclamar com toda a convicção que não ficou «pedra sobre pedra» da acusação (uma expressão que usou repetidamente ao longo dos anos) e que tudo se explica através de um documento que classificou, ao estilo dos filmes americanos, de «smoking gun» – e isto, pasme-se, logo no fim do segundo dia de julgamento passado a prestar as declarações que quis e sem ser confrontado pelo tribunal ou pelo Ministério Público.
Portanto, já sabemos como isto irá correr. Sócrates irá contestar tudo e mais alguma coisa, mesmo que as justificações contradigam o que está nas escutas telefónicas – como sobre a sua relação com Ricardo Salgado ou Henrique Granadeiro –, irá vitimizar-se da alegada hostilidade do tribunal – mesmo tendo consciência de que qualquer outra pessoa que tivesse o seu comportamento já teria sido admoestada ou mesmo acusada do crime de desobediência por desrespeito ao coletivo de juízes – e à porta do edifício irá gritar aos microfones dos jornalistas que arrasou a acusação e que o Ministério Público não tem qualquer prova que justifique estar a ser julgado. No fundo, ele será apenas uma pobre e inocente vítima de uma cabala montada para o eliminar publicamente.
A única coisa que não irá fazer, já se sabe, é explicar a origem e os motivos que levaram um seu amigo a entregar-lhe muitos milhares de euros em dinheiro – as famosas «fotocópias», «documentos», «dossiers», «livros do Duda» ou «um bocadinho daquela coisa que gosto muito», expressões imortalizadas em escutas telefónicas – ou a pagar-lhe férias, viagens e obras em casas luxuosas em Paris, dispondo a seu bel prazer de quantias como se fossem suas. Essa é a verdadeira «smoking gun».