sexta-feira, 14 ago. 2026

Gaza. Uma uma paz incerta

Com o fim, ainda que precário, da guerra dos 12 dias contra Irão, as atenções de Israel voltam-se, de novo, para Gaza. Foi para debater este tema que Netanyahu se deslocou a Washington, mas, para além das discussões sobre o cessar-fogo, Netanyahu sugeriu ainda o Nobel da Paz para o presidente norte-americano
Gaza. Uma uma paz incerta

Estará o conflito no Médio Oriente, finalmente, mais próximo do fim? É a questão que inevitavelmente se levanta na sequência da terceira visita, desde janeiro, do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, à Casa Branca. E estará o presidente norte-americano, Donald Trump, depois de ter bombardeado as infraestruturas nucleares do Irão, manobra que consumou o fim da guerra dos 12 dias entre iranianos e israelitas, a exercer pressão sobre Netanyahu para que aceite o acordo de cessar-fogo proposto por Washington? As repostas não são nem simples, nem diretas, e mesmo com indicadores que possam lançar algumas luzes, a incerteza continua a pautar as negociações.

Cerca de uma semana antes de receber Netanyahu na Sala Oval, Trump anunciou, na sua conta oficial da rede social Truth, que «Israel concordou com as condições necessárias para finalizar o cessar-fogo de 60 dias, durante o qual trabalharemos com todas as partes para pôr fim à guerra». «Espero, para o bem do Médio Oriente», continuou, «que o Hamas aceite este acordo, porque a situação não vai melhorar - SÓ VAI PIORAR». 

À data, as condições do acordo que está a ser negociado com a mediação do Egito e do Catar ainda não eram totalmente conhecidas, mas vários meios de comunicação já conseguiram descortinar os conteúdos da proposta. A Al Jazeera, por exemplo, destacou que a questão principal reside no regresso de alguns dos reféns israelitas ainda em Gaza – dez vivos e os corpos de outros dezoito, sendo que, de acordo com a mesma fonte, ainda existem 50 reféns, dos quais vinte ainda estarão vivos – em troca de palestinianos que se encontram encarcerados em Israel. A ajuda humanitária e a retirada das tropas israelitas do enclave foram também, naturalmente, merecedores de destaque, tendo ficado definido que «a ONU e o Comité Internacional da Cruz Vermelha contribuiriam para a distribuição de quantidades suficientes aos palestinianos» e que a retirada israelita seria realizada de forma «progressiva». 

Mas, e como tem sido uma constante ao longo da fase processual de todos os acordos propostos durante o conflito, surgem exigências de parte a parte, mesmo que, nesta ocasião, Telavive se tenha demonstrado aberta a aceitar a proposta original dos EUA. As condições apresentadas pelo Hamas, que foram classificadas por Netanyahu como «inaceitáveis», foram principalmente três, ainda segundo a Al Jazeera: primeiro, «o fim da Fundação Humanitária de Gaza (GHF)»; depois, a «retirada das tropas israelitas» para «as posições que ocupavam antes de violarem o cessar-fogo em março deste ano»; finalmente, o Hamas está à procura de «garantias internacionais para o fim da guerra». O primeiro ponto poderá parecer contraditório, mas têm sido várias as alegações de que a GHF tem favorecido «a agenda política de Israel», lê-se na notícia da Al Jazeera, que recorre às palavras de Tom Fletcher, chefe do serviço humanitário das Nações Unidas: «[A GHF] condiciona a ajuda a objetivos políticos e militares» e «faz da fome uma moeda de troca. É um espetáculo cínico (...) Uma folha de figueira para mais violência e deslocações».

Entre o otimismo e a incerteza

Ao analisar todas as tentativas de cessar-fogo entre Israel e o Hamas nestes mais de 22 meses de guerra, verifica-se que têm sido pautadas, essencialmente, por um princípio: a incerteza. Propostas, negociações, acordos frágeis e respetivas violações têm sido uma constante neste intenso jogo diplomático que parece estar sempre longe de conhecer um fim sólido. E desta vez, ainda que o timing e as circunstâncias sejam diferentes – o Irão, principal patrocinador do Hamas, está numa posição menos favorável –, parece não ser diferente. 

É possível que estas circunstâncias estejam na origem do otimismo parcial tanto de Trump quanto de Israel. O Chefe do Estado-Maior das FDI, Eyal Zamir, disse, citado pela Sky News, que «foram criadas condições para avançar com um acordo de libertação dos reféns». Condições estas que se devem principalmente ao «poder operacional» demonstrado por Israel, que conseguiu causar «grandes danos à governação e às capacidades militares do Hamas». Donald Trump, durante a última quarta-feira, garantiu que «estamos a chegar muito perto de um acordo sobre Gaza», e o próprio Netanyahu disse que há «boas hipóteses» para que tal suceda.

Mas a nuvem da incerteza continua bem presente. Porque se há, segundo os principais protagonistas, uma «boa hipótese» de se chegar a um acordo nesta matéria, a conversa muda de tom quando se fala do dia seguinte, isto é, o que acontecerá uma vez esgotados os sessenta dias previstos de cessar-fogo. Na quarta-feira, Jacob Magid, chefe da redação do The Times of Israel em Washington, abriu uma notícia com o seguinte parágrafo: «A administração Trump assegurou aos mediadores que não tenciona permitir que Jerusalém retome os combates contra o Hamas em Gaza após um cessar-fogo de 60 dias, mesmo que isso não esteja explicitamente incluído no texto de um acordo que está a ser discutido em Washington e no Catar, disse um diplomata árabe e uma segunda fonte familiarizada com o assunto ao The Times of Israel na quarta-feira». 

É sabido que este é um ponto sensível para Netanyahu, que não quer abdicar da possibilidade de retomar a guerra uma vez finalizado o cessar-fogo. E os EUA, mesmo contrários a essa hipótese, não são intransigentes. Isto porque, explica Magid, «manter em aberto a possibilidade de um regresso à guerra é visto como uma alavanca essencial contra o Hamas durante futuras conversações sobre os termos de um cessar-fogo permanente». Isto poderá indicar que, mesmo não incluindo esta cláusula na proposta por motivos de alavancagem negocial, os EUA poderão exercer pressão sobre Israel nos bastidores, ainda que Netanyahu negue essa possibilidade. Por tudo isto, o otimismo tem sido bem visível, mas a incerteza continua a ser o pano de fundo do conflito e da sua possível resolução permanente. 

Nobel da Paz?

A visita de Netanyahu à Casa Branca foi importante e o assunto da paz em Gaza, com todas as nuances antes apresentadas, foi exaustivamente abordado. Mas houve tempo para um momento simbólico. 

O primeiro-ministro israelita anunciou, entregando uma carta a Trump, que o governo de Israel recomenda o presidente norte-americano para receber o Prémio Nobel da Paz. «[Trump] está a forjar a paz, neste momento, num país, numa região após a outra. Por isso, quero apresentar-lhe, Sr. Presidente, a carta que enviei ao Comité do Prémio Nobel; está a nomeá-lo para o Prémio da Paz, que é bem merecido, e deve recebê-lo», disse Netanyahu no momento. Trump agradeceu e disse que, vindo de Netanyahu, «em particular, isto é muito significativo». O líder dos EUA nunca escondeu que é um dos seus objetivos e as suas campanhas foram marcadas pela vontade de trazer a paz num tabuleiro geopolítico que se tem destabilizado de forma sistemática. No primeiro mandato logrou acordos importantes no Médio Oriente, e o ataque do Hamas a Israel no 7 de outubro tinha como um dos principais objetivos inviabilizá-los. Por isso, o objetivo de Trump parece ser reanimá-los e reclamar uma importante vitória diplomática dos EUA sob a sua liderança. 

Trata-se de algo que não é possível prever, mas, em caso de sucesso, e independentemente do Prémio Nobel, seria superlativo para a paz na região e no mundo.