terça-feira, 09 jun. 2026

Férias grandes, desafios maiores. Como ocupar os mais pequenos no verão?

Para os pais que ainda estão a trabalhar, esta época do ano representa um verdadeiro desafio logístico. Como garantir que os filhos estão ocupados, seguros e a divertirem-se sem ecrãs, quando os adultos ainda têm horários de trabalho? Entre campos de férias, atividades culturais e soluções caseiras, há muitas formas de preencher os dias
Férias grandes, desafios maiores. Como ocupar os mais pequenos no verão?

Com o fim do ano letivo, muitas crianças e jovens iniciam o período mais esperado do ano: as férias grandes. Para eles, são semanas de liberdade, sol e diversão. Para os pais, especialmente os que continuam a trabalhar, esta altura representa um verdadeiro desafio logístico.

A disparidade entre o calendário escolar e o laboral é uma realidade que muitos pais portugueses conhecem bem. Mesmo com dias de férias marcados para agosto, a verdade é que os meses de julho e setembro, bem como parte de junho, permanecem difíceis de gerir. Mas há soluções. É preciso é planear com antecedência e ter criatividade, para ocupar o tempo das crianças de forma enriquecedora, quer durante os dias em que os pais ainda estão a trabalhar, quer depois, no tempo de férias em família.

Campos de férias

Uma das soluções mais procuradas são os campos de férias e os ATL (Atividades de Tempos Livres), disponibilizados pelas escolas e/ou pelas juntas de freguesia a que pertence o agregado familiar. Os programas para as crianças vão desde o desporto à ciência, passando pelas artes, atividades ao ar livre e até idas à praia. Estas são as opções mais em conta. O problema é que, muitas vezes, o número de vagas disponíveis não é suficiente para servir todas as crianças da zona.

Há também alternativas de campos de férias que não estão ligados a nenhuma entidade do Estado e que podem, por isso, ser mais caras, mas que oferecem uma variedade de atividades lúdicas, educativas e desportivas nas férias escolares. Tem-se assistido a um crescimento de espaços dedicados a acolher e a entreter as crianças não só nas férias grandes, mas também em todas as interrupções letivas. Em alguns destes espaços, as crianças dormem lá. Estes campos podem ser uma excelente oportunidade para as crianças se divertirem, fazerem amigos e viverem novas experiências, desenvolvendo competências através de jogos e atividades em grupo.

Para ocupar as crianças, a cultura e a ciência também não devem ficar de fora. O Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém – MAC/CCB – propõe oficinas lúdicas e pedagógicas,  semanais, para os mais novos, onde as crianças dos 4 aos 13 anos podem explorar técnicas como pintura, escultura ou desenho. No Porto, o Museu de História Natural propõe oficinas de verão para “pequenos naturalistas”, com passeios pela natureza e observação de insetos. Em Lisboa, o programa de férias do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT) junta ciência e arte, com oficinas para todas as idades. Os campos Science4you, em Lisboa e no Porto, convidam os participantes a fazer slime, a criar um vulcão em miniatura ou a construir sabonetes coloridos. O Oceanário de Lisboa também tem um programa dedicado às crianças de férias.

Mente sã em corpo são 

Para os mais ativos, os clubes desportivos são outra excelente alternativa. Há vários ginásios, em contexto mais urbano, que têm programas dedicados às crianças, onde estas podem experimentar diferentes modalidades ou, em alguns casos, aperfeiçoar uma que já pratiquem. Para quem prefere a praia, também há escolas de surf com programas específicos para crianças durante as férias, enquanto os pais ainda estão a trabalhar.

Os testemunhos dos pais ouvidos pelo i que experimentaram estas soluções são muito positivos.

Marta Santos, mãe da Rita e do João, de 9 e 12 anos, inscreveu, no ano passado pela primeira vez, os filhos numa colónia de férias interna, ou seja, ficam lá a dormir, e a experiência correu tão bem que vão voltar este verão. “Tive algum receio de não se adaptarem, principalmente à noite, mas eles adoraram. Voltaram mais independentes e extrovertidos”, contou ao i.

Já Inês Tavares, mãe de Miguel, de 7 anos, diz que foi o filho, geralmente muito tímido, quem “implorou” para ir novamente para as férias organizadas pela junta de freguesia onde moram, depois de ter “adorado” ir no ano passado. “Fazem jogos, vão ao cinema, à praia, à piscina. É um descanso saber que os miúdos estão divertidos e na rua, sem estarem presos em casa, sempre a olhar para um ecrã”, afirma.

Ricardo Silva inscreveu, pela primeira vez, a filha Teresa, de 8 anos, no programa de férias desportivas do centro onde ela pratica andebol. “Vai com os amigos e foi ela quem me pediu para ir. Faz-lhe bem divertir-se e gastar a energia em excesso que os pais, ainda a trabalhar, nem sempre conseguem acompanhar. Até vai dormir melhor”, diz a rir.

Acampar em casa 

No entanto, nem todas as famílias conseguem ou querem recorrer a soluções pagas. Nesses casos, a criatividade e a partilha entre famílias são essenciais. Organiza-se entre a família alargada e casais amigos com filhos, com uma espécie de turnos ou rotação entre os adultos, para que as crianças vão ‘rodando’ de casa em casa. Para quem não tem muita alternativa e cujos filhos são mais velhos, pode ser viável deixá-los algumas horas em casa, desde que com regras claras, atividades planeadas e contacto regular.

Marta Sousa trabalha em regime híbrido, mas, nesta altura, pede para ficar em teletrabalho para poder estar com os três filhos em casa, dada a falta de alternativas suportáveis para o seu orçamento familiar. A solução é ‘caseira’, mas não menos divertida. “Durante duas semanas, a última de julho e a primeira de agosto, vou dividir os dias entre trabalho e tempo com eles”, diz. Está a pensar repetir a fórmula do ano passado: criou um ‘clube de leitura’ com os miúdos, eles inventaram receitas e ela pontuou os melhores pratos, acamparam na varanda, etc. “Cansa, mas compensa”, considera.

São precisas férias das férias

Quando chega finalmente a vez dos pais também gozarem os seus dias de descanso, abre-se outro leque de possibilidades. Nas férias em família, o mais importante não é o destino, mas a qualidade do tempo juntos. Mergulhos no mar, passeios na natureza, piqueniques ou idas às festas tradicionais da zona de férias tornam-se experiências inesquecíveis. 

Há ainda o lado mais simples – e, muitas vezes, mais recompensador das férias, mesmo quando não se vai para lado nenhum: cozinhar juntos, filmes em família, jogos de tabuleiro ou acampar na sala são ideias que não custam nada, mas que ficam na memória. Não existe uma fórmula mágica. O importante é que as crianças tenham um verão feliz, ativo e seguro, com espaço para brincar, aprender e descansar. Se possível, longe dos ecrãs e mais perto dos pais, dos amigos e da natureza.

No final das férias, já quase de volta ao trabalho, fica a ideia de que são precisas férias das férias. Entre malas por desfazer, roupa para lavar, horários trocados e birras com o regresso à escola, a verdade é que o verão é intenso para todos. Mas também é isso que o torna inesquecível: a exaustão feliz de quem viveu tudo ao máximo – pequenos e crescidos incluídos.