Donald Trump conseguiu que os estados-membros da NATO concordassem em aumentar os orçamentos da defesa para 5% dos respetivos PIB até 2035. Há duas maneiras de encarar o acordo alcançado: uma é que ele é para valer e a outra que é para ‘americano ver’.
A prioridade dos membros europeus na conferência da NATO era aplacar o presidente americano mantendo-o comprometido com a Organização e, só, isso explica o seu tom “acomodatício” (num eufemismo simpático). Até porque, terão pensado, dez anos é muito tempo e, entretanto, muita coisa mudará; em particular, Trump terá deixado a presidência. Merz e Macron, como notou Timothy Garton Ash no FT deste domingo, retiraram qualquer sentido de urgência ao compromisso quando, reveladoramente, classificaram os 5% do PIB como um valor a atingir ‘ultimately’, o que significa, como limite de um longo processo de convergência. Um processo que, diga-se, estará também sujeito a muita manipulação sobre o que pode legitimamente ser classificado como investimento na “segurança”. Os europeus não encaram, pois, os 5% com excessiva seriedade.
O valor de 5% é um número redondo avançado por Trump sem justificação, muito como aconteceu com os valores mirabolantes que inventou para as tarifas ditas ‘compensatórias’. Para termos uma referência, durante a Guerra Fria os gastos com a defesa dos membros da NATO em percentagem do PIB variaram ao longo do tempo e entre países, mas foram geralmente superiores a 3% para a maioria dos Aliados. Para os membros europeus da NATO e o Canadá, os gastos com a defesa variavam normalmente entre 3% e 5% do PIB durante o auge da Guerra Fria. Cinco por cento sustentadamente parece, portanto, um valor historicamente elevado.
Por outro lado, é difícil entender que a origem da vulnerabilidade europeia face à Rússia resulte fundamentalmente de um escasso orçamento de defesa, pois os membros europeus da NATO gastam em defesa três vezes mais do que a Federação Russa (se bem que em paridade de poderes de compra os orçamentos se equivalham). Aumentar esse orçamento é provavelmente necessário, mas dificilmente será suficiente. E não falo apenas da questão de saber como essas verbas serão gastas, designadamente: qual o conceito estratégico de segurança europeia que presidirá à sua utilização (as ressalvas da Espanha sobre a segurança do flanco sul são aqui relevantes) e como a realização dessa despesa será coordenada entre os diferentes membros (para evitar situações como a dos 12 tipos diferentes de tanques de combate fabricados na Europa). Falo, sobretudo, da questão política. A Europa pode estar armada até aos dentes, mas sem resolver a questão política de quem decide e comanda o uso da força não conseguirá garantir a sua segurança nem a sua autonomia estratégica.
Segundo a The Economist, se a meta dos 5% for atingida em 2035, os estados membros passarão a gastar em termos reais mais 800 mil milhões de dólares por ano (1,5% do PIB combinado de 2024) do que antes da invasão da Ucrânia pela Rússia. As dívidas já são elevadas e as pressões financeiras sobre os governos, provocadas pelo envelhecimento da população e pelas taxas de juro mais elevadas, são grandes. A consequência económica mais evidente de orçamentos de defesa mais elevados será uma pressão adicional sobre as finanças públicas num contexto em que, de acordo com o FMI, a dívida pública das economias avançadas rondará em média os 110% do PIB no final da década. As taxas de juro subirão, a sustentabilidade das dividas em muitos países ficará comprometida e as pressões sobre os bancos centrais para monetizar as dívidas baixando as suas taxas de juro aumentarão. Consequência? Inflação! Afinal a forma como todas as guerras na história acabaram sendo pagas.
Professor universitário