quinta-feira, 22 jan. 2026

BdP. Gaspar na linha de sucessão

Mandato de Mário Centeno à frente do Banco de Portugal está prestes a terminar e Governo tem de acelerar decisão sobre quem será o seu sucessor. Vítor Gaspar é o nome mais bem posicionado, seguido por Ricardo Reis. Vítor Bento terá resistência.
BdP. Gaspar na linha de sucessão

Vão estando vários nomes em cima da mesa para suceder a Mário Centeno na liderança do Banco de Portugal (BdP) que termina o mandato no próximo dia 19 de julho. A relação tensa entre o governador e Luís Montenegro ditaram a sua não recondução no cargo de acordo com vários especialistas ouvidos pelo Nascer do SOL.

É certo que esta confirmação tem tardado e o ainda governador tem mostrado a sua disponibilidade em continuar a liderar o banco central. Em outubro de 2024, o primeiro-ministro afirmou que tinha «seguramente uma ideia» sobre o futuro de Centeno, mas só a anunciaria no final do mandato. Já em janeiro deste janeiro, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, referiu que ainda não tinha sido tomada qualquer decisão, que o tema era «extemporâneo» e que seria discutido apenas quando o mandato estivesse mais perto do fim.

Um prazo que está prestes a terminar e que pode ter sido atrasado, ao que o nosso jornal apurou, pelo Fórum do Banco Central Europeu (BCE) – que reuniu algumas das principais figuras da política monetária, nomeadamente o presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed) – que se realizou em Sintra nestes últimos dias, já que não faria sentido falar num sucessor num encontro dominado por governadores.

Para já, Vítor Gaspar é, ao que o Nascer do SOL apurou, um dos mais bem posicionados para assumir as rédeas do BdP. O ex-ministro das Finanças de Pedro Passos Coelho foi um dos rostos da execução do programa de ajuda financeira da troika e é, desde 2014, o diretor do departamento de Assuntos Fiscais do Fundo Monetário Internacional (FMI), tendo já mostrado em março desde ano a sua intenção de sair em novembro de 2025.

Antes disso, já tinha desempenhado cargos no Banco de Portugal – como consultor, diretor de estudos económicos e conselheiro – no Banco Central Europeu – como diretor-geral de Investigação e Estatísticas, onde colaborou na na definição de estratégia monetária – e na Comissão Europeia, em que liderou gabinete de conselheiros políticos (BEPA) sob a liderança de Durão Barroso.

Mas se para uns, Gaspar pode ser encarado como favorito, para outros o seu nome ainda estará relacionado à austeridade, o que poderá colocar alguns entraves em relação à sua nomeação.

Ao Nascer do SOL, Luís Aguiar-Conraria lembra que Vítor Gaspar tem um percurso semelhante ao da presidente do BCE, Christine Lagarde, já que foi ministra das Finanças, em França, depois esteve à frente do FMI até ir para o órgão regulador. Neste caso Vítor Gaspar depois de ter estado no Banco Central Europeu, foi para ministro das Finanças e depois para o FMI, recordando ainda a crítica que fez a Mário Centeno quando estava no organismo internacional. «Criticou Centeno por ter ido do Governo diretamente para o Banco do Portugal. Neste caso, essa crítica não se aplica tanto a Gaspar porque deixou de ser ministro há muito tempo, mas poder-se-ia dizer o mesmo quando foi o FMI porque estava em Portugal a aplicar o plano do FMI, depois vai trabalhar para o FMI e pode-se perguntar legitimamente quando estava aqui a aplicar o programa do FMI se estava preocupado com a sua imagem para depois ser contratado pelo FMI», afirmou.

Ainda assim, o economista reconhece-lhe mérito e admite que «parece normal tendo em conta a sua experiência internacional relevante».

Exclusivamente académico

Outra hipótese que poderá estar na calha é Ricardo Reis. Aliás, foi o economista que chegou a integrar a equipa que aconselhou o atual primeiro-ministro no programa económico com que a AD concorreu às primeiras eleições. É um nome dos economistas portugueses mais conhecidos fora, é professor na London School of Economics e conta no seu currículo trabalhos que desenvolveu como consultor externo do Banco de Inglaterra (BoE) como membro do painel consultivo do BCE, assim como colaborador em outros organismos internacionais, nomeadamente o FMI. E se esta escolha poderá ser vista como uma boa aposta para renovar o banco central há quem aponte a falta de experiência no mercado nacional e a idade como um possível entrave.

Críticas que são compreendidas por Conraria, que afirma que Ricardo Reis não tem experiência institucional, nem nunca vai ter porque é um académico, mas acena com o seu currículo. «É normal os reguladores serem regulados por académicos. Dentro da área de política monetária é dos melhores académicos do mundo. Trabalhou com os melhores economistas mundiais e o trabalho científico que tem na área de combate à inflação é referência mundial. Por isso, se há académico que está bem preparado é Ricardo Reis», salienta.

O economista recorda que o próprio Mário Centeno era «puramente académico» antes de ir para o Ministério das Finanças, tendo feito carreira dentro do Banco de Portugal na área de investigação.

Hipóteses mais remotas

Na linha de sucessão, embora em segundo plano, surge Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia e do Emprego do Governo de Passos Coelho. Tem um forte currículo ligado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), onde teve várias responsabilidades e atualmente é economista-chefe do organismo. Em relação ao mercado nacional tem defendido uma política de reformas para acelerar o crescimento económico e melhorar a competitividade de Portugal, mas ao que nosso jornal apurou a falta de experiência no setor bancário e o seu perfil académico poderão condicionar a sua nomeação.

Também Vítor Bento é outro nome apontado. No entanto, apesar da experiência que tem no setor financeiro, por outro lado, está fortemente ligado ao setor privado, já que exerce atualmente o cargo de presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), cujo mandato termina em 2026 e onde representa os interesses do setor bancário português, dialogando com o Governo, reguladores e outras instituições. A somar há que contar que foi presidente do Banco Espírito Santo antes do seu colapso e, mais tarde, presidiu o novobanco, o que pode ser encarado como um risco para a independência do BdP.

E é aqui que Luís Aguiar-Conraria tem dúvidas: «Vítor Bento também teria capacidades para desempenhar o cargo, mas o que me parece mais esquisito é o facto de ter trabalhado no setor bancário e ser atualmente presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Neste caso está objetivamente a fazer lobby pelos bancos que é um setor regulado pelo Banco de Portugal. Parece-me um bocadinho complicado ao nível de incompatibilidade», confessa ao nosso jornal.

No entanto, recorda que Vítor Bento continua a ser quadro do Banco de Portugal e está «emprestado» aos bancos.

Como é feita a escolha

De acordo com as atuais regras – a Iniciativa Liberal já sugeriu que o governador deixasse de ser proposto pelo Governo e que esta seleção seja feita através de um concurso público por um órgão interno e que o cargo não possa ser ocupado por quem exerceu funções governativas nos três anos anteriores – o Governador e os restantes membros do conselho de administração são designados por resolução do Conselho de Ministros, sob proposta do membro do Governo responsável pela área das Finanças e após parecer fundamentado da comissão competente da Assembleia da República que apesar de não ser vinculativo tem sempre um peso político.

Por norma, esta nomeação deve envolver negociações políticas entre Governo e os partidos da oposição. É certo que nem sempre esta escolha é pacifica e Mário Centeno foi um desses casos. Na altura, a oposição questionaram a sua independência tendo em conta o seu cargo como ministro das Finanças e ausência de período de nojo, levando a questionar se a independência do Banco de Portugal poderia sair comprometida.