O Matuto, o Fausto, a Centopeia e a Felicidade

Não é possível estabelecer com a felicidade, de acordo com certos pensadores, uma relação de posse, daí que nunca sejamos donos da felicidade. A felicidade habita dentro de nós. Ou nós habitamos nela.

O Matuto aprecia as cenas domésticas de domingo. Ele regala-se com paz matutina dos domingos de inverno, neste país que tão generosamente o acolheu no seu seio. De café na mão o Matuto vai para o jardim da “Casa das Pontes”, onde a piscina é um espelho de água. Dona Sirlei, a gentil esposa do Matuto, com gestos certeiros da peneira, caça insectos e penas mortas. O sabiá – de peito amarelo vivo – pousa na beira e mergulha em vôos rasantes, fazendo a sua higiene matinal. As pombas já estão atarefadas, na dinâmica trigonométrica de fazer o ninho nas arcadas. O ‘bem-te-vi’ canta desalmado ‘tuiii-ti-tiii... tuiii-ti-tiii...’ A imponente Ipê que a semana passada estava em modo de explosão roxa, perdeu as flores e exangue levanta-se estremunhada acima dos muros. O pardalito do telhado saltita feliz. O Óscar – a lagartixa residente das ‘Pontes’ – espreguiça o corpo gelado: “Safa! Está um frio de rachar. E dizem que isto é um país tropical! Afh”. Nos arbustos umas azaleias cor de rosa florescem muito timidamente. No écran (tela, no Brasil, por favor) do computador a newsletter cultural do “The Spectator” para degustação vespertina. Na vitrola Spotifiana, a voz inteira de Lola Albright, num swing harmonioso e honesto. No céu reina uma quietude azul sem nuvens.

Será isto a felicidade – atreve-se a perguntar o Matuto. Não é possível estabelecer com a felicidade, de acordo com certos pensadores, uma relação de posse, daí que nunca sejamos donos da felicidade. A felicidade habita dentro de nós. Ou nós habitamos nela – atreve-se a contrapor o Matuto.

O assunto irrompeu que nem um vulcão na “Casa das Pontes”. “A felicidade é quando a gente se sente abraçada” – argumenta a Belinha, a visita conservadora das ‘Pontes’ – “é uma reminiscência do ventre materno”. O Marcello, a visita reaccionária das ‘Pontes’, concorda num trejeito de cabeça. O Matuto constata que nestes últimos tempos o Marcello anda muito conciliatório. Huuummm, aqui há gato! “Para sermos leais com a felicidade temos de sair de dentro dela. Nunca temos consciência de que somos felizes, no presente. É sempre uma recordação: fui feliz”. “Então a felicidade é uma gratidão” – acrescenta o Sr. Rocha, a visita letrada das ‘Pontes’ – “uma forma de darmos dignidade à existência”. O Matuto apenas escuta – algures ele leu que os Japoneses escutam muito porque só se entende uma frase quando ela é dita até ao fim, assim é feita a gramática Japonesa. E, aí temos o Matuto nessa postura atávica de escutação. “Felicidade é uma paz interior, bem no fundo de nós” – remata Dona Sirlei. A Belinha encadeia outra opinião: “um relatório da Universidade de Oxford diz que os jovens estão cada vez mais infelizes e contrafeitos. A razão é a falta de comunicação com outros seres vivos. Pais, amigos, etc”.  Encafifam-se no bicharoco a que o mundo chama telemóvel, celular, telefonino, portable, handy, mobile, e dá nisso – resmunga (à escuta) o Matuto.

O tema é complexo. O Matuto sabe de fonte segura que Fausto, no poema trágico de Goethe, em certo momento de plenitude, roga: “fica um pouco mais. És tão bonito! – du bist so shön”. E ali mesmo, vende a alma ao diabo. Numa busca Mefistofélica pela felicidade, Fausto entrega-se à acumulação de conhecimento – mas, alas, a felicidade não mora aí; envolve-se em projectos humanitários – mas, alas, a felicidade tão pouco mora aí; vive a paixão avassaladora com Margarida, e o chagrin pela sua morte – mas, alas, a felicidade também não mora lá; sendo finalmente resgatado pela Graça divina que apesar dos seus erros prevalece sobre a tentação demoníaca.

Por isso o Matuto atreve-se a sugerir que a felicidade poderá estar no espaço do desapego. No desprendimento. Nos momentos de pura graça. Prodigiosa graça! Nos momentos do golpe de asa a tocar o sublime. Como na história da barata e da centopeia. A barata era má e invejosa, sempre irritada porque a centopeia tinha muito mais patas do que ela, e era mais graciosa. Um dia a barata má disse à milípede centopeia, com malévola adulação: “Que graça maravilhosa tu tens ao caminhar, que coordenação incrível. Não sei como consegues te locomover tão sinuosa e facilmente com todas essas patas. Poderias explicar-me?” A centopeia, toda vaidosa, estudou-se a si mesma e depois com a toda a boa vontade informou o mecanismo: “É fácil! Basta mexer as cinquenta patas do lado direito para a frente, enquanto se mexe para trás, sincronizadamente, as cinquenta do lado esquerdo. E, vice-versa.” A barata fingiu admiração: “Que fantástico! Poderias dar-me uma demonstração?” Veio a exibição... E a centopeia ficou toda travada, bloqueada, e nunca mais se mexeu.

É isso aí – pensa o Matuto. Há momentos em que intuímos o belo. Migalhas de elegância. Beleza enxuta. Tudo muito orgânico e natural. Sem a narcísica consciência do EU. (por isso as selfies, como as ‘cartas de amor’, são ridículas!) João, o Evangelista, fala sobre um desses momentos em Apocalipse. Sem afinco próprio, ele se “achou em espírito” (Apo. 1:10). O horizonte recuou e os andaimes do tempo e do espaço foram suspensos. Ele tem a visão magnífica do Jesus Cristo glorificado e da Benção futura. Momento feliz!

Bom! O Matuto decide não matutar mais sobre a felicidade: não vá ele ficar paralisado como a centopeia, tropeçando nos próprios pés.