sexta-feira, 12 jun. 2026

Direita e Esquerda, a falsa oposição dos extremos

Não existe uma experiência histórica sólida em que regimes ou políticas de esquerda radical, tal como de direita radical, tenham produzido sociedades mais livres, prósperas ou pluralistas.

Uma análise factual dos extremismos políticos revela uma evidência incontornável: aquilo que, em teoria, deveriam ser ideologias opostas, extrema-direita e extrema-esquerda, manifesta na prática convergências inquietantes. A história e a psicologia política mostram que os radicalismos, mesmo de sinal contrário, partilham estruturas mentais, culturais e operacionais semelhantes. A diferença está, muitas vezes, no modo como são percebidos.

Na cultura política ocidental, a extrema-direita foi convertida num símbolo absoluto do mal, mesmo quando surge em ambientes democráticos, ao passo que a extrema-esquerda foi gradualmente normalizada. Esse tratamento desigual tem raízes históricas compreensíveis: o papel da União Soviética na derrota do nazismo, a idealização do socialismo como alternativa ao modelo capitalista e a posterior adaptação da esquerda ao liberalismo económico dominante.

É nesse processo que a esquerda radical, desprovida do seu projeto económico original, se funde no progressismo contemporâneo: um discurso liberal nos costumes e nas causas culturais, ao serviço de uma lógica económica igualmente liberal e globalista. O resultado é uma aliança paradoxal entre militância identitária e capitalismo financeiro, que tem contribuído para a fragmentação do espaço público e o enfraquecimento dos fundamentos democráticos.

Entretanto, enquanto os movimentos da extrema-direita são denunciados, rotulados e marginalizados, os seus equivalentes ideológicos à esquerda mantêm presença ativa nos média, na academia e em setores do Estado, sendo frequentemente apresentados como forças de emancipação, justiça ou progresso. O seu peso eleitoral pode ser limitado, mas o seu impacto simbólico e institucional é profundo, embora raramente escrutinado com a mesma severidade.

Importa afirmar o óbvio: não existe uma experiência histórica sólida em que regimes ou políticas de esquerda radical, tal como de direita radical, tenham produzido sociedades mais livres, prósperas ou pluralistas. O que se observa, pelo contrário, é uma tendência comum para a imposição moral, o recurso à violência política e a recusa sistemática do dissenso. A legitimidade do adversário é negada. O debate é substituído pelo combate simbólico. A complexidade é esmagada por categorias binárias: opressores e oprimidos, traidores e justos.

Hoje, não é raro encontrar posições comuns entre radicais de sinais opostos. O anti-imperialismo, o antiamericanismo ou o anti-sionismo são bandeiras partilhadas tanto por setores da extrema-direita como por partidos de esquerda radical. Aliás movimentos ditos antifascistas adotam métodos que, em muitos aspetos, espelham os comportamentos das forças que afirmam combater. Seja em nome da justiça histórica ou da identidade nacional, os extremos recorrem ao mesmo vocabulário tático: intimidação pública, silenciamento, coação moral, agressões, destruição de propriedade, cancelamentos, exposição pública de dissidentes. A ação direta substitui a argumentação. O outro não é um adversário com quem se discute. É um inimigo a neutralizar.

É esta cultura de negação do pluralismo que une os extremos. O seu modelo político é totalizante. O seu horizonte é redentor. A sua lógica é revolucionária no sentido mais primitivo do termo. Quer refazer o mundo do zero, segundo um código moral exclusivo.

Nenhum extremismo é compatível com a liberdade. A democracia não se constrói sobre purezas ideológicas, mas sobre compromissos imperfeitos. Não sobre unanimidades morais nem sobre pensamento único totalitário, mas sobre a aceitação do dissenso.

Quando alguém nos quer calar, humilhar ou eliminar por pensarmos de forma diferente, não importa se o faz com bandeiras negras ou vermelhas é ele sim o verdadeiro inimigo.