«Quem quer passar além do Bojador; Tem que passar além da dor». – Fernando Pessoa Vivemos tempos peculiares em que o medo parece ter sido elevado à condição de virtude suprema. Não é que sejamos naturalmente mais medrosos do que os nossos antepassados; simplesmente, tornámo-nos vítimas (voluntárias ou involuntárias) de uma sofisticada indústria de propagação do receio. Políticos, académicos, burocratas e até jornalistas – gente que outrora se dedicava à nobre tarefa de esclarecer e guiar – agora parecem mais interessados em atiçar medos para fins propagandísticos. ‘O planeta vai ferver com o aquecimento global!’; ‘A guerra comercial é assustadora!’; ‘A eleição de Meloni e a emergência da extrema-direita na Europa é aterrorizadora!’; ‘A Inteligência Artificial acabará com a humanidade!’.
Permitam-me partilhar convosco um segredo mal guardado: nada domina tão bem as mentes quanto o medo. As páginas da História ensinam-nos que, desde tempos imemoriais, líderes habilidosos têm usado a ameaça do caos, da invasão, da doença ou do desastre económico como um eficaz instrumento de controle. ‘Entreguem-me mais poder (menos liberdade) e prometo-vos segurança’, sussurram suavemente aos ouvidos assustados. O povo, angustiado pelo desconhecido, rende-se, por vezes com entusiasmo, frequentemente com resignação. E assim aumenta o poder de políticos, burocratas (Bruxelas) e até de opinion makers.
A verdade desconcertante é que essa propagação incessante do medo vem acompanhada de um subtexto subtil e perigoso: somos pequenos demais, frágeis demais, insignificantes demais para termos verdadeiro poder sobre as nossas próprias vidas. ‘Deixem as grandes decisões nas mãos dos que sabem melhor’, dizem-nos os pregadores da desgraça. ‘Limitem-se a assistir, preocupados, à inevitável marcha dos acontecimentos’.
Este sentimento de impotência transforma-nos gradualmente numa sociedade acomodada, excessivamente prudente e paralisada. Vivemos numa época em que preferimos a segurança ilusória do conforto e da previsibilidade. Onde antes havia empreendedores audazes, hoje encontramos indivíduos demasiado cautelosos, temerosos de arriscar, de experimentar, de inovar. As conversas são cuidadosamente filtradas, as opiniões diluídas para não ofender, as ideias novas recebidas com desconforto e apreensão.
O resultado? Uma sociedade em redoma, fechada sobre si própria, onde o potencial criativo, empreendedor e intelectual de tantos permanece subaproveitado. O debate de ideias torna-se estéril, previsível e desinteressante. O horizonte de muitos cidadãos reduz-se progressivamente até caber confortavelmente num ecrã de smartphone, inundado por um mar constante de alertas e notificações apocalípticas.
Porém, permitam-me lembrar-vos que todas as épocas de crise também encerram em si sementes de grandes oportunidades. No meio do pessimismo generalizado que surgem as maiores vantagens para aqueles capazes de discernir além da cortina de medo. Se é verdade que vivemos na ‘Era dos Cobardes’, então também é verdade que nunca foi tão valioso ser-se corajoso.
Aqueles que têm a ousadia de perseguir os seus sonhos, que recusam aceitar passivamente os limites artificiais impostos por uma cultura dominada pelo medo, descobrirão que têm um poder desproporcionado para moldar o seu destino. Neste contexto, a coragem torna-se uma virtude não apenas admirável, mas especialmente lucrativa, permitindo que poucos audazes aproveitem oportunidades abundantes, ignoradas pela maioria.
Durante esta década, garanto-vos, os corajosos destacar-se-ão mais do que nunca. Será a coragem a grande moeda desta era, valorizada precisamente pela sua escassez. Disse Steve Jobs, fundador da Apple, que a vida dele mudou quando descobriu que tudo o que via a sua volta tinha sido construído por humanos que não são mais espertos que ele. Que podia mudar as coisas, pensar diferente, experimentar e ver o seu impacto. Com essa filosofia criou a Apple e a Pixar com inovações ainda hoje sentidas.
Assim, caros amigos, exorto-vos: rejeitem o canto sedutor e tóxico dos profetas do medo. Não cedam à tentação de ver-se pequenos perante os desafios do mundo. Recordem-se, acima de tudo, de que não são vítimas impotentes das circunstâncias, mas protagonistas capazes e audazes na história das vossas próprias vidas. Que o vosso exemplo sirva para dissipar, pouco a pouco, as sombras que nos cercam e para reacender a chama de uma sociedade ousada, empreendedora e livre.