quarta-feira, 10 jun. 2026

Violência contra enfermeiros: um sintoma de um sistema doente

Reconhecer e enfrentar as múltiplas formas de violência contra os enfermeiros não é apenas um imperativo ético. É uma questão de saúde pública.

Em Portugal, falar de violência contra enfermeiros é, infelizmente, muito mais do que relatar casos de agressão verbal ou física por parte de utentes ou familiares. É expor um problema estrutural e sistémico, profundamente enraizado nas práticas de gestão e nas prioridades do próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS). 

A violência não vem apenas de fora. Muitas vezes, está entranhada no próprio sistema, de forma subtil, mas constante,  e manifesta-se diariamente através da sobrecarga, da precariedade e da falta de reconhecimento.

Não são raros os relatos de enfermeiros insultados, ameaçados ou mesmo agredidos fisicamente durante o exercício da sua profissão. Apesar de muitas vezes normalizado, este fenómeno não é aceitável nem inevitável. 

A maioria dos episódios ocorre em ambientes hospitalares e de urgência, onde o stress dos utentes se cruza com tempos de espera elevados, escassez de profissionais e falhas de comunicação. Nestes contextos, os enfermeiros tornam-se os alvos mais fáceis. São eles que estão na linha da frente, disponíveis, mas cada vez mais expostos.

Foi neste cenário que a Ordem dos Enfermeiros (OE) defendeu que a violência contra estes profissionais deve ser considerada crime público, ou seja, que a sua denúncia não dependa da iniciativa da vítima. 

Esta proposta, apresentada em audição parlamentar a 12 de outubro de 2022 e reiterada em comunicado a 11 de janeiro de 2024, representa um passo importante e simbólico: reconhece que proteger os enfermeiros é uma responsabilidade coletiva e do Estado, e não apenas um problema individual. 

Permitir que o Ministério Público atue mesmo sem que o enfermeiro apresente queixa formal é reconhecer que estas agressões atingem toda a estrutura do SNS e fragilizam a confiança na profissão.

Segundo dados da Direção-Geral da Saúde, só nos primeiros dez meses de 2022 foram registados 1.347 episódios de violência contra profissionais de saúde, um aumento superior a 40% face ao ano anterior. Desses casos, 31% envolveram enfermeiros 

A violência psicológica foi a mais reportada (67%), seguida de assédio (14%) e violência física (13%). Apesar da gravidade, apenas 75 situações foram denunciadas criminalmente, o que demonstra a urgência de um regime legal mais protetor.

Contudo, criminalizar as agressões é apenas uma parte da resposta. Por detrás da agressão visível, há uma violência institucional, muitas vezes ignorada: a das dotações inseguras.

 Portugal continua a ter menos enfermeiros por habitante do que a média da União Europeia. De acordo com dados da Comissão Europeia, a média da UE é de cerca de 8,5 enfermeiros por 1.000 habitantes, enquanto Portugal se mantém abaixo dos 7. Esta diferença torna-se ainda mais crítica quando se considera o envelhecimento da população e a complexidade crescente dos cuidados de saúde.

O resultado é uma carga de trabalho desumana, turnos intermináveis, burnout e um ambiente onde o erro é quase inevitável. Trabalhar nestas condições é, por si só, uma forma de violência. Uma que adoece lentamente, mina a motivação e empurra os enfermeiros para fora do SNS ou para fora do país. A emigração constante de profissionais de enfermagem não é apenas motivada por melhores salários. É também uma tentativa de fuga a um sistema que os desvaloriza e esgota.

A violência institucional vai além das dotações. Está também na precariedade contratual, nas progressões bloqueadas, nos salários estagnados e na falta de voz dos enfermeiros nas decisões políticas e organizacionais. Esta violência estrutural transmite uma mensagem clara: o trabalho dos enfermeiros é essencial, mas não é valorizado. 

Ao tratar os enfermeiros como recursos descartáveis, o sistema de saúde português compromete não só a dignidade dos profissionais, mas também a qualidade dos cuidados prestados à população. Como pode cuidar bem quem está constantemente à beira do colapso?

A proposta da Ordem dos Enfermeiros deve, por isso, ser acompanhada de uma política mais ampla e consequente. 

Se Portugal quiser proteger os seus cidadãos, tem de começar por proteger os seus profissionais de saúde. Isso significa implementar dotações seguras, com base em critérios científicos, e garantir que cada enfermeiro tenha condições para prestar cuidados com qualidade e segurança. Significa também combater a precariedade, melhorar as condições salariais e envolver estes profissionais nas decisões que afetam o seu trabalho. Reconhecer e enfrentar as múltiplas formas de violência contra os enfermeiros não é apenas um imperativo ético. É uma questão de saúde pública. Um sistema que adoece os seus cuidadores é, inevitavelmente, um sistema doente.

Secretário do Conselho Diretivo da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros e enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica