quarta-feira, 10 jun. 2026

O aviso de Klaus Mann. A barbárie e o ódio do Chega: como explicar?

O Chega explora o ressentimento dos espoliados do desenvolvimento e do progresso que a Democracia efetivamente concretizou

A sua tentativa de compreender tudo redunda numa espécie de complacência em relação à juventude que é um tanto excessiva. Nem tudo o que a juventude faz nos aponta o caminho do futuro. Eu, que o estou a dizer, sou eu próprio jovem. Ora, a maior parte das pessoas da minha idade – ou ainda mais novas – optou pela regressão com o entusiasmo que devia estar reservado para o progresso. É uma coisa que não podemos aprovar. Sob nenhum pretexto».

Estas são palavras de Klaus Mann insertas num livrinho que a Gradiva em boa hora reeditou: Contra a Barbárie – um alerta para o nosso tempo. São palavras dirigidas a Stefan Zweig que, no afã de querer encontrar na juventude a esperança contra o totalitarismo nazi-fascista, nela depositava uma inopinada crença, ilegítima, segundo Klaus Mann em face dos factos: a radicalização dos mais novos. A simpatia de Zweig pela juventude – di-lo o autor de Contra a Barbárie – impedia o grande escritor de ver em que consistia a revolta dos nacionais-socialistas. Pergunta: «Em que sentido se radicalizaram? É esta a questão que temos, afinal, que colocar. O radicalismo não pode, só por si, ser considerado algo de positivo, sobretudo quando não tem imaginação e assume comportamentos criminosos, como é o caso dos nossos cavaleiros da cruz gamada. Partir montras e ameaçar as pessoas com óleo de rícino está ao alcance de qualquer um». Estas palavras, por si só, abrem já para uma questão fundamental que não tenho visto ser debatida nestes seis anos de ascensão da força totalitária, esse partido feito de um chefe tribal, o Chega. Entre as palavras fascismo e fascínio há uma matriz linguística, mas há, sobretudo, uma matriz imaginária. 

A ascensão dos partidos liderados por um Duce tem, a explicá-la, primeiramente, um sentimento de orfandade que, misturado com o ressentimento social (sentimento de abandono pelos partidos ditos ‘do arco da governação’), com os baixos salários, as rendas altíssimas e a carga brutal de impostos, os maus serviços do Estado (transportes, saúde e justiça, educação, organismos autárquicos e uma bem oleada máquina de taxas dos mais diversos regimes) e a ideia de que as elites políticas se governam a si e não veem o interesse geral, isso origina os partidos extremistas. Este é o caso português e é o caso de muitos outros países onde, depois de anos de governação de sinal de centro-esquerda, o sentido do voto mudou e transferiu-se para partidos do centro-direita e, com grande velocidade, desde 2016, com o fenómeno Trump, tem na extrema-direita um eco bárbaro, perigoso. Bárbaro porque, potenciado pelas redes sociais, a barbárie se democratizou, ou melhor, se banalizou. 

Nomeadamente os jovens, que não conseguem ter salários dignos, mas também as pessoas que têm entre os 40 e os 55 anos, não compreendem senão isto: que trabalham, que descontam, mas sentem-se absolutamente à margem. Os jovens portugueses, assim como os que hoje já descontam há 25, 30 anos, são, de resto, são um exemplo paradigmático: com licenciaturas pré-ou pós-Bolonha, o que sentem é que o país só funciona verdadeiramente – apesar do enorme desenvolvimento desde 1974 que Portugal, sem dúvida, teve – para quem colabore com ou pertença aos partidos que nos últimos 50 anos governaram. Mas aqueles que votam no Chega são, em regra, não os licenciados pré ou pós-Bolonha, não os que vivem nos grandes centros urbanos, nem os que, vivendo nas áreas mais escolarizadas das cidades, têm mais conhecimentos de História, leem mais, estão informados sobre os perigos do Chega. O Chega explora o ressentimento dos espoliados do desenvolvimento e do pregresso que a Democracia efetivamente concretizou. O Chega é modelar: não pretende um país pacífico, unido e regido por um espírito de fraternidade intergeracional e intercultural. O que o Chega quer é precisamente o contrário: cavar fundo a separação entre os portugueses: os das cidades e os do país do interior; e, dentro das cidades, potenciar um ambiente de ódio mútuo: ricos contra pobres, classe média atacada por todos os lados, jovens contra os velhos, os bárbaros contra as elites com licenciaturas e cursos superiores. E é este um dos aspetos mais nefandos do Chega e que, na Assembleia da República, é já claro e manifesto: a agressão verbal tornou-se arma de ataque, o discurso racista é ouvido nas bancadas. O machismo mais soez e o cinismo mais larvar entraram de rompante em São Bento. 

Um exemplo para além de Ventura: Pedro Frazão, pai de imensos filhos, paladino da família, é um dos defensores do genocídio israelita. A contradição é óbvia. A hipocrisia é absoluta. Não lhe pesa na consciência os milhares de crianças palestinianas assassinadas pelo regime sionista de Israel, inimigo do próprio povo israelita. Frazão é, no limite, um jovem político que simboliza a mentalidade de muitos jovens que foram educados nos últimos anos por um sistema educativo que só lhes deu como valores a competição desenfreada e o dinheiro como alfa e ómega de uma vida que tem por alicerce a ambição. Em São Bento era bom que alguém lembrasse Klaus Mann: «O seu extremismo não representa a expressão de qualquer ideal desiludido, porque nunca tiveram nenhum». Não é só o regime que está em causa: é a vida.

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