No debate sobre a transição energética, a geotermia continua a ser um recurso muitas vezes ignorado face à visibilidade mediática das energias solar e eólica. Contudo, a energia proveniente do calor do interior da Terra apresenta características únicas que a tornam particularmente relevante para um sistema energético descarbonizado, resiliente e tecnologicamente diversificado.
A principal vantagem da geotermia reside na sua natureza contínua e previsível: fornece calor e eletricidade de forma estável, 24 horas por dia, durante todo o ano, com uma pegada ambiental extremamente reduzida. Esta fiabilidade é especialmente importante num sistema energético onde a intermitência das fontes renováveis variáveis exige maior capacidade de base.
Em Portugal, o aproveitamento da energia geotérmica está concentrado nos Açores, onde centrais nas ilhas de São Miguel e Terceira asseguram uma parte significativa da eletricidade insular. No continente, o uso permanece limitado a aplicações de baixa e muito baixa entalpia, como o aquecimento de edifícios, estufas ou circuitos industriais. Essa limitação é explicada tanto por fatores geológicos como por um insuficiente investimento em prospeção e desenvolvimento tecnológico.
Apesar das limitações atuais, Portugal possui um potencial geotérmico significativo, sobretudo nas regiões do centro e norte do país. O desenvolvimento de tecnologias inovadoras, como os sistemas geotérmicos estimulados (Enhanced Geothermal Systems – EGS), aliado a sondagens direcionadas e a um aprofundamento do conhecimento geológico, pode expandir substancialmente as áreas com viabilidade para exploração geotérmica. Este avanço é apoiado por uma investigação científica consolidada em instituições académicas como o Instituto Superior Técnico, cujo centro CERENA (Centro de Recursos Naturais e Ambiente) tem sido pioneiro no estudo do potencial geotérmico nacional e no desenvolvimento destas tecnologias. Paralelamente, o Técnico contribui para a formação de recursos humanos qualificados, oferecendo programas como o curso de Engenharia de Minas e Recursos Energéticos e o Mestrado em Engenharia de Recursos Energéticos, que incluem competências nas áreas da energia geotérmica, prospeção e modelação de reservatórios, preparando profissionais para atuar em toda a cadeia de valor da geotermia.
A nível europeu, países como Itália, França, Alemanha e Islândia têm já tradição na utilização desta fonte. Mais recentemente, a presidência húngara do Conselho da União Europeia impulsionou um novo posicionamento político: em dezembro de 2024, o Conselho adotou conclusões que apelam à criação de um Plano de Ação Europeu para a Geotermia. O documento propõe medidas como acesso facilitado a financiamento, reconversão de infraestruturas fósseis para uso geotérmico, simplificação de licenciamentos, requalificação de profissionais e a criação de uma Aliança Geotérmica Europeia, com o objetivo de coordenar políticas públicas, indústria e investimento.
Portugal pode – e deve – alinhar-se com este novo impulso. No início de 2025, a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) apresentou um Plano Estratégico para o Desenvolvimento da Geotermia Superficial. Trata-se de um sinal positivo, mas o documento ainda não passou por uma consulta pública formal nem foi adotado pelo Governo por via de Resolução do Conselho de Ministros. Para que possa assumir-se como política pública efetiva, é necessário completar este ciclo institucional: abrir a consulta pública, ajustar o plano em função dos contributos recebidos e garantir a sua aprovação formal. Só assim o país poderá beneficiar do apoio europeu e integrar verdadeiramente a geotermia na sua estratégia de transição energética.
A geotermia não substituirá as restantes fontes renováveis. Mas num sistema que precisa de diversificação tecnológica, de segurança de abastecimento e de estabilidade de preços, há um espaço que pode ser ocupado pela energia geotérmica. A energia está lá – literalmente – aos nossos pés. Não podemos desperdiçar esta dádiva da natureza.
Professora Catedrática
Professor Associado Departamento de Engenharia de Recursos Minerais e Energéticos
Instituto Superior Técnico