Fazem marchas, ocupam as escolas e grandes empresas, atiram tinta aos políticos e a obras de arte espalhadas pelos vários cantos do mundo. Há quem considere as suas ações “violentas” e “demasiado radicais”. No entanto, defendem que “a violência é outra coisa”, que temos de deixar de usar energias fósseis até 2030 e que só desta maneira conseguem fazer-se ouvir.
O Relatório Especial sobre os Impactos do Aquecimento Global de 1,5ºC, elaborado pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), uma organização da ONU que analisa milhares de trabalhos científicos, alerta que o mundo precisa de atingir zero emissões líquidas de CO2 até 2050 para ter 66% de probabilidade de permanecer abaixo do catastrófico limite de aquecimento de 1,5ºC. “Mas se isto acontecer existe ainda uma probabilidade de 1 em 3 de atingirmos o colapso dos sistemas terrestres. A meta de zero emissões até 2050 é assustadora demais, independentemente de outras considerações políticas e económicas. É necessário atingir a neutralidade carbónica antes”, alerta a Greve Climática Estudantil, o coletivo de estudantes que luta por justiça climática, baseado em Lisboa, que existe desde 2019 e faz parte do movimento internacional Fridays For Future, e da campanha internacional End Fossil (Fim ao Fóssil).
Recorde-se que os combustíveis fósseis são substâncias formadas por carbono e utilizadas para alimentar os processos de combustão. São aqueles que se originam a partir de restos de plantas e animais decompostos há milhões de anos e sedimentados nas camadas terrestres mais profundas, como por exemplo o carvão mineral, o gás natural e o petróleo, muito utilizados atualmente na indústria automobilística e na produção de elementos do nosso quotidiano, como os plásticos, óleos lubrificantes, tecidos, guloseimas, entre outros.
Perto do colapso? Segundo Matilde Ventura, de 20 anos, porta-voz do coletivo e também membro do núcleo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), há um entendimento comum entre as pessoas que se organizam no Fim ao Fóssil que é: “Isto é mesmo a nossa responsabilidade, não há ninguém que nos vá salvar. Os governos estão a falhar e somos nós os agentes de mudança, a última geração que pode travar o caos climático de acordo com a ciência”, afirma ao i. “Há de facto mecanismos de funcionamento da terra que estão a entrar em colapso e que são irreversíveis. Acima destes graus de aumento de temperatura, acima dos níveis pré-industriais, há certos mecanismos da terra que colapsam e o seu colapso gera tantas emissões que já pode levar ao colapso de outros ecossistemas”, explica, acrescentando que “existem milhares de mecanismos assim”. “É uma bola de neve”.
André, de 23 anos, é aluno do mestrado de História Contemporânea na FCSH. “Nós não estamos a pôr gases efeito estufa para a atmosfera e depois a tirá-los”, explica este membro da Greve Climática Estudantil. “O planeta está vivo e é dinâmico. A partir de um certo limite de temperatura, os ecossistemas começam a colapsar e o planeta começa a aquecer sozinho. Por exemplo, está demasiado calor e seca para as florestas se propagarem e se manterem. Depois começam a arder sozinhas”, exemplifica. “Sou de Montemor-o-Novo, tenho avós no Ribatejo, vejo as coisas a secar, de vez em quando é preciso deixar morrer uma área porque já não há água. É uma agonia lenta”, admite.
Falha dos governos Mas vários dos países mais desenvolvidos e da indústria de combustíveis fósseis têm outros planos. Já em 2023 ficámos a saber que os governos de todo o mundo planeavam produzir mais do dobro da quantidade máxima de combustíveis fósseis até 2030, limite que permitia manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus. “Os planos dos governos para expandir a produção de combustíveis fósseis estão a prejudicar a transição energética necessária para alcançar zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa, colocando em dúvida o futuro da humanidade”, salientou, na altura, a diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Inger Andersen.
O estudo - produzido em parceria com o Instituto do Ambiente de Estocolmo (SEI), a organização não governamental Climate Analytics e o grupo de reflexão europeu E3G -, comparou a produção de carvão, petróleo e gás planeada pelos governos com os níveis estabelecidos no Acordo de Paris (assinado em 2015 e que tem como objetivo combater o aquecimento global) para cumprir os limites de aumento da temperatura para evitar efeitos ainda mais devastadores da crise climática.
Os planos de 20 governos analisados no relatório envolvem a produção de cerca de 110% mais combustíveis fósseis até 2030 do que o necessário para evitar um aquecimento de 1,5 graus e 69% mais do que um aumento de 2 graus. Os países analisados incluem alguns dos maiores produtores mundiais de combustíveis fósseis, incluindo Austrália, Brasil, EUA, Rússia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, China, Nigéria, África do Sul, Colômbia e México.
"A maior parte destes governos continua a dar um apoio financeiro e legislativo significativo à produção de combustíveis fósseis”, lamentou o PNUMA. Embora 17 governos se tenham comprometido a atingir emissões líquidas nulas e muitos tenham lançado iniciativas para as reduzir, “nenhum deles se comprometeu a reduzir a produção de carvão, petróleo e gás para cumprir os objetivos climáticos”, reforçou.
Por isso, Matilde sente que os jovens ativistas e os especialistas não têm sido ouvidos. “O ano passado adicionámos um ponto na nossa narrativa: eletricidade 100% renovável e acessível para todas as pessoas até 2025. É uma coisa que demora três meses a instalar. Eletrificar a rede de distribuição demora três meses. Podia ser feito durante o verão, por exemplo. Ou seja, tecnicamente, é possível fazer esta mudança. Só não há vontade política. Quando olhamos para estas coisas que são muito mais simples, percebemos isso. Os governos têm estado focados no lucro, acima da vida e do bem estar das pessoas!”, sublinha. “Em 2019 - quando foi criado o coletivo -, éramos muito queridos. Começámos com a Greta, dizíamos que não há Planeta B, isso era um acessório muito interessante para os nossos governos. A partir do momento em que começámos a aparecer mais chateados, porque já passaram seis anos e eles não fizeram absolutamente nada, fica desconfortável”, afirma, referindo-se às formas de protesto que adotaram nos últimos anos. A jovem considera as condenações (de ativistas) mostram que esses protestos “estão a ser consequentes”. “Se um sistema tem tanta necessidade de se proteger assim, é porque nós estamos a tocar na ferida. Lutar pelo clima tem sido visto como crime”, acredita.
Desafios futuros Mas poderá a humanidade viver sem combustíveis fósseis? Chris Stark, chefe do Comité das Alterações Climáticas do Reino Unido, está otimista. Há três anos, o especialista partilhou com a BBC que distanciarmo-nos dos combustíveis fósseis passará pela “eletrificação de praticamente tudo”, e os aparelhos elétricos “tendem a ser mais eficientes do que os que funcionam com combustíveis fósseis”. “Pense no calor que sai do capô do seu carro. Isso é um desperdício de energia. Isso não acontece com um veículo elétrico”, explicou. “Outro exemplo é: para cada unidade de energia utilizada numa caldeira a gás, obtém-se uma unidade de calor. No entanto, numa bomba de calor elétrica obtém-se três”, continuou.
Stark afirma ainda que “mudar a solução elétrica reduz a demanda de energia, tornando a montanha de energia menor”. “A eletricidade renovável ficou mais barata do que a proveniente de combustíveis fósseis, fazendo com que a transição poupe dinheiro”, acrescentou. O britânico defendeu que a transição pode ser realizada sem grandes subsídios estatais. No entanto, as energias renováveis trazem grandes custos iniciais, quando são instalados painéis solares ou turbinas eólicas.
Ao BdF, André Ferreira, diretor-executivo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), esclareceu que o grande desafio em tudo isto é “o uso de energias renováveis no setor dos transportes e na indústria”. “Ao que parece, o consumo de energia fóssil para gerar energia elétrica está num bom caminho. Possivelmente, o setor de eletricidade será o primeiro a acabar com o uso de combustíveis fósseis”, acredita. “O desafio maior está no transporte de carga a longa distância, na substituição do óleo diesel [nos camiões, por outro tipo de combustível]”, aponta.
À publicação brasileira, o especialista adiantou que a dificuldade de encontrar uma fonte de energia substituta estende-se à produção de cimento, aço e derivados de petróleo, como o plástico. “Esses são setores que precisam de ter as suas emissões compensadas de alguma forma. Mesmo em 2050, num cenário net zero - estado ideal onde as emissões de gases de efeito estufa (GEE) libertadas na atmosfera são equilibradas pelas emissões removidas -, haverá neles algum combustível fóssil”, elucidou.