quarta-feira, 20 mai. 2026

O fim do ‘estabilizador’ norte-americano?

Com o novo posicionamento geopolítico dos EUA, estamos próximos de um mundo multipolar semelhante ao período do pós-Congresso de Viena de 1815.

Os desafios que a ordem internacional atravessa são complexos.Na conjuntura da atual dinâmica disruptiva – volatilidade na relação transatlântica; invasão da Ucrânia pela Rússia; grave inconstância no Médio Oriente; revisionismo da Rússia; China; Irão e Coreia do Norte, com as subjacentes tensões geopolíticas; impermanência económica internacional; dúvidas sobre a globalização; ascensão dos nacionalismos e lutas ideológicas entre os autoritarismos e as democracias –, é crível que nas próximas duas décadas assistamos a uma reconfiguração da estrutura do sistema internacional.  

De facto, a ordem internacional do pós-11 de setembro é manifestamente instável, levando-nos, por vezes, para um mundo semelhante àquele que Edward H. Carr descreveu em The Twenty Years’ Crisis, mas com dimensão e gravidade superiores. 

E se antes da nova Administração Trump caminhávamos para uma configuração bi-multipolar com dois centros de poder diferenciados – os EUA e a China – atualmente, com o novo posicionamento geopolítico dos EUA, estamos próximos de um mundo multipolar semelhante ao período do pós-Congresso de Viena de 1815.

Verifica-se, portanto, por exclusão de partes, o caminhar para o fim da hegemonia norte-americana, construída a partir de 1945. Este declínio é da responsabilidade de todas as Administrações norte-americanas do pós-2001, porquanto não tiveram capacidade para entender as novas dinâmicas sistémicas. Seja por inércia na ação, ou por incompetência, abdicaram – com efeitos irreversíveis – da posição hegemónica. 

Este é que é o centro da questão. O dilema não é apenas Trump (com todos os erros que cometeu em política externa e que são sobejamente conhecidos), o problema é mais grave pois foram lançadas muitas dúvidas sobre o papel dos EUA no plano global. Existe uma evidência que denota a fragilidade da política externa norte-americana: a ascensão das potências revisionistas (mais evidentes China e Rússia), mas, também, o Irão e a Coreia do Norte.

A grande estratégia russa de Vladimir Putin e a consolidação do ‘sonho da China’ de Xi Jinping, só foram possíveis porque existiu a perceção de um certo abandono dos EUA da ordem mundial e subsequente declínio da potência hegemónica.

Foram muitos os momentos e bastantes as razões que explicam a atual política mundial.

A recente questão das tarifas é apenas mais uma evidência. 

A propósito desta matéria, Charles P. Kindleberger no seu The World in Depression defendia que a economia mundial necessitava, obrigatoriamente, de uma potência hegemónica. Analisando as fontes de depressão norte-americana entre 1929 e 1939, Kindleberger argumentava que a estabilidade político-económica internacional pré-Primeira Guerra Mundial advinha da liderança do Reino Unido. Deste modo, o colapso do sistema no período entre guerras derivava da ausência de um líder hegemónico capaz de assegurar a abertura dos mercados e o fluxo do capital. Por isso, só os sistemas económicos internacionais com um único líder – ‘um estabilizador’ –, garantiriam a solidez do sistema internacional.

Ora, com efeito, quando os EUA – continuadamente – renuncia à sua posição de predominância e quando pelo meio contraria os princípios mais básicos do liberalismo económico, estamos, de facto, mais próximos do fim do ‘estabilizador’ norte-americano. 

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