terça-feira, 13 jan. 2026

A estabilidade de uns e outros

Caso os portugueses voltem a eleger um parlamento altamente fragmentado, como é que os dois principais partidos pretendem entender-se para garantir a estabilidade governativa nos próximos quatro anos e evitar que o país volte rapidamente a eleições?

Estabilidade e governabilidade são talvez as palavras mais repetidas pelos principais líderes políticos nesta campanha eleitoral. Luís Montenegro tem pedido aos eleitores que além das políticas concretas valorizem a «estabilidade». Pedro Nuno Santos prometeu encontrar uma solução no pós eleições que permita essa mesma estabilidade e gabou-se do trabalho nos anos da ‘geringonça’. Ambos exigem do outro condições de governabilidade em caso de vitória mas recusam comprometer-se com as mesmas condições em caso de derrota, apenas para não admitir essa possibilidade. André Ventura garante em entrevista que publicamos nesta edição que o Chega esteve sempre pela estabilidade – mas frisa que ela não é tudo. Já Rui Rocha diz-se disponível para ajudar à estabilidade governativa do país. 

Claro que a palavra tem significados diferentes. Para Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos, estabilidade significa votos suficientes para uma maioria absoluta, um cenário cada vez menos provável num parlamento cada vez mais fragmentado, ou para uma possível coligação pós-eleitoral – é o que Rui Rocha ambiciona para a Iniciativa Liberal: ter um resultado que lhe permita entrar num governo com a AD. Para André Ventura significa que o Chega fará parte de uma solução – mas o problema é que na atual liderança do PSD ninguém parece querer nada com ele. Daí a estabilidade não ser tudo para Ventura. 

Do outro lado do espetro político a estabilidade também é uma palavra interessante, mas por outros motivos. Para Mariana Mortágua é uma espécie de chantagem, um apelo ao voto útil, logo contra os pequenos partidos. Rui Tavares, inteligente, subverte a questão para acusar a direita de promover a instabilidade. Já Paulo Raimundo não deve estar muito preocupado com o tema uma vez que, a propósito do Orçamento já tinha proclamado um «que se lixe a estabilidade». 

A questão que interessa é apenas uma: caso os portugueses voltem a eleger um parlamento altamente fragmentado – sem esquecer a possibilidade de aos atuais partidos se juntar um deputado do madeirense Juntos Pelo Povo – como é que os dois principais partidos pretendem entender-se para garantir a estabilidade governativa nos próximos quatro anos e evitar que o país volte rapidamente a eleições? E a essa pergunta, infelizmente, nenhum parece querer dar resposta. Pelo contrário. Tudo parece indicar que a 19 de maio a possibilidade de entendimentos ao centro será ainda mais difícil do que há um ano. 

Depois de acusar Luís Montenegro de não ter idoneidade para ser primeiro-ministro, como poderá Pedro Nuno Santos negociar com ele? Depois de anunciar que, mesmo que ganhe as eleições, haverá uma Comissão Parlamentar de Inquérito à atividade e conduta do PM, um caminho fácil para minar a credibilidade do chefe de Governo e manter o executivo a arder em lume branco, como se espera que os dois se entendam? Depois de ouvir Montenegro chamá-lo de azedo, mentiroso e de o acusar de não ter vida cívica, política ou empresarial para o questionar, como irá o líder socialista sentar-se à mesa com o presidente do PSD? 

O confronto político, a discussão de ideias e propostas, o escrutínio são saudáveis e necessários. Mas quando se queimam pontes, quando as divergências políticas se tornam pessoais ao ponto de os líderes políticos serem incapazes de falar uns com os outros de forma civilizada, é a democracia que perde. Quando a linguagem do anonimato das redes sociais contamina o discurso público e político estamos a abrir espaço ao ódio e ressentimento. Quando aqueles que devem ser os mais responsáveis se perdem no mar da irresponsabilidade somos nós, os cidadãos, aqueles que esperam que os líderes sejam capazes de colocar o interesse nacional e o bem comum à frente dos interesses pessoais, que saímos derrotados. E, definitivamente, não é assim que se alcança a estabilidade do país. 

Poucos líderes políticos têm, hoje, o dom da palavra. Não no sentido da capacidade de oratória, mas no sentido de que, quando falam, são ouvidos – realmente ouvidos. Talvez isso aconteça porque não banalizaram as intervenções públicas ou porque são reconhecidos publicamente como alguém com autoridade política e moral. Pedro Passos Coelho é uma dessas pessoas. Cada vez que o ex-primeiro ministro diz alguma coisa, por mais óbvia que seja, o país fica discutir e esmiuçar as suas palavras – para mal de Luís Montenegro. No almoço de aniversário do PSD bastou-lhe dizer, em breves palavras, que o mundo vive tempos de grande incerteza dos quais o país não se pode alhear e que além de estabilidade o próximo governo precisa de um espírito reformista, para marcar a campanha. Muitos outros já disseram o mesmo. Mas nenhum com tanta propriedade e impacto. Uma vez que o próprio se mantém fora da política ativa, ao menos que seja ouvido por quem pode fazer alguma coisa.

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