quarta-feira, 10 jun. 2026

O impacto dos juros no crédito à habitação

As expectativas dos mercados apontam para taxas do BCE a rondarem os 1,5% até ao final de 2025

A maioria dos contratos de crédito à habitação em Portugal é de taxa variável, indexada à Euribor. O ciclo de subidas das taxas diretoras pelo Banco Central Europeu (BCE) desde julho de 2022 teve um impacto direto e expressivo no nível da Euribor, com repercussões imediatas no encargo mensal dos empréstimos. Como consequência, muitas famílias portuguesas tiveram um aumento considerável nas suas prestações mensais.

Segundo dados do Banco de Portugal, até setembro de 2022, mais de 80% dos novos contratos de crédito à habitação celebrados eram taxa variável, cerca de 12,5% taxa mista e apenas 5% taxa fixa. Em setembro desse ano, os valores foram 82,3%, 12,4% e 5,3%, respetivamente. A partir daí, e com o agravamento da inflação – ditado sobretudo pela escalada dos preços da energia devido à guerra na Ucrânia e pelas perturbações nas cadeias de abastecimento provocadas pela pandemia – verificou-se uma mudança gradual no perfil dos contratos.

Em agosto de 2024, já com sinais de desaceleração inflacionista e após o primeiro corte nas taxas diretoras pelo BCE, a percentagem de contratos com taxa variável atingiu o mínimo de 15,08%. Nesse mês, 79,58% dos contratos foram celebrados com taxa mista e 5,34% com taxa fixa. Em fevereiro de 2025, os dados mais recentes apontam para uma ligeira recuperação da taxa variável (22,6%), enquanto a taxa mista recuou para 71,8% e a fixa subiu ligeiramente para 5,6%.

O comportamento dos portugueses na escolha entre taxa variável, mista ou fixa está diretamente ligado à política monetária do BCE e às opções efetivamente disponibilizadas pelos bancos. Durante o período de taxas negativas, a banca raramente apresentou alternativas consistentes de taxa fixa. Mas agora parece ser o contrário: curiosamente, apesar das sucessivas descidas dos juros desde junho, até ao final do ano passado ainda existia uma oferta sólida de taxa fixa ou mista, embora, entretanto, este ano, essa opção tenha perdido visibilidade. O que se verifica é que tanto os portugueses como os bancos devem seguir a tendência – variável quando desce, fixa ou mista quando sobe – mas também ter atenção aos níveis: evita-se fixar quando as taxas estão muito altas, e aproveita-se claramente quando estão a zero. 

O BCE iniciou o ciclo de subidas a 21 de julho de 2022, após mais de uma década de taxas inalteradas. Até setembro de 2023, foram realizadas dez subidas consecutivas, totalizando 450 pontos base, até atingir os 4%. Já a partir de junho de 2024, iniciou-se um ciclo de cortes, com sete reduções até abril de 2025, fixando a taxa de depósito em 2,25%.

A trajetória atual de descida das taxas de juro é sustentada por três fatores principais. A tendência deflacionista associada às tarifas comerciais dos EUA aplicadas à Europa e à China. Como essas tarifas dificultam a venda de produtos europeus e chineses no mercado americano, a Europa torna-se um destino preferencial para o escoamento desses produtos. Com mais oferta disponível, tanto de produtos chineses como europeus, os preços tendem a descer, contribuindo assim para o alívio da inflação na Europa. A segunda é a valorização do euro, que encarece as exportações, obrigando o BCE a descer taxas. E, finalmente, a aproximação ao objetivo de inflação de 2%, permitindo ao BCE apoiar a frágil economia europeia. As expectativas dos mercados apontam para taxas do BCE a rondarem os 1,5% até ao final de 2025 – boas notícias para quem tem taxa variável, mas menos favoráveis para quem optou pela taxa fixa.