Desde que foi despedida no final de março pelo dono do Teatro Maria Vitória - onde tinha começado a trabalhar como assistente de camarim -, por ser uma mulher trans, que Íris Redol, de 26 anos, esteve a pensar se deveria ou não entrar com uma queixa contra Hélder Costa. «O que me estava a fazer ficar de pé atrás é o facto de eu não querer prejudicar ninguém que trabalhe lá: bailarinos, atores, técnicos, etc. Já é um trabalho precário e eu não queria estar a tirar o meio de sustento das pessoas. Mesmo quando falaram para me defender na semana passada, sempre me preocupou o facto de poder correr mal para o lado deles. Ninguém ali me fez nada de mal além do senhor Costa», conta ao Nascer do SOL.
Mas depois pensou: «‘Ele tem as opiniões que tem, fez o que fez e ainda se vai ficar a rir?’. Não quero. Quero ao menos que ele entenda que aquilo que fez é crime e estar agora a mudar o discurso, não altera em nada aquilo que aconteceu», garante. Nas redes sociais têm se multiplicado as posições em defesa do também encenador, ator e dramaturgo.
«Gostava que se fizesse justiça. Porque se não fizermos nada, parece que deixamos a porta aberta para que as pessoas continuem a ter este tipo de comportamentos», continua a jovem que revela estar a fazer terapia. «Isto afetou-me de uma maneira que muita gente não entende. Estou com mais disforia, estou muito mal comigo própria, sinto-me muito desvalorizada. E o que está a acontecer nas redes sociais não ajuda. Eu tento não ler, mas é impossível. Já vieram muitas pessoas do meio artístico proteger o senhor, mas parece que não leram a peça da semana passada, ou se leram, não acreditam», lamenta. Recorde-se que a disforia de género é definida como uma condição em que existe sofrimento mental associado à incongruência entre o género experienciado pela pessoa e o sexo que lhe foi atribuído à nascença.
Por isso, recorreu à Opus Diversidade que já a começou a ajudar com o processo. A Opus Diversidades (anteriormente conhecida como Opus Gay, e registada oficialmente como Obra Gay Associação) é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) e Organização Não-Governamental (ONG) sem fins lucrativos, reconhecida como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública. A sua missão passa por defender os direitos humanos com especial incidência nas minorias sexuais e étnicas e erradicar o estigma LGBTQIA+ com particular foco na população sénior.
Na terça-feira teve a sua primeira reunião com o presidente da direção, Hélder Bértolo. «Disponibilizaram uma assistente social para me ajudar a arranjar trabalho e um advogado para me acompanhar neste processo», adianta. Segundo o presidente da instituição, Íris terá todo o apoio a nível psicológico, social e jurídico. «Já tive uma reunião com uma advogada laboral para analisar esta situação. Isto é tudo muito recente. Reunimos com a Íris e falámos com a advogada esta semana. Agora é preciso analisar todas as evidências que existem, todos os testemunhos, há várias pessoas que presenciaram as coisas», detalha, garantindo que vão claramente avançar com uma denúncia à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) e à Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT). Depois os trâmites legais seguirão a estratégia que a advogada achar ser mais conveniente. «Podem haver várias estratégias... A mais imediata é uma denúncia junto das autoridades que têm competência para julgar e instruirem processos de averiguação relativamente à discriminação para a CIG e a ACT. Essa vai já seguir», reforça.
«Relativamente a apresentar queixa contra quem discriminou, possivelmente será feito junto do Ministério Público. Isso é uma análise que está a ser feita», revela.
De acordo com Hélder Bértolo, todos os dias chegam à instituição histórias como esta. «Durante muito tempo a orientação sexual e identidade de género foram consideradas crime. Ser homossexual em Portugal foi crime até 1982 e ainda há cerca de 70 países em todo o mundo que a criminalizam», lamenta. «Além disso, para muitas pessoas, as orientações sexuais e identidade de género - que não sejam heretos ou cis -, ainda são consideradas doenças, apesar da Organização Mundial de Saúde as ter deixado de considerar assim em 1990. Em populações que têm uma influência religiosa grande - seja católica, islâmica e judaica -, também há a ideia do pecado. Este estigma é muito complicado. Apesar de haver pessoas que dizem que as coisas estão diferentes e já temos todos os direitos, isso não é verdade», garante.
O presidente da instituição partilha ainda que a equipa acompanha muitas pessoas em situação de sem abrigo e, a representação da população LGBTQIA+ nessas condições, é à volta dos 30%, «o que é claramente uma subrepresentação». «Isto tem a ver precisamente com esta instabilidade: pessoas que são expulsas de casa porque a família não aceita, pessoas que são despedidas devido à sua orientação ou identidade de género... Portanto, infelizmente, não me espanta aquilo que aconteceu à Íris. O facto de não me espantar não significa que seja legal. Não é!», reforça. «Ninguém pode ser discriminado em função disso, a nossa Constituição diz-nos isso mesmo. No que diz respeito ao código de trabalho, os artigos 25 e 26, dizem isso mesmo», continua.
Segundo Hélder Bértolo, depois há questões que têm a ver com ignorância. «A utilização do nome morto: 'Eu não a reconheço como sendo mulher'. Não há o reconhecer ou não reconhecer. Há quem ache que as pessoas mudam de género no cartão de cidadão... Não mudam. As pessoas mudam de género na certidão de nascimento. A lei proíbe que no assento de nascimento fique alguma menção a um nome ou género anterior. A Íris é uma mulher, ponto final!», exalta.
«Ela revelou que era uma mulher trans, está no seu direito. Mas não tinha de fazê-lo. Não cabe ao senhor Hélder ou qualquer outra pessoa ir contra o Estado português. É o nome que está no registo», acrescenta lembrando que «as pessoas trans sofrem todos os dias na pele um nível de discriminação que a maioria de nós não suportaria». E deixa um apelo: «Não desistam, não se calem. Lutem pelos vossos direitos, procurem associações que estão preparadas para defendê-los. O pior que se pode fazer é desistir do direito de viver».