A musiquinha do Dorival Caymmi é velha como a noite dos trovões: «Você já foi à Bahia, nêga?/Não?/Então vá!». A II Grande Guerra tinha começado há pouco e a malta ainda se lembrava à brava da primeira. Siga! Você já foi a Ruhleben? Eu já. Mas se não foi não perdeu grande coisa. Dei por mim no sítio, por acaso, ao apanhar uma carruagem U2, da U-Bahn, a linha metropolitana de Berlim. E foi só. Depois informei-me. Tinha estado entre os bairros de Charlottenburg-Wilmersdorf (peço perdão pelo palavrão) e de Spandau. Obviamente Spandau recordou-me a prisão onde o apatetado Rudolf Hess ficou encerrado até ao fim da sua vida que marcou igualmente o fim da vida do estaminé. E daqueles rapazolas penteadinhos mais ou menos da minha idade que cantavam – «And now I know what they’re saying/‘Cause our sun begins to fade/And we made our love on wasteland/And through the barricades», não sei se estão a ver. Se não estiverem esqueçam porque eu vou falar através das barricadas, mas através das barricadas impostas no dia 28 de junho de 1914, o dia em que o Império Alemão, envolvido num conflito provocado pela declaração de guerra dos seus aliados do Império Áustro-Húngaro à Sérvia depois de um chavalo de 19 anos, Gavrilo Princip, ter rebentado com o físico do Arquiduque Francisco Fernando, resolveu fechar as fronteiras obrigando todos os estrangeiros a estacionarem pelas terras do Kaiser GuilhermeII. O edifício de duas torres, em tijolo cor-de-tijolo, não merece um segundo olhar. No entanto, olhemos para trás. E para dentro do campo de trabalhos forçados em que aquilo se transformou no ano de 1913. Os prisioneiros que foram ali parar com os costados não eram nenhuns labregos, não senhor! As condições de vida eram execráveis, segundo eles, e era o que faltava vir eu aqui contrariar essa malta. 4500 homens encafuados numa rima de onze estábulos ascosos. A comida era, como direi?, incomestível. Os guardas relapsos e sempre bêbados. O tempo corria ao ritmo das sombras das raparigas em flor, como diria o maior especialista da Humanidade em tempo perdido. E assim passavam as nuvens sobre a cabeça dos incautos... Até que.
Frederick Beaconsfield Pentland (não tem mal tratá-lo porFred) tinha terminado a carreira de extremo-direito no Halifax e caíra na asneira de aceitar o cargo de treinador da seleção olímpica da Alemanha. Não ganhou nem três meses de ordenado. Corrido a pontapé foi para Ruhleben sem fazer a mínima ideia de quando o deixariam atravessar a Mancha de regresso a casa.Como todo o bom inglês instalou-se. Passados uns dias bebia chá às cinco da tarde e falava alegremente sobre o clima alemão com outros compatriotas que estavam igualmente na sua penosa situação. Conversa puxa conversa eFred (eu não disse que ele não levava a mal?) viu-se perante uma nova leva de prisioneiros, alguns deles bem conhecidos, tal como Samuel Wolstenholme, com quem jogara noBlackburn, e Stephen Bloomer, seu parceiro na seleção inglesa. Soltaram um vigoroso «Hurrah!», dedicaram-se a trocar valentes shake-hands enquanto fumavam cachimbo, e descobriram que no maldito campo de trabalhos forçados estava mais uma bela cambada de footballers, desde Edwin Dutton, um fulano que imigrara ainda jovem para Berlim e espalhara o críquete pela capital do Reich, a John Brearley, um avançado-centro tremendo que ganhara nome no Tottenham, e de Frederick Spiksley, esquerdino que passara pelo Leeds, a Walter Campbell, estrela do Everton. Freddie (talvez possamos chamá-lo assim), pôs as meninges a funcionar e criou, com um desplante divino digno do Alencar doEça, a Ruhleben Football League que organizava a Liga e a Taça de Spandau, isto é, competições entre equipas de cativos que suscitavam um frenesi bastante incomodativo para os carcereiros que tinham obrigação de os manter o menos exaltados possível. Freddy (o nosso torrão de açúcar, you know what I mean?) não ficou contente. Avançou de forma temerária para a Coupe de Allies, um troféu disputado por naturais dos vários países que se encontravam fechados: os britânicos, os franceses e os belgas. Cinzentos como sempre, os alemães ficavam a vê-los correr em direção às balizas encostadas ao arame-farpado. Do alto das guaritas também estavam tristemente em busca de um tempo perdido...