segunda-feira, 07 set. 2026

Gronelândia. Os recursos mais desejados

Lítio, metais de terras raras e outros recursos minerais valiosos tornaram o enorme território Ártico objeto de uma corrida aos recursos por parte de potências mundiais, tal como aconteceu com África no final do século XIX
Gronelândia. Os recursos mais desejados

As relações diplomáticas entre Washington e a Dinamarca atingiram um novo patamar, depois de os Estados Unidos terem manifestado o desejo de assumir o controlo do território autónomo da Gronelândia. Embora Donald Trump continue a insistir que o debate sobre o Ártico seja uma questão de segurança nacional, o presidente norte-americano não escondeu o interesse nos recursos naturais da vasta ilha.

A Gronelândia pode não ser, tal como aparece no mapa do mundo em projeção de Mercator, tão grande como África – mas está, à sua maneira, a tornar-se objeto de uma corrida aos recursos por parte de potências mundiais, tal como aconteceu com África no final do século XIX.

Aquela que é a maior ilha do mundo tem uma dimensão equivalente a metade da superfície terrestre de toda a União Europeia. E, com 2,17 milhões de quilómetros quadrados, é 25% maior do que o Alasca – que é, de longe, o maior estado dos EUA e, atualmente, o único ponto de apoio do país na região do Ártico.

Mais do que grande, a Gronelândia é rica. Não no sentido desenvolvido da superpotência petrolífera regional vizinha, a Noruega, mas no que diz respeito às suas reservas potenciais de matérias-primas apelidadas de “críticas” por Bruxelas – desde produtos básicos como o cobre e a criolite até ao cobalto, ao lítio e a uma infinidade de metais de terras raras, cada vez mais procurados pelo setor da energia verde e das tecnologias digitais. Não é sem razão que estes metais têm sido designados de “novo petróleo”.

Ouro branco

Num momento bastante inconveniente para o governo dinamarquês, foi lançado, este ano, um documentário que afirma que as empresas mineiras dinamarquesas extraíram o equivalente a dezenas de milhares de milhões de euros de criolite na costa oeste da Gronelândia, ao longo de 130 anos, alegadamente sem investir muito na economia local.

A área em torno da mina em questão, em Ivigtût (agora Ivittuut), no extremo sul da Gronelândia, está a ser ativamente estudada pela empresa australiana Eclipse Metals, que adquiriu direitos de exploração em 2021. A empresa anunciou, na semana passada, que teria em breve o resultado de amostras de núcleos de perfuração que espera que confirmem depósitos significativos de metais de terras raras.

Mas a mina histórica – que se tornou um poço enorme, circular e inundado desde o seu encerramento, em 1987 – é considerada apenas a ponta do icebergue metafórico dos recursos minerais da Gronelândia, cuja acessibilidade está a aumentar à medida que o gelo derrete, literalmente.

Num relatório anual publicado no final de janeiro, o Serviço Geológico dos EUA estimava em 1,5 milhões de toneladas as reservas de metais de terras raras da Gronelândia.

Grande potencial

O Serviço Geológico da Dinamarca e da Gronelândia (GEUS) foi bastante mais efusivo, anunciando, em 2023, ter identificado “um grande potencial para matérias-primas críticas na Gronelândia”, ao publicar um relatório pormenorizado.

“Muitas matérias-primas críticas da lista da UE podem potencialmente ser encontradas na Gronelândia”, afirmou o organismo consultivo independente do Ministério dinamarquês do Clima, da Energia e dos Serviços Públicos, referindo-se à lei relativa às matérias-primas críticas que identifica 34 elementos essenciais, metade dos quais são considerados de grande importância geoestratégica para a Europa.

Os EUA podem ter preocupações de segurança genuínas relativamente a uma área do mundo que, vista de cima, é substancialmente cercada pela Rússia, Canadá e Gronelândia. A Noruega tem uma base de apoio no Ártico, nas ilhas Svalbard, oposta à dos Estados Unidos, no Alasca.

Embora a visita do vice-presidente dos EUA, JD Vance, à Gronelândia, na semana passada, tenha sido ostensivamente uma inspeção a um posto avançado do exército norte-americano – os habitantes locais deixaram claro que a sua comitiva não seria bem-vinda a quaisquer eventos culturais – o seu chefe deixou claras as suas intenções.

Jens-Frederik Nielsen, antigo ministro da Indústria e dos Recursos Minerais, foi nomeado primeiro-ministro da Gronelândia pouco antes da chegada de Vance e da sua comitiva. Já declarou que o seu país não está à venda e vai agora receber a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, no âmbito de uma visita oficial de três dias.