A dar em quê?

Se dos nomes da terra nasce identidade, o idioma é a alma.

Num livro quase ignorado de 1835 e escrito por Alexandre Dumas (Pai) – Uma Noite em Florença – lê-se de entrada que a liberdade ou a escravidão dos povos provém das diferentes ‘condições topográficas’, ou seja, a geografia determina muito a história: «O mar, como o deserto, é um refúgio contra a tirania; os homens que vivem sempre entre a água e o céu, entre a imensidade e o infinito, dificilmente reconhecem superioridade que não seja a de Deus». E exemplifica com o rendilhado costeiro da pequena Europa, grande nas viagens marítimas, em contraste com a ‘sólida Ásia’ e a ‘intransitável África’, enquanto a ‘dupla América que divide em dois o globo’ é exemplo das repúblicas então nascentes. Pode parecer excessivo, mas é verdadeiro. Aliás, a geopolítica nasce da inevitabilidade do critério geográfico. Os mapas mandam!

Diz Aristóteles que a alma é a forma substancial do corpo pela qual o ser seja o que é. A forma geográfica de Portugal também ela é significação da alma portuguesa e, não por acaso, este retângulo debruçado ao mar fez-nos no que somos: uma profícua mistura de povos chegados ao extremo ocidente da Europa, finisterra onde o sol se deita no oceano. Desde o Renascimento há mapas nos quais uma Europa desenhada ao alto é figurada Rainha e Portugal a coroa. Camões viu aqui a cabeça e Pessoa o rosto com que a Europa fita. Mas é bom de ver que se há rosto a olhar o mar é porque cuidámos de retaguarda segura. Eis, de norte a leste, nomes raianos indicando porta, passagem, vigia ou defesa: Portela do Homem, Paredes de Coura, Chaves, Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo, Guarda, Portalegre, Castelo de Vide, Barrancos, Castro Marim. E se o mapa de Portugal é rosto tem no Minho e Trás-os-Montes cabelo em alvoroço, olhar incisivo no Porto, boca que fala (e manda!) pelo estuário do Tejo em Lisboa. Mais ainda, o mapa do Algarve resume o de Portugal inteiro, ou seja, Portugal em pé corresponde ao Algarve deitado: o recorte saliente da costa em Faro ajusta-se a Lisboa e Lagos, cidade do Infante D. Henrique, ao Porto, onde veio a nascer o Príncipe de Sagres e dos Descobrimentos. A história e a toponímia falam por si.

Se dos nomes da terra nasce identidade, o idioma é a alma. Para matarmos saudades da boa língua portuguesa há outro livrinho esquecido: Por Outras Palavras, Ivone de Moura dedica-o às frases idiomáticas como alma singular da língua, é prefaciado pelo filósofo António Telmo que, na senda de Pascoaes, censura a uniformização linguística, recusa que os idiomas sejam mera sinalética convencional e destaca o espírito singular do verbo ‘dar’ que em português tem o maior número de acepções: ‘dar um livro’ é bem diverso de ‘dar à língua’. A exemplo, juntemos ao verbo ‘dar’ as palavras seguintes: por si/ certo/ problemas/ trabalho/ para trás/ de caras/ nas vistas/ uma volta/ em nada/ a mão/ um jeito/ andamento/ à costa/ com a língua nos dentes/ água pela barba/ às de vila-diogo/ graxa/ um bigode/ aulas/ etc. E pode ainda a barriga dar horas ou dar à luz. E se a morfologia da língua cria mapa de conhecimento do que somos, a ação ou movimento do verbo ‘dar’ é-nos substancial, ora damos mundos ao mundo com ou sem generosidade, ora dando prendas prendemos! Veja-se noutras línguas: em francês domina nas expressões idiomáticas o verbo faire/ fazer, em inglês, to make/ fazer, produzir, ganhar, ou to get/ obter, receber, atingir, em espanhol, echar/ deitar, lançar, arremessar. Mapas e línguas a significar povos serão fantasia, ciência ou poesia? Talvez tudo à vez e por junto, razão poética dir-se-ia. Voltemos ao mar: depois do abandono do império donde deveríamos ter feito novos Brasis e assim cumprir Portugal, estranha-se o quase exclusivo vínculo à União Europeia desvalorizando a CPLP, desprezando a extensão marítima da Zona Económica Exclusiva. Ou Portugal quer ser uma praia imensa, turismo em contínuo? O mapa real de Portugal é hoje um Algarve em pé, deitou-se! Nenhum governo mostra visão larga de horizonte marítimo e quase ninguém grita que o rei vai nu. Somos, como Unamuno disse, um povo suicida? Os franceses fazem, os ingleses produzem, os espanhóis arremessam. E nós? Estaremos só a ‘dar’ em parvos?