sexta-feira, 13 fev. 2026

Legislativas. Socialistas de primeira recusam lugares de segunda

Na hora de fazer escolhas, Pedro Nuno Santos teve os primeiros sinais de divisão no partido. Fernando Medina recusou encabeçar a lista de deputados por Leiria e Sérgio Sousa Pinto não quis ir em quinto lugar em Lisboa.
Legislativas. Socialistas de primeira recusam lugares de segunda

Apesar de ser o líder socialista que nas últimas décadas maior domínio teve sobre o aparelho do Partido Socialista (PS), os últimos dias foram difíceis para Pedro Nuno Santos: tece um conflito inicial com José Luís Carneiro, viu Fernando Medina recusar ser cabeça de lista por Leiria e por fim, Sérgio Sousa Pinto também bateu com a porta.


O momento de fazer escolhas para listas de deputados é sempre um dos momentos mais difíceis para qualquer liderança e desta vez, com o partido na oposição e sem perspetivas de voltar ao poder, a escolha dos nomes socialistas gerou polémica. Muito mais do que era desejado pelo Secretário-Geral.


Logo no início da semana, dias antes da data anunciada para o fecho das listas socialistas, Fernando Medina fez chegar uma nota à imprensa, anunciando a sua decisão de abandonar o parlamento na próxima legislatura. Nesse comunicado, o ex-ministro das Finanças invocou razões de «natureza pessoal» para interromper «vinte anos consecutivos em que desempenhou elevadas funções políticas».


A decisão foi comunicada a Pedro Nuno Santos na segunda feira, mas ao Nascer do SOL uma fonte socialista garante que antes disso, o Secretário-Geral teria convidado Medina para ser cabeça de lista por Leiria. O deputado, que já foi Presidente da Cãmara de Lisboa não terá gostado de se ver remetido para um distrito com o qual não tem a mais leve ligação e acabou por decidir abandonar a vida parlamentar. Na nota que enviou à comunicação social garante que está «totalmente empenhado na vitória do PS nas próximas eleições legislativas».


Apesar das justificações dadas, a verdade é que a opção de Fernado Medina foi interpretada como a sequência lógica de um percurso em que se vinha a afastar das opções da liderança, que culminou com a declaração de voto que decidiu apresentar depois da votação da moção de confiança que viria a ditara queda do governo de Luís Montenegro.


Na declaração de voto o antigo ministro de António Costa defende que se devia ter feito mais para evitar a crise que num momento crucial deixa Portugal «sem voz no quadro europeu» e antevê que nas eleições «as relações entre blocos direita/esquerda no parlamento possa não sofrer alteração significativa, o que levará a que a nova solução governativa que emergirá possa continuar a enfermar de profundas fragilidades políticas ou, pior, fique nas mãos da extrema-direita».

Sousa Pinto fora
Também Sérgio Sousa Pinto não gostou de se ver relegado para meio da lista dos candidatos por Lisboa. Num encontro que teve no domingo com Pedro Nuno Santos, o deputado ainda começou por aceitar, mas o lugar que lhe ficou reservado, juntamente com a relação distante que ao longo dos últimos meses teve com a direção do partido, acabaram por ditar a sua decisão.
Sérgio Sousa Pinto, tal como Francisco Assis e Álvaro Beleza, foram os três apoios moderados em que Pedro Nuno Santos apostou quando se candidatou à liderança do partido. Sabendo que tinha colada à pele a imagem de radical, procurou junto de notáveis socialistas reconhecidamente moderados projetar a ideia de um líder muito mais abranjente.


Os apoios à época causaram surpresa, obrigando Assis, Sousa Pinto e Beleza a dar explicações sobre o porquê de estarem ao lado de Pedro Nuno Santos, contra o moderado centrista, José Luís Carneiro.
Um ano depois, esta ala do partido está desiludida com o líder e considera que não é tida nem achada nas principais decisões. O tempo dos elogios a Pedro Nuno Santos acabou.

Socialistas já falam no day after
As sucessivas sondagens a mostrar um PS que não descola e sobretudo a mostrarem que Pedro Nuno Santos perde para Luís Montengro como candidato a primeiro-ministro têm trazido o desânimo ao Largo do Rato. A notícia da saída de Fernando Medina e de Sérgio Sousa Pinto das listas de deputados não ajudou a mudar o estado de espírito e a verdade é que os cenários sobre o futuro do partido no dia seguinte a uma nova derrota socialista começam a fazer-se.


Na direção do partido não é equacionada uma saída da liderança de Pedro Nuno Santos em caso de derrota. «Se conseguir subir o patamar e mostrar ao país que tem alternativas que se vão sentar ao seu lado no parlamento, como é o caso de Fernando Araújo, não há nenhum motivo para sair», garantem-nos.


Uma mudança de líder só é equacionada num hipótese considerada impossível de uma hecatombe eleitoral, cenário que ninguém prevê.
Mas o facto de não se equacionar uma substituição no imediato, não significa que não se estejam já a fazer as contas para o pós-Pedro Nuno Santos. «O congresso será depois das presidenciais e se ele (PNS) chegar lá com três derrotas, vai ter de haver mudanças», comenta um socialista descontente.
Ao que fomos ouvindo ao longo da semana junto de vários socialistas, parece estar instalada no interior do partido uma divisão clara entre os mais moderados e os ditos radicais. «Nós não somos do Bloco, somos da Fonte Luminosa» , desabafou um militante ao nosso jornal. Mas mesmo entre os mais alinhados com o Secretário Geral, há preocupação em retirar de lugares com mais visibilidade uma ala mais à esquerda do partido e procurar um recentramento do partido. E também entre estes já se fala do sucessor de Pedro Nuno.