Gandhi defendia que assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida. A verdade é que faz parte dela.
“Recordo-me bem desse dia!”, afirma José, de 57 anos. “Chegou uma carta de um banco com uma ameaça de penhora de bens caso não pagasse uma dívida! Na altura, tinha dívidas como todos temos! Casa, carro… Mas pagava religiosamente todos os meses! Assustei-me, pois não sabia o que poderia ser!”, conta ao i. O que descobriu a seguir, marcou para sempre a sua vida.
Dirigiu-se ao Banco de Portugal para perceber o que se passava. “Fui informado que a dívida se referia a cartões de crédito em meu nome e em nome de empresas das quais eu era sócio gerente! Foi aí que se fez luz!”, continua. Dois anos antes, um familiar afastado na árvore genealógica, “mas perto do coração”, pediu-lhe para ser sócio gerente não remunerado de duas empresas que iria constituir para promoção imobiliária e importação e exportação de bens. “Nunca, por momento algum, desconfiei que pudesse acontecer o que aconteceu!”, garante. “Além de ter aberto as empresas em meu nome pediu cheques e cartões de crédito em nome das mesmas e em meu nome! Como? Entreguei-lhe a cópia dos meus documentos! Só isso!”, explica. “Era uma pessoa que eu admirava e respeitava, que me tratava como um filho que teve e perdeu! Que me proporcionava, a mim e família, alguns momentos de conforto!”, admite.
Segundo José, esse familiar sempre o convidou para sua casa nas festas e momentos importantes. “Hoje percebo que me queria perto dele para me poder controlar!”, sublinha. “Quero acreditar que a mentira quando começou, e na cabeça dele, era para ser sempre resolvida antes que eu descobrisse!”, acrescenta. No entanto, este tipo de burla “toma proporções de bola de neve!”. E o que começa por ser uma mentira simples, transforma-se em algo que “depois não se consegue parar!”.
“Recordo-me de estar a almoçar com ele e com a minha família e o meu filho pedir um gelado mais caro… Eu não deixei, pois era ele a pagar! Mas na verdade, os seus cartões estavam em meu nome. Maior mentira que esta é difícil!”, lamenta.
Roubo de identidade
O que mais lhe custou ainda estava para vir. “Confrontado com a verdade não negou, mas relativizou e disse que iria pagar tudo! Li uma vez, não sei bem onde, que só temos um problema quando não sabemos se ele existe! Depois disso, deixa de ser um problema, pois começamos a procurar soluções! Foi o que fiz na altura! Mas pensei que conseguia resolver internamente com ele”, detalha José. Tentou que fosse pagando à medida que as dívidas iam chegando. Em vão… “Sempre com mentiras! Empurrando com a barriga e a dizer que já tinha pago!”, lembra.
José foi então “obrigado” a dar entrada no tribunal com uma queixa. Todo o processo demorou vários anos. “Em Portugal o ónus da prova é sempre da vítima! Fui eu que tive que provar que não tinha sido eu!”, afirma.
Havia despesas nos cartões de crédito em países onde nunca tinha estado. “A minha esposa foi abordada no local de trabalho por funcionários judiciais para abrir a porta de casa para nos penhorarem bens. Deixámos de ter acesso a qualquer tipo de crédito”, revela.
Depois de alguns anos e de ter pago alguns milhares de euros foi-lhe dada a razão. “Passei de arguido a vítima!”, aponta. “Por essa altura ele, por força de outras tantas mentiras, já não estava em Portugal! Os crimes prescreveram! A vida continuou…”, garante.
Hoje, José é “uma pessoa de bem com a vida!”: “Não mexo muito no passado! Sou mais ansioso do que depressivo! Sou amado pelos meus filhos e pela minha mulher! Lido com esta história como uma lição! E admito parte de uma culpa que nunca deveria ter tido! Sei que ele está por aí! Espero que triste!”, admite.
Mentiras no amor
Imaginar ser enganado por um familiar, mesmo que afastado, custa. Pior ainda será sermos enganados pela pessoa que amamos, que dorme connosco todos os dias e com quem queremos construir um futuro… “Foi uma relação com muito de tudo… Paixão, amor, aventuras, criatividade, tristeza, dor, alegria, deslealdade, mentira e rutura”, confidencia Maria, de 62 anos.
Ele era órfão de pai, com a mãe idosa, e ela cheia de vontade de viver. “Ele era um homem livre, aventureiro, social, bem disposto”, descreve. Não foi preciso muito tempo, depois de se conhecerem e apaixonarem, para “juntarem os trapos”. “Já não éramos adolescentes… Éramos divorciados e queríamos viver juntos para todo o sempre. Em pouco tempo a mãe dele veio viver connosco e facilmente entendi que teria demência e que toda a situação foi omitida. Por isso, a relação começou logo com mentira. Disse-me ser um homem livre, mas não era”, lembra ao i.
Durante a relação, o parceiro precisou de mudar de carro: “Na falta de conseguir crédito, fi-lo em meu nome no intuito de o ajudar e de se resolver da melhor forma. No fim de contas éramos uma família e, como tal, faria todo o sentido sermos o apoio um do outro. Mas com a promessa e na condição de ele assumir o compromisso das prestações. Acreditei na sua palavra e prosseguiu-se a compra”, detalha.
Segundo Maria, no início correu bem, mas logo começaram a haver falhas de pagamento e, a seguir à separação, “foi um horror”. “Ficou com o carro, havia sempre muitas dificuldades nos contactos. Naqueles em que conseguimos falar, assumiu que pagaria. Era ele que contactava com a credora e a situação foi ao limite, foi para contencioso com penhora do meu vencimento”, revela.
Maria teve de assumir a dívida de 21 mil euros, pois o crédito estava em seu nome. “Prejudicou-me muito a todos os níveis… Tanto economicamente como emocionalmente. Tive muitos anos sem conseguir aceitar que alguém que tinha partilhado a vida comigo, com promessas de amor eterno, poderia ter este tipo de comportamento. Tirou-me a concretização de objetivos pessoais (crédito para habitação) passeios, pensar no meu futuro… Pura e simplesmente a possibilidade de viver com mais leveza”, admite.
E o pesadelo só acabou há cinco anos. “Houve um alívio e uma libertação interior porque deixei de ter qualquer ‘laço’ com essa pessoa. O tempo e a escolha do pensamento positivo é de facto mestre. Ajuda a diluir a dor que fica. Era uma culpa muito dolorosa por eu ter acreditado, por ter naturalmente relativizado, em nome do pseudo amor e dos meus valores de família. Como se os meus valores tivessem sido feridos e não fossem adequados a esta vida… Mas não, agora sei que os meus valores estão corretos, que fui e sou um bom ser humano. Quando se escolhe alguém há que estar atento a sinais de comportamento, que são pura e simplesmente reflexos da personalidade, valores e regras de conduta”, alerta, acrescentando que em prol da sua sanidade e do equilíbrio que “todos merecemos”, perdoou o seu comportamento pois entende-o como “doentio”. “Uma pessoa saudável e completa não age assim. Além disso, também me consegui perdoar por ter sido crédula e não ter pedido a apreensão do carro, porque para todos os efeitos o carro era meu”, frisa Maria.
“A vida são vivências… Nem sempre se ganha, é verdade. Mas com esta experiência de ‘jogos de mentiras’ pela qual passei – com tamanha consequência em mim –, aprendi a ser feliz com coisas muito simples como ouvir os sons da natureza, apanhar sol, sentir a chuva na cara, dar e receber um sorriso... Perdi pedaços de mim. Porém, vou-me reconstruindo com as conquistas do meu caminho”, remata.