O princípio de que existe apenas o bem e o mal ou então de que existe apenas as trevas e a luz é, talvez, um dualismo maniqueísta que precisamos de considerar como possibilidade da nossa existência…
Gostava de partilhar como é que se constroem as bases de uma vida boa…
Essencialmente, o homem contemporâneo considera que para lá de um mundo a preto e branco existe, também, a coexistência do cinzento. Este princípio, é, na realidade, um princípio básico: nas cores, existe a possibilidade de haver o preto e o branco, o cinzento, o roxo e todas as cores do arco-íris. Porém, a existência não é feita de cores, mas de ações e as ações não têm cor…
Recusamos, perentoriamente, assumir que existem opostos que não têm intermédio. Ora, se as cores se podem misturar entre si e dar cores e nunces diferentes, há outras realidades que não se podem misturar. O povo diz: «A verdade é como o azeite… vem sempre ao de cima». Na realidade, não há hipótese de misturar numa mesma liga o azeite com a água… conforme será impossível misturar numa mesma liga a verdade e a mentira, a luz e as trevas, o bem e o mal.
Não é possível! Não é normal, sequer, pensarmos que as substância da luz e das trevas sejam as mesmas… não se podem ligar, porque assim que aparece a luz, dissipam-se as trevas. Sabemos que, numa sala, às escuras, podem existir objetos, mas só a luz nos permite ver a existência das coisas. As coisas existem, mas não chegaremos ao seu conhecimento sem que haja luz.
Ora, entre a verdade e a mentira também não existe qualquer possibilidade de mistura. Não são compatíveis… a verdade é a luz que nos possibilita ver a realidade. É essa mesma atitude que possibilitou ao homem inventar o método científico. Através desse mesmo método procuramos conhecer a verdade das leis e dos mecanismos da existência humana. Aqui, também, não existe possibilidade de se misturar a verdade com a mentira. A partir do método científico só podemos conhecer o que é verdade, porque uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.
É verdade que o dualismo existente entre a guerra e a paz, como seu contrário, pode ser visto nesta ou noutra perspetiva, mas não o podemos considerar fora deste modelo. Na Ucrânia existe, está-se a negociar a melhor forma se implementar um acordo de paz e isso é bom… mas, no fundo, o que está a acontecer, aos poucos, é a redução da superfície da guerra para se implementar a paz: há guerra em terra, mas pode haver a possibilidade de paz no mar; há guerra na cidade, mas pode haver paz nas centrais elétricas.
Podemos considerar tudo isso, mas a verdade é que existe guerra e não há meio termo. Não existe a possibilidade de termos meia guerra ou meia paz, como não pode haver meia verdade ou meia mentira, meia luz ou meias trevas… a existência de uma arrasta para a inexistência da possibilidade da outra. Assim que aparece a luz desaparecem as trevas, assim que triunfa a verdade desaparece a mentira, assim que o bem aparece quebram-se as cadeias do mal.
Nós temos de pensar que existem muitas formas poéticas de conceber a existência humana, mas há determinados absolutos que não são negociáveis. Não podemos considerar uma meia paz ou meia verdade ou meia luz… podemos ir pela conquista de cada uma delas, mas nunca se encontra a zona cinzenta entre as duas.