Lisboa vs Vale do Ave

O modelo do Vale do Ave não é uma panaceia

Dos dois modelos possíveis para o desenvolvimento nacional, Portugal escolheu o de Lisboa. Esse modelo continuará a levar ao declínio nacional, com ocasionais períodos mais positivos. Esta escolha deve-se a três fatores: interesses enraizados de uma elite que beneficia deste sistema, escoamento de fundos de Bruxelas que têm entrado em Portugal e falta de exemplos de triunfo global de portugueses.

Definindo os dois modelos. O modelo de Lisboa, é um modelo em que as elites definem a estratégia e alocam os recursos financeiros e humanos (assim como regulamentares) desde o centro até às periferias. Os grandes projetos e as grandes apostas estratégicas nacionais são decididos centralmente e executadas de “cima para baixo” com recurso a legislação, benefícios e subsídios fiscais e envolvimento económico do estado. O modelo do Vale do Ave inverte o sentido. Empreendedores, muitos deles antigos operários, motivam-se a melhorar o serviço, produto ou baixar o preço e melhor servir clientes tanto nacionais como internacionais. Muitas empresas são lançadas, muitas falham, mas bastantes singram e criam empregos para muitos, beneficiando as comunidades locais e inspirando a geração seguinte.

Todos os países se deparam com a questão de escolha de um destes dois modelos. Os USA são talvez o modelo mais próximo do Vale do Ave. O empreendedorismo é endémico na sociedade americana, e a grande maioria das empresas que singram internacionalmente são americanas. Muitas destas empresas são mais jovens do que eu. E os benefícios locais são claros com a emergência de vários aglomerados que se especializam em stores: Hollywood (Media), Silicon Valley (Tecnologia), Wall Street (Finanças), Boston (Biotecnologia), Houston (Energia) e muitos outros. Curiosamente a capital (Washington, DC) tem pouca atividade económica fora do trabalho associado ao governo.

O modelo de Lisboa foi seguido pela União Soviética com maus resultados. Atualmente tem o seu expoente máximo na economia chinesa que não se tem dado mal com um alto nível de intervencionismo de Beijing. Dito isto, a economia chinesa perdeu muito do seu dinamismo quando os empreendedores locais (em particular Jack Ma da Alibaba) foram perseguidos e afastados da vida ativa. Beijing parece estar a recuar nesta medida nas últimas semanas. O modelo de Bruxelas claramente segue este modelo também. Talvez o exemplo recente mais cómico são as tampas das garrafas de plástico. Muita da regulação e fundos de coesão são decididos centralmente e depois alocados localmente aos ‘bons alunos’ que seguem as regras do centro.

Qual o problema do modelo de Lisboa? Ineficiente alocação de talento e de recursos financeiros, e no longo prazo fraco desenvolvimento e investimento no capital humano. Num modelo central, o principal fator decisor do sucesso individual são as ligações políticas e habilidade de concentrar e alocar poder político. O que um ator ganha, outros perdem, pois, o valor total do poder é finito (zero-sum game). Portugal criou bastantes talentos geracionais nesta área como mostram as várias posições de liderança na União Europeia e nas Nações Unidas. Contudo, toda a energia e talento político se beneficiam o individuo, não beneficiam a sociedade. Assim que em vez de empreendedores que inventam carros elétricos, ou inteligência artificial, em Portugal glorificamos políticos com cargos internacionais (e jogadores de futebol). Não precisamos de ser economistas para saber que sociedade criará mais riqueza e bem-estar para os seus filhos.

O modelo de Lisboa também leva a fraca alocação de investimento. Vários ‘elefantes brancos’, pontes para lado nenhum, estradas que são pouco usadas ou mesmo formações para se obter o subsídio de Bruxelas sem que esta responda às necessidades dos indivíduos e economias. Penso que cada leitor terá o seu exemplo preferido disto.

O modelo do Vale do Ave não é uma panaceia. Mas por todos os países que andei, aqueles que atearam e alimentaram o fogo criador no coração de cada cidadão e ofereceram paz, ordem e um mercado honesto para competir nunca deixaram de se desenvolver rapidamente. Mas muitos bons empregos e lugares de prestígio teriam de ser destruídos em Lisboa para Portugal lá chegar. Não penso que isso acontecerá nas próximas décadas.

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