segunda-feira, 11 mai. 2026

Quando as máquinas se calam. O desafio da autonomia na era digital

Literacia digital torna-se simultaneamente uma questão de justiça social e de soberania

Vivemos numa época em que os nossos sentidos foram transferidos para sensores, as nossas decisões filtradas por algoritmos e a nossa memória armazenada em servidores distantes. Mas e se, de repente, tudo se calasse? Em julho de 2024, um erro numa atualização do software de segurança CrowdStrike nos sistemas Windows paralisou milhões de dispositivos, imobilizando aviões, encerrando bancos e deixando hospitais à mercê do improviso. Não se tratou de um mero colapso técnico, mas antes de um vislumbre da nossa fragilidade coletiva. No final do dia, o que sobra de nós sem tecnologia? Será que conseguimos orientar-nos sem GPS, refletir sem motores de busca, decidir sem notificações?

Colapsos como o descrito revelam, não apenas interrupções momentâneas, mas a erosão silenciosa do "saber sem máquinas", aquele conhecimento essencial construído na experiência direta e refinado pela prática paciente. Antes da era digital, o sapateiro sentia o couro, pesava a ferramenta, dominava a força de cada ponto com um saber vivo e encarnado que nenhum código consegue verdadeiramente copiar. 

Simultaneamente, a tecnologia democratizou o conhecimento, tendo tornado o que antes estava restrito às bibliotecas ou à relação mestre-aprendiz, disponível para qualquer pessoa. O jovem aspirante a sapateiro passou a poder aprender técnicas de mestres italianos online e conectar o seu artesanato a clientes globais. No entanto, esta acessibilidade não substitui a verdadeira experiência humana. Como escreveu o filósofo Byung-Chul Han, "a sociedade digital produz uma hipervisibilidade que nos cega para o invisível". E de facto, a inteligência artificial vive de dados para nos imitar, mas nunca toca o material nem capta a alma do nosso saber ancestral, aquele saber dito invisível, transmitido pelas entrelinhas da história. O pescador que usa o telemóvel, mas lê os ventos e as nuvens, sabe a diferença: a informação é apenas o início, a sabedoria é o que fica.

E é precisamente quando esse saber maior se esvai que nos tornamos numa sociedade tecnicamente ágil, mas intelectualmente frágil, apta a seguir instruções sem questionar os sistemas que as ditam. A tão aclamada literacia digital, que vem do latim literatus ("instruído em letras"), deveria significar domínio crítico do campo digital, mas frequentemente reduz-se a um talento para clicar botões sem entender o que verdadeiramente os move.

Sem esse saber crítico, ficamos presos a algo que nos é oferecido de bandeja, como autómatos numa linha de montagem, correndo o risco de perpetuarmos erros como os algoritmos que nos EUA rejeitaram sistematicamente currículos de mulheres ou marcaram cidadãos de minorias como suspeitos criminais. A causa? Dados enviesados e ética ausente, que mais não são do que uma manifestação de falhas humanas replicadas e amplificadas pelas máquinas.

Face a estes desafios crescentes, o Regulamento Europeu sobre Inteligência Artificial de 2024 procurou oferecer uma resposta estruturada, ao classificar sistemas por categorias de risco e proibir práticas como vigilância biométrica em massa e manipulação subliminar. Para sistemas de alto risco em infraestruturas críticas, emprego ou justiça, exige ainda avaliações rigorosas, transparência algorítmica e auditorias externas. Um outro aspeto contemplado no Regulamento é a obrigação das empresas em treinar utilizadores em literacia digital — provisão que, embora potencialmente transformadora, corre o risco de se diluir em formações padronizadas que privilegiam conformidade superficial em vez de capacitação crítica.

Esta literacia que o Regulamento contempla não deve ser vista como um mero manual de instruções, mas antes como um despertar da dúvida socrática em ação. Leis não salvam sozinhas, precisamos de gente que pense, que duvide, que rejeite promessas ocas sem evidências. Sócrates, com a sua teimosia em perguntar, seria o nosso guia nos dias de hoje. Num tempo de respostas prontas, ele diria que o saber nasce da dúvida que constrói e não da aceitação cega daquilo que as máquinas ditam.

E porque não inverter a lógica, da reação à criação? Um dia semanal sem ecrãs nas escolas permitiria aos alunos ir além do consumo digital, desmontando aplicações, compreendendo algoritmos e resolvendo problemas com as próprias mãos. Da mesma forma, desafios nacionais de desconexão poderiam resgatar habilidades fundamentais, calcular mentalmente, escrever com lápis, construir o tangível. E não falo de utopias, no Alentejo, a SmartFarm 4.0, uma iniciativa pioneira de agricultura inteligente, já combina tecnologia avançada com sabedoria agrícola tradicional e na Islândia, por exemplo, escolas já integram ferramentas digitais sem sacrificar valores culturais.

Neste contexto, Portugal, com o seu rico património de saberes artesanais e marítimos, tem um potencial único para realizar esta simbiose entre tradição e inovação. Imaginemos pescadores de Sesimbra e programadores a criarem juntos, artesãos de Viana e designers digitais a reinventarem padrões seculares. O INCoDe.2030, a iniciativa nacional para as competências digitais, já deu os primeiros passos, mas precisamos de uma visão mais ousada que não ensine apenas a usar a tecnologia, mas que nos ajude a compreendê-la de forma crítica e, se necessário, a dispensá-la. Não se trata de uma escolha entre o passado e o futuro, mas antes a escolha de um caminho onde a sabedoria ancestral e as possibilidades digitais se fortalecem mutuamente.

Para além destas considerações, a dependência tecnológica também nos traz questões jurídicas complexas e insuficientemente respondidas pelo quadro legal atual. O falhanço de julho de 2024 ilustrou como falhas em sistemas automatizados podem gerar uma cascata de consequências em setores críticos, desde o transporte aéreo até aos cuidados médicos. Por um lado, os termos de serviço das plataformas tecnológicas blindam-se com cláusulas limitativas de responsabilidade, por outro, a opacidade algorítmica dificulta o estabelecimento de nexos causais. Neste contexto, a literacia digital torna-se simultaneamente uma questão de justiça social e de soberania: cidadãos e organizações tecnologicamente letrados poderão exigir maior transparência e reparação de danos, enquanto entidades com capacidade de operar em modo "analógico" demonstrarão maior resiliência face às eventuais falhas tecnológicas.

Não nos encontramos numa encruzilhada entre rejeitar a modernidade ou abraçar cegamente a sua frieza digital. O verdadeiro desafio é mais subtil. Trata-se de abraçar a tecnologia que nos expande e a humanidade que nos define. Imaginemos um Portugal onde as escolas cultivem tanto algoritmos como oliveiras, onde a medicina aproveite a precisão das máquinas sem esquecer que curar é também um ato de presença humana, onde a solidão dos nossos idosos é mitigada por ecrãs que aproximam, mas nunca substituem o calor de uma mão que se estende.

Quando as máquinas voltarem a calar-se, não serão os protocolos de emergência que nos sustentarão, mas aquela sabedoria ancestral que flui nas veias de uma humanidade que nunca esqueceu completamente a sua origem. É o conhecimento gravado nas mãos do artesão, o horizonte decifrado nos olhos do pescador, as histórias guardadas na voz do professor que desperta curiosidades que nenhum algoritmo consegue programar.

Agora, atreva-se e desligue o ecrã por uma hora. Deixe o mapa digital e redescubra a sua bússola interna. Caminhe até àquela árvore da sua rua, aquela que talvez só conheça como um ícone verde no Google Earth. Sinta a rugosidade da sua casca, escute o murmúrio das suas folhas, deixe-se envolver pela sua sombra. Nestes momentos de reconciliação com o mundo tangível, não estamos a recuar no tempo, mas a reencontrar o fio condutor da nossa história. E esta é a verdadeira riqueza que permanece quando, por momentos ou por dias, as máquinas se calam e o silêncio se torna, novamente, nosso aliado.