terça-feira, 11 ago. 2026

Salomé Afonso. “Houve muita crença. Nunca deixei de acreditar”

Em 37 Europeus, nunca uma atleta portuguesa tinha subido duas vezes ao pódio na mesma edição. Um fim de semana para mais tarde recordar.
Salomé Afonso. “Houve muita crença. Nunca deixei de acreditar”

Dedica-se em exclusivo ao atletismo de modo a otimizar a performance desportiva. Há muito que trabalha para chegar às medalhas. Quando isso aconteceu foi em dose dupla no Campeonato da Europa de pista coberta, nas distâncias de 1.500 e 3.000 metros.

A comitiva portuguesa regressou do Campeonato da Europa de atletismo em pista coberta, realizado nos Países Baixos, com quatro medalhas; uma de prata e três de bronze – apenas sete países conquistaram mais medalhas. Portugal esteve em destaque na competição feminina, onde conquistou três medalhas. A grande confirmação veio de Salomé Afonso, vice-campeã nos 1.500 metros e terceira classificada nos 3.000 metros. Entre qualificações e corridas, a atleta do Benfica correu 9.000 metros em quatro dias.

Salomé Afonso começou por jogar futebol e basquetebol. Aos 13 anos, tornou-se atleta do Sporting, fez parte da equipa campeã europeia de atletismo em 2016 e foi campeã nacional individual nos 800 e 1.500 metros. Este ano transferiu-se para o Benfica. Após várias vitórias nacionais, esteve presente nas olimpíadas Tóquio 2021 e Paris 2024, onde atingiu as meias-finais e realizou a segunda melhor marca de sempre nos 1.500 metros.

As medalhas conquistadas no Europeu são o resultado de uma evolução natural. A atleta tem como fonte de inspiração o seu treinador Enrique Pascual, o atleta Isaac Nader, companheiro na vida pessoal e desportiva, e os pais. O atletismo é uma paixão e um desafio já que «perseguimos um alvo que nunca para que é o relógio», disse, mas há também a parte menos boa. «A remuneração é baixa para o nível de investimento necessário». Os passatempos favoritos são a leitura, escrita e séries televisivas. Salomé Afonso e o namorado Isaac Nader mudaram-se para Soria, Espanha, onde encontraram melhores condições de treino e os resultados estão à vista. Aos 27 anos, está no pico da sua forma, como demonstrou em Apeldoorn, nos Países Baixos. A atleta fez o que nunca tinha sido feito no atletismo nacional: conquistar duas medalhas na mesma edição de um Europeu. «Falei nisso com o meu treinador, é como passar à final. O que custa é a primeira vez, depois o cérebro muda o chip e pensa que é possível chegar às medalhas», afirmou.

O primeiro grande momento aconteceu na corrida de 1.500 metros, onde se sagrou vice-campeã europeia, com um novo recorde pessoal (4:07.66). Sempre bem colocada, atacou no final e tornou-se a segunda portuguesa a ganhar uma medalha nesta distância. «À entrada para a curva final, pensei que ia ser mesmo a ferros porque estava tudo muito próximo. Foquei-me apenas na minha corrida, quase como se estivesse numa bolha, e o meu objetivo foi correr o mais rápido possível e isso significou a prata», contou. Na atribulada final dos 3.000 metros (com várias quedas), Salomé Afonso esteve sempre bem colocada, a ponto de poder discutir as medalhas nos últimos 40 metros, onde ultrapassou a espanhola Marta Garcia. «Foi uma corrida caótica, com muitas quedas e contactos e muita dificuldade em me posicionar, era tudo o que não queria. Ao longo da prova eliminei alguns pensamentos e, nos últimos 40 metros, pensei que era possível. Olhei para a espanhola e disse ‘desculpa, mas vou tentar apanhar-te’. Deixei tudo em pista», foi assim que conquistou a medalha de bronze.

As duas medalhas deixaram Salomé surpreendida. «Não vou ser hipócrita, mas não fazia ideia que era a primeira portuguesa a ganhar duas medalhas. Pensava que outros atletas o podiam fazer, não quero referir nomes, mas um tal Isaac Nader [é o namorado] e outros poderão fazê-lo», confidenciou. Depois destes resultados, a ideia é continuar. «O próximo passo é manter o nível e tentar ganhar uma medalha nos Mundiais, o que é difícil porque o nível está muito elevado», afirmou.

Mais rápido e mais forte 

No Europeu de pista coberta estiveram em destaque mais dois atletas: Isaac Nader e AuriolDongmo, que conquistaram medalhas de bronze. Poucos minutos depois da namorada tornar-se vice-campeã europeia nos 1.500 metros, Isaac Nader participou na corrida masculina e conquistou a sua primeira medalha com o terceiro lugar; há 16 anos que Portugal não subia ao pódio nesta distância. «Estamos os dois bastantes felizes» afirmou mais tarde.

«Não esperava que a minha primeira medalha internacional tivesse um sabor tão agridoce. Vou desfrutar dela, porque há que desfrutar, até porque há pessoas que tentam e não conseguem e eu consegui. O quarto classificado levava cinco metros de desvantagem e senti que ainda tinha energia. A partir desse momento, soube que ia acabar com uma medalha», explicou Nader, que enalteceu o vencedor é «o melhor atleta europeu de sempre nas provas de meia distância. É muito difícil bater o Jakob Ingebrigtsen, mas o segundo lugar era aquele que eu poderia chegar. Hoje eles foram melhores que eu», acrescentou. O atleta lembrou ainda que «apesar de não ter conquistado medalhas anteriormente, sabia que o poderia fazer. Sabia que era uma questão de tempo até conseguir desbloquear as medalhas», fez questão de dizer.

A fechar o Europeu, Auriol Dongmo conquistou a medalha de bronze no lançamento do peso. A recordista nacional e bicampeã europeia regressou à competição após 16 meses a recuperar de uma lesão, e garantiu o terceiro lugar. «Claro que o meu objetivo era subir ao pódio. Eu e o meu treinador não estávamos a olhar para a marca, mas fico feliz por conseguir o melhor registo do ano e conseguir a medalha», afirmou. Habituada ao lugar mais alto do pódio, o terceiro lugar acaba por ser bastante significativo para a atleta nascida nos Camarões. «Toda a gente sabe que eu gosto da medalha de ouro, mas o bronze tem um grande sabor, porque foi conseguida depois de prolongada lesão e da gravidez. Normalmente ficaria muito chateada por esta medalha de bronze, mas graças a Deus, consegui subir ao pódio», concluiu. Os medalhados do Europeu, Salomé Afonso, Isaac Nader e Auriol Dongmo vão estar presentes noCampeonato do Mundo de atletismo indoor, que se realiza em Nanjing, na China, de 21 a 23 de março.