Dedica-se em exclusivo ao atletismo de modo a otimizar a performance desportiva. Há muito que trabalha para chegar às medalhas. Quando isso aconteceu foi em dose dupla no Campeonato da Europa de pista coberta, nas distâncias de 1.500 e 3.000 metros.
A comitiva portuguesa regressou do Campeonato da Europa de atletismo em pista coberta, realizado nos Países Baixos, com quatro medalhas; uma de prata e três de bronze – apenas sete países conquistaram mais medalhas. Portugal esteve em destaque na competição feminina, onde conquistou três medalhas. A grande confirmação veio de Salomé Afonso, vice-campeã nos 1.500 metros e terceira classificada nos 3.000 metros. Entre qualificações e corridas, a atleta do Benfica correu 9.000 metros em quatro dias.
Salomé Afonso começou por jogar futebol e basquetebol. Aos 13 anos, tornou-se atleta do Sporting, fez parte da equipa campeã europeia de atletismo em 2016 e foi campeã nacional individual nos 800 e 1.500 metros. Este ano transferiu-se para o Benfica. Após várias vitórias nacionais, esteve presente nas olimpíadas Tóquio 2021 e Paris 2024, onde atingiu as meias-finais e realizou a segunda melhor marca de sempre nos 1.500 metros.
As medalhas conquistadas no Europeu são o resultado de uma evolução natural. A atleta tem como fonte de inspiração o seu treinador Enrique Pascual, o atleta Isaac Nader, companheiro na vida pessoal e desportiva, e os pais. O atletismo é uma paixão e um desafio já que «perseguimos um alvo que nunca para que é o relógio», disse, mas há também a parte menos boa. «A remuneração é baixa para o nível de investimento necessário». Os passatempos favoritos são a leitura, escrita e séries televisivas. Salomé Afonso e o namorado Isaac Nader mudaram-se para Soria, Espanha, onde encontraram melhores condições de treino e os resultados estão à vista. Aos 27 anos, está no pico da sua forma, como demonstrou em Apeldoorn, nos Países Baixos. A atleta fez o que nunca tinha sido feito no atletismo nacional: conquistar duas medalhas na mesma edição de um Europeu. «Falei nisso com o meu treinador, é como passar à final. O que custa é a primeira vez, depois o cérebro muda o chip e pensa que é possível chegar às medalhas», afirmou.
O primeiro grande momento aconteceu na corrida de 1.500 metros, onde se sagrou vice-campeã europeia, com um novo recorde pessoal (4:07.66). Sempre bem colocada, atacou no final e tornou-se a segunda portuguesa a ganhar uma medalha nesta distância. «À entrada para a curva final, pensei que ia ser mesmo a ferros porque estava tudo muito próximo. Foquei-me apenas na minha corrida, quase como se estivesse numa bolha, e o meu objetivo foi correr o mais rápido possível e isso significou a prata», contou. Na atribulada final dos 3.000 metros (com várias quedas), Salomé Afonso esteve sempre bem colocada, a ponto de poder discutir as medalhas nos últimos 40 metros, onde ultrapassou a espanhola Marta Garcia. «Foi uma corrida caótica, com muitas quedas e contactos e muita dificuldade em me posicionar, era tudo o que não queria. Ao longo da prova eliminei alguns pensamentos e, nos últimos 40 metros, pensei que era possível. Olhei para a espanhola e disse ‘desculpa, mas vou tentar apanhar-te’. Deixei tudo em pista», foi assim que conquistou a medalha de bronze.
As duas medalhas deixaram Salomé surpreendida. «Não vou ser hipócrita, mas não fazia ideia que era a primeira portuguesa a ganhar duas medalhas. Pensava que outros atletas o podiam fazer, não quero referir nomes, mas um tal Isaac Nader [é o namorado] e outros poderão fazê-lo», confidenciou. Depois destes resultados, a ideia é continuar. «O próximo passo é manter o nível e tentar ganhar uma medalha nos Mundiais, o que é difícil porque o nível está muito elevado», afirmou.
Mais rápido e mais forte
No Europeu de pista coberta estiveram em destaque mais dois atletas: Isaac Nader e AuriolDongmo, que conquistaram medalhas de bronze. Poucos minutos depois da namorada tornar-se vice-campeã europeia nos 1.500 metros, Isaac Nader participou na corrida masculina e conquistou a sua primeira medalha com o terceiro lugar; há 16 anos que Portugal não subia ao pódio nesta distância. «Estamos os dois bastantes felizes» afirmou mais tarde.
«Não esperava que a minha primeira medalha internacional tivesse um sabor tão agridoce. Vou desfrutar dela, porque há que desfrutar, até porque há pessoas que tentam e não conseguem e eu consegui. O quarto classificado levava cinco metros de desvantagem e senti que ainda tinha energia. A partir desse momento, soube que ia acabar com uma medalha», explicou Nader, que enalteceu o vencedor é «o melhor atleta europeu de sempre nas provas de meia distância. É muito difícil bater o Jakob Ingebrigtsen, mas o segundo lugar era aquele que eu poderia chegar. Hoje eles foram melhores que eu», acrescentou. O atleta lembrou ainda que «apesar de não ter conquistado medalhas anteriormente, sabia que o poderia fazer. Sabia que era uma questão de tempo até conseguir desbloquear as medalhas», fez questão de dizer.
A fechar o Europeu, Auriol Dongmo conquistou a medalha de bronze no lançamento do peso. A recordista nacional e bicampeã europeia regressou à competição após 16 meses a recuperar de uma lesão, e garantiu o terceiro lugar. «Claro que o meu objetivo era subir ao pódio. Eu e o meu treinador não estávamos a olhar para a marca, mas fico feliz por conseguir o melhor registo do ano e conseguir a medalha», afirmou. Habituada ao lugar mais alto do pódio, o terceiro lugar acaba por ser bastante significativo para a atleta nascida nos Camarões. «Toda a gente sabe que eu gosto da medalha de ouro, mas o bronze tem um grande sabor, porque foi conseguida depois de prolongada lesão e da gravidez. Normalmente ficaria muito chateada por esta medalha de bronze, mas graças a Deus, consegui subir ao pódio», concluiu. Os medalhados do Europeu, Salomé Afonso, Isaac Nader e Auriol Dongmo vão estar presentes noCampeonato do Mundo de atletismo indoor, que se realiza em Nanjing, na China, de 21 a 23 de março.