terça-feira, 13 jan. 2026

Uma cruzada contra a maternidade

Escrevendo eu há muitos anos sobre este tema, só muito recentemente percebi o verdadeiro motivo da luta das feministas a favor do aborto – e da sua elevação à condição de ‘causa’.

Há umas semanas escrevi um texto sobre a eutanásia, onde dizia uma evidência: nestas questões que envolvem a vida e a morte, quando se mexe nas fronteiras naturais, nunca mais se pára. E dei o exemplo do aborto: começou por ser tolerado em circunstâncias muito especiais – e hoje está liberalizado.

Curiosamente, pouco depois da publicação desse artigo – e como que a dar-lhe razão –, o Bloco de Esquerda pediu o alargamento do prazo do aborto das 10 para as 14 semanas, com a abolição do período de reflexão. De alargamento em alargamento, um dia chegaremos aos 9 meses.

Nesta questão do aborto, compreendendo eu que em certas situações desesperadas seja utilizado como um último recurso, faz-me tremenda confusão que alguém o possa assumir como ‘uma causa’. Uma ‘causa’? É possível considerar ‘uma causa’ algo cujo fim é a interrupção de uma vida humana em gestação?

Alguém poderá ter ‘orgulho’ nisso? Aquelas mulheres que se dizem ‘orgulhosas’ por terem abortado já pensaram bem na monstruosidade que isso significa?

O aborto tem sido um dos temas das eleições americanas, e fico estupefacto ao ouvir os comentadores dizer com a maior naturalidade que a defesa do aborto é um dos ‘trunfos’ de Kamala Harris. Um ‘trunfo’ seria, por exemplo, ser muito inteligente, ou saber muito de economia, ou ter uma grande experiência internacional. Agora, um trunfo é defender o aborto? Isso qualquer um pode fazer. Defender a destruição de futuras vidas humanas poderá ser um trunfo? Estamos todos loucos ou perdemos os princípios e as referências?

Há umas semanas, num debate com Trump, ouvi Kamala Harris usar um dos argumentos mais estúpidos que as abortistas invocam: que as mulheres têm «direito ao seu próprio corpo». O argumento é estúpido – e não abona nada a favor da inteligência da candidata democrata – por uma razão evidente: do que se está a falar não é do corpo da mulher mas de uma outra vida que já se iniciou e se pretende interromper. Uma candidata à Presidência dos EUA não deveria usar um argumento tão obviamente disparatado. 

Em conversa recente com uma senhora que há muitos anos nos dá apoio no Alentejo, ela falava da sua segunda gravidez, que já tinha vindo «fora do tempo» e muito afastada do seu primeiro filho, levando algumas pessoas a aconselhá-la a fazer «um desmancho». Era assim que o aborto se designava: um ‘desmancho’. Mas ela resistiu. Levou a gravidez por diante. E agora confessa: «Ela tem sido o nosso amparo. Meu e do meu marido. Nós não podíamos estar aqui a viver sozinhos sem o apoio dela». 

Quantos de nós já não ouvimos histórias semelhantes? De mulheres que incitadas a abortar não o fizeram – e têm nesse filho o seu grande apoio? A começar por Dolores Aveiro, a mãe de Cristiano Ronaldo. Inversamente, quantas mulheres hoje sozinhas não se arrependeram de ter abortado? 

Devo dizer que, escrevendo eu há muitos anos sobre este tema, sempre no mesmo sentido, só muito recentemente percebi o verdadeiro motivo desta luta das feministas a favor do aborto – e da sua elevação à condição de ‘causa’.

Defendendo a libertação total da mulher, as feministas consideram no fundo que a maternidade é uma escravidão. Primeiro, as mulheres têm de andar nove meses com um corpo ‘estranho’ dentro de si; depois, é suposto amamentarem-no pelo menos durante os primeiros meses, o que implica uma dependência; finalmente, ficam amarradas para o resto da vida, pois raramente uma mãe entrega um filho à sua sorte e não faz por ele os maiores sacrifícios.

Portanto, uma mulher só ganhará a ‘verdadeira independência’ quando não tiver filhos. Quando não tiver de carregar com a gestação dos filhos, com a amamentação dos filhos, com os cuidados com os filhos, com os sacrifícios pelos filhos. Enquanto as mulheres tiverem filhos, serão sempre umas ‘eternas sacrificadas’.

Mesmo que muitas feministas não tenham consciência disso – e acredito que não tenham –, a sua luta a favor do aborto, é, no fundo, uma luta contra a maternidade.

A luta a favor do aborto visa a libertação da mulher dos ‘sacrifícios’ da maternidade.

No fundo, tal como a eutanásia, é uma luta contra a vida.

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