Para muitos que ali passam, a porta verde do número 178 da Rua do Século é apenas mais uma porta. Para outros, um lugar cheio de memórias. Quem não conhece, não diria que ao tocar na campainha e entrando naquele espaço, faria uma viagem até 1964, ano da sua abertura. Antes disso, encontraríamos nesta morada uma latoaria.
No interior, sejam 19 horas ou duas da manhã, uma luz intimista traz-nos uma sensação aconchegante, poética e boémia. As madeiras, os pequenos candeeiros que iluminam as mesas com toalhas verde póquer, os armários de vidro que guardam histórias passadas, o pequeno balcão com vista para a sala. Olhando para qualquer recanto, podemos idealizar inúmeras cenas que podiam ter saído de um filme.
Quando abriu, o Bairro Alto era a «capital dos jornais». Por isso, este foi o ponto de encontro de profissionais de horas desregradas, como jornalistas, políticos, escritores e atores. Os cinzeiros enchiam-se e o gelo dos uísques derretia à medida que as horas passavam. As pessoas ficavam a par das novidades da cidade, do país e do mundo. Mesmo aqui perto funcionava o jornal O Século. Paulo Guilherme D’Eça Leal era desenhador e foi ele que idealizou o espaço que geriu apenas por três anos. Depois disso, a responsabilidade passou para Adriano de Oliveira, irmão de Albino de Oliveira, que acabou por ficar à frente do espaço até aos dias de hoje. Mas parece que o seu tempo acabou. Chegou a hora de descansar e, depois de várias propostas recusadas, parece que o Snob já tem um novo dono: trata-se de Miguel Garcia, do grupo São Bento, proprietário do Café de São Bento, outro clássico de Lisboa, e dos restaurantes Bougain e Corleone, ambos em Cascais.
Continuar o legado
Os clientes não precisam de se preocupar, porque ao contrário de outros espaços que fecham e mudam radicalmente, as coisas por aqui ficarão iguais. «Tendo em conta que também já tenho o Café São Bento há alguns alguns anos, estou na indústria a mais de 20 e já tenho muitas provas dadas, venho com o compromisso de manter o Snob como ele sempre foi. Não vou transformá-lo noutra coisa. Acho que, para uma pessoa como o senhor Albino, que tem o espaço há mais de 50 anos, é uma garantia de que quem vem não vai dar cabo disto», explica Miguel Garcia ao Nascer do SOL. «Quando uma pessoa se dedica com corpo e alma, como ele fez, é o que gostaria que acontecesse. Isto não é só uma transação de valores, é uma passagem de testemunho. Gosto muito que os clássicos na cidade de Lisboa não morram e que as coisas não desapareçam», continua, acrescentando que foi esse seu compromisso que fez com que Albino de Oliveira olhasse para a sua proposta de maneira diferente. Além disso, de acordo com o novo proprietário, Albino teve alguns problemas de saúde e precisa de descansar. «Foi um familiar meu que sempre foi um cliente muito assíduo do Snob que fez a ponte entre nós. Fomos apresentados há cerca de um ano e temos vindo a falar», revela ainda. Miguel não era um cliente habitual. Porém, sempre teve um grande carinho pelo espaço pela maneira como este se conseguiu manter. «Conseguiu manter-se vivo este tempo todo e o valor está no legado do senhor Albino, que, nos últimos anos, fez com que realmente houvesse um potencial de continuidade. É nisso que estou a apostar», garante. Segundo o novo proprietário, vão trocar-se apenas as coisas que estão gastas pelo tempo. Madeiras vão ser recuperadas, tal como os sofás e o chão. «Vamos investir em equipamento para poder dar uma resposta melhor à exigência de uma casa cheia. Queremos recuperar as casas de banho. No fundo, é uma revitalização do espaço e não uma transformação», frisa. «Eu acho que a história dos lugares é a história da cidade. Acho que é isto que cria, no fundo, a nostalgia, um lugar de memórias que não ficam só numa fotografia ou num jornal antigo. Um lugar onde as pessoas possam voltar. O que acontece mais hoje em dia é abrir-se espaços novos, a minha aposta aqui é manter os clássicos. Queremos manter os clássicos míticos», acrescenta.
A porta continuará a abrir-se apenas quando a campainha soar e não haverá mudanças nos menus e nos preços. «Vamos só ajustar. Vou manter na carta aquilo que o senhor Albino disse que devia manter: o clássico bife do Snob, os croquetes, o bacalhau à Brás, os pregos», revela. Quanto aos horários, também se vão manter. No entanto, o período de abertura será alargado. «Vamos estar abertos sete dias por semana, das 19h às 2h. O encerramento da cozinha é à 1h», revela. Miguel Garcia garante ainda que está a fazer o máximo para abrir as portas com uma festa de inauguração dos 60 anos no dia 6 de dezembro. «Vou fazer de tudo para o conseguir cumprir, mas claro que depende de muitos fornecedores, de muitos intervenientes», lembra.
Futuro incerto
O futuro do Snob está por isso assegurado. Infelizmente, parece que o mesmo não se pode dizer do VaVa. Ainda esta semana foi considerado pela Academia Galega do Audiovisual um lugar de interesse cinematográfico, mas está «encerrado por tempo indeterminado». O estabelecimento fechou para férias em Agosto e nunca mais abriu, constatam antigos clientes habituais. Fala-se de uma possível venda.
O espaço nasceu em 1958, considerado um tempo de revolta e conspiração sem precedentes na história do Estado Novo, como referiu Lauro António num texto que escreveu para A Mensagem. Foi criado por uma dupla de gerentes, dois irmãos, Petrónio e Luís Gonzaga. De acordo com o site Lojas com História, o restaurante deve o seu nome a um jogador de futebol brasileiro que era famoso à época de abertura. Projetado pelo afamado arquiteto Eduardo Anahory, surgiu no contexto de uma série de novas experiências arquitetónicas do então novo bairro de Alvalade.
Até à revolução de Abril, foi um importante ponto de encontro de pensadores e artistas, sobretudo os do Novo Cinema, unidos na posição política e na resistência, ao ponto de se falar mais tarde da ‘geração VaVa’. Esta geração inclui realizadores como Paulo Rocha, Fernando Lopes, Lauro António, António Cunha Telles, João César Monteiro, Pedro Bandeira Freire, Manuel Costa e Silva, António-Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos, etc. Na música, destacam-se nomes como o de Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e Carlos Mendes.
Tempos de glória
«Nós crescemos no meio de conspiradores», lembra Fernando Tordo. «O VaVa era um lugar de encontro de escritores, atores, músicos, realizadores, encenadores. Lembro o Paulo Rocha, o António-Pedro Vasconcelos, o Fernando Lopes… Na área do jazz o Luís Villas Boas, que tem muito a ver com a minha carreira… E depois toda a malta nova. Eu, o Paulo de Carvalho… Nós éramos visitas todo o dia, eu vivia no bairro ao lado. Era uma coisa que se fazia a pé. Foi aí que fizemos a nossa aprendizagem», conta ao Nascer do SOL. «Começámos a ir aos Festivais da Canção nessa altura, com 21 anos», continua. «Era uma coisa extraordinária. A gente ia para uma reunião, passava por ali. Acabávamos a reunião, voltávamos. Íamos para fazer um concerto, passávamos por lá… Era uma coisa louca! Havia uma intimidade muito especial», revela. «Lembro-me que o Luís Villas Boas vinha para o fundo da sala - onde se falava sobre música - e dizia aos conspiradores: ‘Vocês são uns chatos do caneco! Vou para ao pé dos miúdos!’. Era o entreposto entre a malta mais velha e a malta nova que ajudou a construir», lembra animado. «Com o tempo, as coisas foram mudando e as pessoas foram morrendo. Ainda há uns dias faleceu um amigo meu que também frequentava o espaço e que era o ‘namoradeiro’. Nós controlávamos o panorama feminino. Ele dizia: ‘Com aquela namoro eu! Aquela está livre’. Era tudo muito giro. Havia uma liberdade no VaVa que não havia na rua», recorda o cantor. «Haviam tantas brincadeiras com o senhor Petrónio… É bom que não nos esqueçamos destes nomes: Petrónio e Luís Gonzaga. Eram tão solidários… Faltava-nos 20 escudos para colocar gasolina no carro e eles lá nos ajudavam. Nós, como retribuição, fartávamo-nos de brincar. Às vezes telefonávamos para o VaVa - eles atarefados da vida atrás do balcão e sem esperar chamadas -, e dizíamos pelo telefone: ‘Importa-se de chamar o senhor Marquês de Pombal?’. Outras vezes era o D. Sebastião, o Luís Vaz de Camões...», afirma, seguido de uma gargalhada. «Respirava-se liberdade lá dentro. Havia lá quem chegasse e sobrasse para qualquer investida da PIDE», acrescenta Fernando Tordo.
Perda de identidade
Para Frederico Corado, filho de Lauro António, o VaVa foi a sua primeira casa. «Quando saí da maternidade, o meu primeiro poiso foi o VaVa. Antes de ir para casa, fui lá. Estas coisas têm todas a ver com as nossas memórias afetivas, não é?», afirma o também realizador de cinema, recordando as divisórias em madeira que tornavam o espaço «muito quente», os bancos corridos em couro castanho com umas grandes molas que se punha a desfazer por baixo. Apesar de não ter apanhado a fase em que o estabelecimento possuía um espaço que o Banco BPI agora ocupa - conhecido como a sala de bilhares -, Frederico Corado lembra-se de que existia uma espécie de quiosque dentro do restaurante. «Era gerido pelo senhor Tony, que me deixava entrar lá para dentro», recorda com carinho. Mais tarde, o quiosque mudou-se para o exterior e acabou por fechar. O realizador acredita que as mudanças que sucederam - e as vendas que sofreu -, acabaram por tirar a identidade ao VaVa. «A dada altura passou a vender pizzas e tinha umas fotografias bizarras de umas pizzas na parede. Ao longo do tempo foram perdendo a cor, transformando-se numa coisa um bocado mórbida. No meio, um letreiro luminoso daqueles que se vai alterando todos os dias. Tinha o dia, a hora, a ementa. Recebeu umas mesas de madeira com um estofo creme, os painéis de Menez foram cortados e foi feita a divisória a que as pessoas chamavam o ‘VaVa dos ricos’ e o ‘VaVa dos pobres’. De um lado havia um balcão corrido, do outro lado fizeram um restaurante ‘mais chique’. Eu ainda era muito miúdo, mas com o passar dos anos fui percebendo que o grande erro foi esse», acredita. Tal como a estética, o ambiente também foi mudando com o tempo. «O meu pai tinha o hábito de ir almoçar todos os dias lá. Levantava-se tarde e ia por volta das 14h. Quando estava em casa ia com ele. O ambiente era muito interessante. Apesar de ir mudando, era sempre um ambiente de reunião de amigos, de clientes assíduos. O espírito dos anos 60 manteve-se até há pouco tempo. Eu próprio tive os meus grupos. Sempre foi um ponto de encontro para tudo. Além disso, os proprietários não metiam as pessoas a andar! Havia um ‘laissez faire’ muito simpático», conta. Segundo Frederico Corado, o senhor Pereira e o senhor Fernando - os segundos proprietários do espaço -, cansaram-se e venderam-no à nova gerência, que voltou a fazer obras. «Chamaram ao VaVa ‘steak house’. Não sei se não foi um tiro no pé. O VaVa não é uma coisa igual a todas as outras. Tinha uma identidade. Os preços subiram, a qualidade rapidamente desceu, as pessoas mudaram. A mística que antes havia desapareceu», lamenta. «O meu pai ainda organizou tertúlias, numa tentativa de reencontrar essa mística - que foi bem recebida pela nova gerência -, mas mesmo assim não deu os frutos que era preciso», acrescenta.
Também Fernando Mendonça era um cliente assíduo do espaço. Nos últimos anos, viaja entre Inglaterra e Lisboa. No entanto, mantém a sua casa perto do VaVa e até há bem pouco tempo, sempre que regressava à capital, a primeira paragem era o restaurante. «O VaVa era o ponto de encontro de tudo aquilo que era cultura no país. Passou por ali tudo e estava sempre cheio, desde manhã até à noite. Claro que ia alternando com diversos tipos de clientes», afirma ao Nascer do SOL. «Era uma mistura de bons vivants e de cultura», acrescenta. O seu pai tinha o escritório no mesmo prédio e, por isso, Fernando ia lá almoçar todos os dias. «O senhor Petrónio - que estava sempre atrás do balcão e era uma espécie de maestro que controlava tudo -, e o senhor Gonzana eram uma dupla fantástica. Eram muitos exigentes com o atendimento, mantiveram sempre a mesma equipa. Lembro-me que, nessa altura - anos 60 -, o espaço estava dividido entre a parte do restaurante e o café com decorações diferentes. Havia os célebres bancos corridos em cabedal na sala de refeições. O filme ‘Os Verdes Anos’ foi lá idealizado e rodado. Tudo o que era música também passou por ali. Os Parodiantes de Lisboa tinham o estúdio no mesmo prédio e os Heróis do Mar treinavam num terraço numa casa no prédio em frente. Portanto, tivemos concertos à borla durante muito tempo», lembra. «Tudo acontecia ali. Havia muitos outros cafés, mas o VaVa bateu todos aos pontos. A concentração de cabeças naquele espaço foi uma coisa impressionante», garante. Depois passou-se o 25 de Abril e, segundo Fernando, houve algumas alterações nos clientes. «Penso que foi nessa altura que a cave de bilhar foi vendida ao banco», acrescenta. Já nos anos 80, o espaço foi vendido e foi aí que «as coisas começaram a piorar». «O senhor Fernando - proprietário nessa altura -, fez umas obras um bocadinho selvagens e tapou os célebres azulejos de Menez», conta. Já nos anos 90, de acordo com o mesmo, a parte cultural começou a morrer. «Começaram a fechar muito mais cedo. Foi-se mudando o espírito. Eu e os meus amigos, antes disso, monipolizávamos ali uma mesa durante uma tarde inteira. Eu chegava depois de almoço, ficava ali, viam uns, iam embora, viam outros e por aí sucessivamente. O senhor Petrónio fechava os olhos a isso. Era um ritual», brinca. «Há uns sete anos que o Fernando e o sócio optaram por vender a esta nova gerência que destampou alguns dos azulejos, mas descaracterizou um bocado o espaço. Não tem nada a ver com o que era. O Lauro António ainda organizou tertúlias, apresentações de livros e concertos. Várias homenagens. No entanto, nunca voltou a ser o que era», descreve. O VaVa começou então a perder os seus clientes. «Quebrou-se a relação empregado/cliente. Os empregados estavam sempre a rodar. A relação não se estabelecia», frisa. «Aquilo foi decaindo até ao momento em que estamos agora. Fechou para férias em Agosto e não voltou a abrir. O boato é que está à venda por 300 mil euros. Uma barbaridade!», adianta. «É apenas um rumor», sublinha. Segundo Fernando, as histórias que lá viveu são tantas, que não consegue escolher apenas uma. Porém, recorda com carinho os pequenos almoços que tinha todos os dias com um ex-professor de liceu. «Já estou com 59 e mantenho contacto com alguns dos meus antigos professores. Até há bem pouco tempo, encontrava-me todas as manhãs - quando estava em Portugal -, com o meu antigo professor de desenho. Ele ia para o VaVa como se fosse para o atelier. Às 8h30 já lá estava. Eu fazia-lhe companhia. Eram momentos de partilha muito bonitos», revela.
«Gostava muito que esta conversa fosse uma coisa ‘vibrante’. Tem de se chamar urgentemente a atenção do presidente da Câmara e dos Presidentes das Juntas, para não se comportarem como atrasados mentais. O VaVa tem de sobreviver. Não sabemos o que é que planeiam fazer, mas tem de ser impedido. Este estabelecimento tem muita importância! É eliminar uma coisa que é histórica! O VaVa degradou-se até chegar a este ponto. Os tipos da política têm de saber o que é que isto significa. Isto não é uma pastelaria ou um café é um símbolo da cultura portuguesa!», remata Fernando Tordo.