quarta-feira, 20 mai. 2026

A fuga de Alcoentre

O que se vai ouvindo da fuga não é nada tranquilizador. Diz-se que não existem há anos guardas nas torres, que foram substituídos por um único funcionário que vigia os ecrãs de 200 câmaras de vídeo. Será verdade?

As fugas de presos são sempre episódios excitantes. Ainda hoje se fala da fuga de Peniche de um grupo de 9 militantes do PCP, incluindo Álvaro Cunhal. Claro que aí havia a componente política, que acrescentava outra vertente à história. Mas fugas de gente desconhecida também deram origem a livros e filmes de sucesso.

Recordo Os Fugitivos de Alcatraz, que reconstitui a fuga desta famosa prisão, considerada na época a mais segura do mundo, de três criminosos. Visitei Alcatraz há uns anos. Fica numa pequena ilha na baía de S. Francisco, sendo praticamente impossível chegar a terra a nado. Mesmo assim houve quem tentasse fugir de lá – mas só três homens conseguiram não ser apanhados, e nunca mais foram vistos. Ainda hoje não se sabe o que lhes aconteceu: se se salvaram ou morreram. De qualquer modo, essa fuga mostrou que não há prisões 100% seguras.

Nada na vida é 100% seguro: nem prisões, nem esquemas de segurança, nem barcos, nem aviões. Não é possível reduzir o risco a zero.

Alcoentre também não poderia sê-lo, embora a perigosidade dos agora fugitivos talvez merecesse medidas de segurança adicionais.

As circunstâncias da fuga ainda não foram explicadas. Fala-se em longa preparação, em ajuda do exterior, em duas escadas, num buraco na rede, numa carrinha – mas até aqui não há nada de extraordinário, de surpreendente na fuga. E continua sem se perceber como foi possível 5 indivíduos fugirem da prisão em pleno dia sem os guardas darem por nada, sem ter havido alertas, sirenes a tocar, algum aviso.

Esta é a grande questão.

E o que se vai ouvindo não é nada tranquilizador. Diz-se que não existem há anos guardas nas torres, que foram substituídos por um único funcionário que vigia os ecrãs de 200 câmaras de vídeo. Será verdade? E se o indivíduo, a olhar durante horas para um emaranhado de pequenos ecrãs onde habitualmente não acontece nada, adormecer? E se for à casa de banho haverá alguém para o substituir?

Todos os relatos induzem a ideia de que o nível de segurança era baixo, o que aliás a ministra da Justiça reconheceu. Mas isto remete para um problema muito mais vasto.

De há dois séculos para cá acelerou-se muitíssimo o processo de substituição do homem pela máquina. E nos últimos 50 anos o fenómeno tem vindo sempre a ganhar terreno em áreas onde não se suspeitava que fosse possível. A admissão de trabalhadores começou a ser fortemente restringida, quer no setor privado quer no Estado (cunhas à parte…); a redução do quadro de pessoal tornou-se uma obsessão dos gestores.

Tive pela primeira vez perceção clara desse fenómeno quando o ateliê de arquitetura em que trabalhava recebeu a encomenda de um projeto de novas instalações para uma fábrica de fiação, a Fábrica Barros. Numa das reuniões de trabalho, o dono da fábrica virou-se para os arquitetos que conduziam o projeto – Manuel Tainha e Gil Moreira – e disse, comentando um pormenor do desenho:

– Isso não pode ser assim, pois obriga-me a ter mais um trabalhador.

Eu não participava nessa obra, mas quando me contaram esta história fiquei estupefacto. Era preciso alterar o projeto para evitar a contratação de um trabalhador? A fábrica tinha dezenas ou mesmo centenas de operários, que diferença fazia um a mais ou a menos? Mas fazia. E o projeto foi alterado.

Daí para cá, esse fenómeno generalizou-se. As portagens deixaram de ter funcionários, os parques de estacionamento idem, as bilheteiras também, e por aí fora, incluindo as sentinelas nos quartéis e nas prisões.

Quando eu era jovem, subia diariamente a Calçada da Ajuda, ladeada de quartéis, e ouvia as vozes dos soldados de sentinela na noite:

– Sentinela alerta…

E um som mais longínquo respondia:

– Está!

Tudo isto desapareceu.

E agora em Vale de Judeus havia um único funcionário para vigiar 200 pequenos ecrãs. Se houvesse sentinelas nas guaritas, como antes, certamente não lhes tinham escapado a fuga de 5 homens durante o dia, que tiveram de escalar um muro de 6 metros, com duas escadas.

Este processo de substituição dos homens pelas máquinas – que já vai na inteligência artificial – tem que se lhe diga. Por muito que se queira, um homem e uma máquina não fazem o mesmo trabalho. E se em certas situações isso tem pouca importância, noutras pode ser decisivo.

Não vale a pena culpar os Governos, nem os ministros, nem os diretores de serviços, nem ninguém. Este é um problema civilizacional. A substituição do homem pela máquina, a desumanização do trabalho, é imparável. Mas é bom que tenhamos consciência dos perigos que pode trazer – para, ao menos, evitar os mais graves.

Foi o que aqui não aconteceu.