As fugas de presos são sempre episódios excitantes. Ainda hoje se fala da fuga de Peniche de um grupo de 9 militantes do PCP, incluindo Álvaro Cunhal. Claro que aí havia a componente política, que acrescentava outra vertente à história. Mas fugas de gente desconhecida também deram origem a livros e filmes de sucesso.
Recordo Os Fugitivos de Alcatraz, que reconstitui a fuga desta famosa prisão, considerada na época a mais segura do mundo, de três criminosos. Visitei Alcatraz há uns anos. Fica numa pequena ilha na baía de S. Francisco, sendo praticamente impossível chegar a terra a nado. Mesmo assim houve quem tentasse fugir de lá – mas só três homens conseguiram não ser apanhados, e nunca mais foram vistos. Ainda hoje não se sabe o que lhes aconteceu: se se salvaram ou morreram. De qualquer modo, essa fuga mostrou que não há prisões 100% seguras.
Nada na vida é 100% seguro: nem prisões, nem esquemas de segurança, nem barcos, nem aviões. Não é possível reduzir o risco a zero.
Alcoentre também não poderia sê-lo, embora a perigosidade dos agora fugitivos talvez merecesse medidas de segurança adicionais.
As circunstâncias da fuga ainda não foram explicadas. Fala-se em longa preparação, em ajuda do exterior, em duas escadas, num buraco na rede, numa carrinha – mas até aqui não há nada de extraordinário, de surpreendente na fuga. E continua sem se perceber como foi possível 5 indivíduos fugirem da prisão em pleno dia sem os guardas darem por nada, sem ter havido alertas, sirenes a tocar, algum aviso.
Esta é a grande questão.
E o que se vai ouvindo não é nada tranquilizador. Diz-se que não existem há anos guardas nas torres, que foram substituídos por um único funcionário que vigia os ecrãs de 200 câmaras de vídeo. Será verdade? E se o indivíduo, a olhar durante horas para um emaranhado de pequenos ecrãs onde habitualmente não acontece nada, adormecer? E se for à casa de banho haverá alguém para o substituir?
Todos os relatos induzem a ideia de que o nível de segurança era baixo, o que aliás a ministra da Justiça reconheceu. Mas isto remete para um problema muito mais vasto.
De há dois séculos para cá acelerou-se muitíssimo o processo de substituição do homem pela máquina. E nos últimos 50 anos o fenómeno tem vindo sempre a ganhar terreno em áreas onde não se suspeitava que fosse possível. A admissão de trabalhadores começou a ser fortemente restringida, quer no setor privado quer no Estado (cunhas à parte…); a redução do quadro de pessoal tornou-se uma obsessão dos gestores.
Tive pela primeira vez perceção clara desse fenómeno quando o ateliê de arquitetura em que trabalhava recebeu a encomenda de um projeto de novas instalações para uma fábrica de fiação, a Fábrica Barros. Numa das reuniões de trabalho, o dono da fábrica virou-se para os arquitetos que conduziam o projeto – Manuel Tainha e Gil Moreira – e disse, comentando um pormenor do desenho:
– Isso não pode ser assim, pois obriga-me a ter mais um trabalhador.
Eu não participava nessa obra, mas quando me contaram esta história fiquei estupefacto. Era preciso alterar o projeto para evitar a contratação de um trabalhador? A fábrica tinha dezenas ou mesmo centenas de operários, que diferença fazia um a mais ou a menos? Mas fazia. E o projeto foi alterado.
Daí para cá, esse fenómeno generalizou-se. As portagens deixaram de ter funcionários, os parques de estacionamento idem, as bilheteiras também, e por aí fora, incluindo as sentinelas nos quartéis e nas prisões.
Quando eu era jovem, subia diariamente a Calçada da Ajuda, ladeada de quartéis, e ouvia as vozes dos soldados de sentinela na noite:
– Sentinela alerta…
E um som mais longínquo respondia:
– Está!
Tudo isto desapareceu.
E agora em Vale de Judeus havia um único funcionário para vigiar 200 pequenos ecrãs. Se houvesse sentinelas nas guaritas, como antes, certamente não lhes tinham escapado a fuga de 5 homens durante o dia, que tiveram de escalar um muro de 6 metros, com duas escadas.
Este processo de substituição dos homens pelas máquinas – que já vai na inteligência artificial – tem que se lhe diga. Por muito que se queira, um homem e uma máquina não fazem o mesmo trabalho. E se em certas situações isso tem pouca importância, noutras pode ser decisivo.
Não vale a pena culpar os Governos, nem os ministros, nem os diretores de serviços, nem ninguém. Este é um problema civilizacional. A substituição do homem pela máquina, a desumanização do trabalho, é imparável. Mas é bom que tenhamos consciência dos perigos que pode trazer – para, ao menos, evitar os mais graves.
Foi o que aqui não aconteceu.