quarta-feira, 11 fev. 2026

Amizade na literatura e no cinema. Mudam-se os tempos, ficam as amizades

Dos clássicos aos modernos, a literatura e a sétima arte brindam-nos com amizades que ficarão para a história e sem as quais estaríamos todos um pouco mais pobres.Da profundidade e seriedade das cartas entre Arendt e Jaspers ao glamour e extravagância do Rat Pack, passando pelos atores mais recentes, estas são histórias de amizade que vale a pena relembrar.
Amizade na literatura e no cinema. Mudam-se os tempos, ficam as amizades

J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis
Uma amizade fantástica

Dois clássicos da literatura do século XX. Membros da famosa sociedade literária The Inklings (Os presságios) na Universidade de Oxford, a relação entre J.r.r. Tolkien e C.S. Lewis, que começou no grupo de estudo  Kolbítar, marcou e redefiniu a ficção literária. Como escreveu Alister McGrath na biografia de C.S. Lewis, “não é um exagero dizer que Lewis se tornou numa parteira-chefe [do Senhor dos Anéis]”.

Lewis mais tarde abordou a questão da amizade, perguntando-se se “não nascem todas as amizades para toda a vida no momento em que, finalmente, se conhece outro ser humano que tem alguma intuição (...) ?”.

É caso para dizer que foi uma amizade fantástica.

Fitzgerald e Hemingway
Uma relação agridoce

Dois nomes que dispensam apresentações e uma amizade um tanto quanto especial. Hemingway, um consumidor excessivo de bebidas alcoólicas, e Fitzgerald, um introvertido, cruzaram-se na Paris exuberante no início do século passado. Eram personagens distintas e representativas de dois tipos antagónicos de masculinidade, mas eram parte integrante da “Lost Generation” que vivia perturbada com os horrores da I Guerra Mundial. “Todos nós somos maltratados desde o início e, sobretudo, é preciso sofrer muito para se poder escrever a sério”, pode ler-se numa carta de Ernest Hemingway para F. Scott Fitzgerald.

Nem sempre foi uma amizade fácil, principalmente quando regressaram aos Estados Unidos, mas ficará para sempre marcada no mundo literário.

Truman Capote e Harper Lee
E (quase) tudo a fama levou

A amizade entre estes dois grandes nomes da literatura americana começou na juventude. Truman Capote, nascido em Nova Orleães, e Harper Lee, natural de Monroeville, estavam separados por quase 400km, mitigados pelo verão. E pela tia de Capote, que vivia na mesma rua que o pai de Lee. A ABC news citou Andy Cranck, um professor de inglês, onde refere que “A.C. Lee [pai de Harper] reparou que eles andavam por ali e sentavam-se à frente de casas diferentes e inventavam histórias sobre o que lá se passaria”. Mal sabia o senhor Lee os génios literários que estavam a florescer naquelas duas crianças. Contudo, os dois amigos separaram-se quando atingiram o estrelato, o que não impediu que as suas colaborações nos deixassem verdadeiras obras-primas.

Arendt e Jaspers
O diálogo germano-judeu

É a amizade mais profunda deste pequeno leque. Dois pensadores alemães de gerações diferentes que se debateram e trocaram correspondência ao longo de mais de quarenta anos. Anos altamente conturbados e atrozes para o seu país natal, a Alemanha.

Da I Guerra Mundial ao Holocausto, passando pela República de Weimar, Hannah Arendt e Karl Jaspers mantiveram uma amizade de uma profundidade intelectual invulgar. Debruçaram-se sobre temas como o inenarrável nacional socialismo e o consequente holocausto (Arendt era judia) e é verdadeiramente delicioso e refrescante conseguir ler tais perspetivas nos dias de hoje. É uma amizade entre pensadores livres que nos deixa vestígios históricos de uma importância imensurável.

Rat Pack
Elegância dos palcos aos ecrãs

Um conjunto de amizades que definiu uma era. Fundado por Humphrey Bogart e do qual faziam parte nomes como Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr, o Rat Pack aliava a genialidade ao incessante glamour, atravessando os ecrãs e os palcos americanos nos anos 50 e 60. Nas suas memórias, Lauren Bacall, esposa de Bogart, afirmou que “para ser qualificado, era necessário ser viciado em inconformismo, ficar acordado até tarde, beber, rir e não se importar com o que os outros pensavam ou diziam de nós”.

A imagem de um grupo de amigos que deambula elegantemente por Las Vegas com um copo de whisky e um cigarro na mão parece já algo do passado, mas o Rat Pack eternizou o charme da época e foi um dos maiores responsáveis pelo boom da cidade.

De Niro e Al Pacino
50 anos carregados de histórias

Conheceram-se nos anos 60 e mantêm-se amigos. Ambos conhecidos por filmes associados à máfia e ao crime, a amizade destes dois clássicos da sétima arte induz muitos a pensar que contracenaram regularmente. A verdade é que, ao longo destas mais de cinco décadas, apenas estiveram juntos no ecrã em quatro ocasiões. A primeira vez foi no segundo filme da mítica trilogia Godfather. Contracenaram posteriormente no filme Heat, no Righteous Kill e, mais recentemente, no The Irishman. Ambos naturais de Nova Iorque, já foram vistos a jogar basquetebol num bairro da cidade. Numa entrevista, Al Pacino declarou fraternalmente que se dão bem e que “existe uma confiança. Simplesmente existe. Juntos compreendemos um pouco melhor esta coisa”.

Courteney Cox e Jennifer Aniston
Friends, literalmente

Foi no início dos anos 90, quando começaram a gravar a série Friends, uma das sitcoms recentes com mais êxito, que se tornaram próximas. Mas, além de contracenarem e serem ícones de uma geração, partilham uma amizade bastante próxima. Jennifer Aniston diz que já passaram “por muito juntas” e que “o show ensinou-nos a importância da camaradagem e dos nos mantermos juntas. E ensinou a estar lá uns para os outros – eu sei, é essa a canção, I´ll be there for you, mas é verdade”. Quando fala de Cox, Aniston não poupa as palavras: “Desde o início de Friends, ela foi imediatamente inclusiva, calorosa, amorosa e interessada em tudo sobre ti”. Courteney Cox garante que “Friends tornou-nos inseparáveis”.

A série não podia ter um nome melhor.

Matt Damon e Ben Affleck
Da infância aos Óscares

Ambos de Cambridge, no Estado do Massachusetts, conheceram-se bastante cedo para o padrão deste tipo de amizade. Eram vizinhos e as respetivas mães apresentaram o pequeno Matt, com 10 anos, e o ainda mais pequeno Ben, com 8. Desde então são unha e carne. Partilharam desde logo a paixão pela representação, e Ben Affleck chegou a dizer à revista americana Parade que “antes do Matt, estava sozinho. Representar era uma atividade a solo”. Matt Damon revelou, ao lembrar uma briga na juventude, que Affleck se “colocou numa situação muito má por mim. Isto é um bom amigo”.

Juntos escreveram o filme Good Will Hunting, pelo qual receberam um Óscar.

Uma amizade de sonho.

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