Teófilo Leite combina a gestão técnica e a meritocracia numa aposta na Investigação & Desenvolvimento no calçado. A partir de Guimarães, a Lavoro gera 22 milhões de euros e exporta para mais de 50 países.
Como é que está neste momento o negócio e o grupo Lavoro em geral?
Teófilo Leite – Está muito bem. Apesar de algumas nuvens que pairam sobre o setor do calçado em geral, nós estamos muito bem. Desde 2015, mais do que dobramos o nosso volume de negócios. Neste intervalo de tempo, estivemos a trabalhar seriamente, mas, no geral, as exportações portuguesas reduziram.
Neste último ano, os setores do calçado, dos têxteis e do vestuário sofreram, mas nesta área específica que trabalhamos, que é a do calçado profissional, de serviço às indústrias, continuámos felizmente a crescer.
Crescemos cerca de 15% em relação ao ano de 2022. O mês de janeiro foi muito bom, este ano.
Qual é o vosso volume de faturação?
TL – 22 milhões de euros. Agora em fevereiro houve uma ligeira quebra, mas já estamos a sentir a recuperação. Essa ligeira quebra de fevereiro tem que ver também com a mudança significativa da família de produtos que foram lançados na última feira, na Alemanha. A feira A+A, Arbeitsschutz und Arbeitsmedizin, realiza-se todos os anos ímpares em Düsseldorf e estamos presentes desde 1989. Ali apresentam-se as grandes tendências para os próximos dois anos.
É natural que haja aqui uma ligeira quebra. Os clientes estão à espera de poderem receber estes novos produtos, que estão precisamente em fase final de produção.
O grupo exporta cerca de 80% para dezenas de mercados, certo?
TL – Nós exportamos para toda a Europa. Temos posições fortes em alguns mercados. Além da Europa, exportamos para a Austrália, para a Mongólia, países completamente fora daquilo que é normal. Não estamos nos 170 mercados que a nossa associação de calçado diz, mas estamos em mais de 50.
Há uma área muito específica, no caso da Lavoro, em que sempre apostou: a economia da Defesa. A guerra é uma oportunidade ou não tem de haver guerra, necessariamente?
TL – Gostaríamos que não houvesse guerra. Mas há quem diga que temos paz quando estamos preparados para a guerra. A Europa é desafiada a estar preparada para a guerra para ter a paz; se esse é o objetivo, nós podemos contribuir na área do calçado.
Fizemos já um projeto interessante com o Exército Português, em colaboração com o CITEVE [Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário], precisamente olhando para o Soldado do Futuro. Desenvolvemos uma bota que mereceu a aprovação e que tem o selo do Exército Português, “Army Tested”, o que significa que está apta para poder responder às necessidades do Exército.
Mas já tínhamos uma tradição de produzir calçado militar. Essa tradição vem de uma colaboração estreita que mantemos com o fabricante mundial, que é a Bata, com o seu departamento Bata Industrials, localizado na Holanda, em Eindhoven. Com eles, produzimos uma bota segundo os standards NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte], vulcanizada em borracha e, portanto, para serviço pesado, heavy duty.
É uma produção que se mantém com alguma regularidade e que, suponho, para estas condições adversas e para o clima do centro-norte da Europa, será mais adequada para o efeito.
Ao nível nacional, os temas da contratação pública, designadamente, na área de Defesa, não são muito favoráveis às empresas portuguesas?
TL – Sim, é difícil. De qualquer modo, regula-se por cadernos de definição de produto, o que significa que teremos de responder a todas as exigências que lá são colocadas. Ora ganhamos, ora não ganhamos.
Há pelo menos mais dois fabricantes relevantes em Portugal de calçado militar, mas haverá também zonas ou áreas em que a qualidade, a especificidade e a adaptação às circunstâncias nos fazem preferir. Em particular, situações mais específicas na área da aviação, em que o peso é determinante e a nossa tecnologia permite produção de calçado muito leve, respondendo mesmo assim a todas as exigências, nomeadamente palmilhas antiperfuração, etc.
Isso implica um esforço contínuo de investigação e desenvolvimento. Há aqui uma inovação permanentemente em curso?
TL – Cerca de 15% do nosso pessoal é licenciado ou com mestrado. Dos 200, temos mais de 30 quadros com formação superior. Por outro lado, somos uma empresa certificada segundo a norma portuguesa IDI [investigação, desenvolvimento e inovação], norma NP 4457, que define as regras para que a empresa possa ter esta certificação IDI.
A regra fundamental é de que se possa gerir a informação, isto é, aceder aos canais de informação que lhe permitam trazer o saber para dentro de portas, para o combinar da melhor maneira no caso concreto dos produtos em que estamos a trabalhar.
Daqui resulta uma colaboração estreita, por um lado, com a Universidade do Minho, há longos anos, mas também com outros estabelecimentos, desde o INEGI [Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial] no Porto, e mais recentemente a Universidade de Aveiro. Também com a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, com quem desenvolvemos um projeto muito interessante para a área do calçado diabético – as exigências tecnológicas são significativas. Ou ainda com a Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, pois a sua experiência e expertise no estudo do movimento e do desporto é importante para nós.
Há cada vez mais uma incorporação de tecnologia no sapato?
TL – Nós dizemos que estamos ao serviço do conforto e da saúde do pé, com vista a melhorar as condições de trabalho e poder melhorar a produtividade dos nossos trabalhadores, através deste bem-estar físico e psicológico.
Há 30 anos que somos gold member da Satra, que é a maior associação mundial de fabricantes de calçado e que tem todo o género de tecnologias. Aliás, foi a Satra que desenvolveu a bota que foi à Lua, em 1968.
Além da Satra, fomos sócios-fundadores do Centro Tecnológico do Calçado; temos uma colaboração estreita com o Instituto de Design de Guimarães; somos sócios-fundadores da COTEC [Associação Empresarial para a Inovação], precisamente pela importância que a inovação tem na nossa área.
Fizeram também uma parceria com a Bosch. Qual era o objetivo?
TL – Integrámos uma equipa de parceiros que se congregaram sob a liderança da Bosch e que juntou 24 empresas, o Augmanity. O objetivo era desenvolver um projeto para a melhoria das condições de trabalho dos trabalhadores em geral e a nossa participação visava fornecer calçado que pudesse resolver algumas questões. Aquelas que propusemos e que conseguimos resolver tinham que ver com a melhoria do conforto, saúde e segurança dos trabalhadores.
Aliás, curiosamente, a Bosch já era nossa cliente, conhecia os nossos produtos e estava satisfeita com eles. Conseguimos desenvolver metodologias que permitem a referenciação, a detecção de quedas e a melhoria da circulação arterial venosa e linfática. O trabalhador, estando numa posição física fixa ao longo do dia, aumenta a volumetria do pé e isso traduz-se em desconforto. Implementar ou conseguir dinamizar estas condições da circulação arterial venosa e linfática melhora significativamente o conforto dos pés dos trabalhadores.
Este foi um projeto que decorreu durante três anos, com 24 parceiros, e em que, na nossa área, o calçado de segurança, conseguimos atingir um objetivo interessante.
Está neste momento a fazer um grande investimento nestas instalações em Guimarães. A área vai ser triplicada?
TL – Começámos aqui em 1986, numas pequenas instalações que foram destruídas e que fomos aumentando sucessivamente. Agora destruímos tudo e estamos a reconstruir. Passámos de cerca de 4 mil metros quadrados para ter, em breve, cerca de 10 mil metros quadrados aqui à porta da autoestrada, que é uma vantagem logística muito importante.
Para conseguir esta remodelação das instalações, tivemos de transitar temporariamente para uns armazéns localizados perto da Póvoa de Lanhoso, a cerca de 20 quilómetros daqui, onde temos três armazéns de 1500-1800 metros quadrados cada um.
No total, são cerca de 5 mil metros quadrados, onde temos um armazém de matérias-primas, que tivemos de retirar daqui; um armazém de produtos acabados, onde estamos a caminhar para os 150 mil pares de calçado em stock, para poder responder às necessidades dos nossos clientes 24 horas por dia, exportando para os mais de 50 países que servimos; e temos uma unidade de produção, que terminámos a instalação em setembro do ano passado e já está a funcionar em pleno. Ali temos tecnologias desde visão artificial, inteligência artificial, robotização da produção, com reaproveitamento dos desperdícios da produção, como também produção de energia elétrica solar, que cobre mais de 30% das nossas necessidades.
É uma unidade com um investimento da ordem dos 3 milhões de euros, em que conseguimos um apoio da ordem de 1 milhão de euros do IAPMEI [Agência para a Competitividade e Inovação], que está em fase de arranque, mas já a funcionar muito bem.
Recentemente, fomos visitados por colegas de profissão do calçado e ficaram surpreendidos pelo nível de desenvolvimento tecnológico que lá estamos a efetuar.
Está ao mesmo tempo a envolver os seus filhos na gestão da empresa. Já há um plano de sucessão em marcha?
TL – Tenho três filhos de uma primeira geração, outros três de uma segunda geração. São seis, no total: três rapazes e três raparigas. O mais velho, engenheiro mecânico como eu, depois de projetos onde esteve envolvido, nomeadamente na aviação, está a trabalhar na ICC; a minha filha mais velha também, na área administrativa e financeira.
A sucessão está garantida. Estamos a elaborar e a seguir as boas normas que a nossa associação das empresas familiares preconiza, de maneira que tudo seja previsto e atempadamente acordado para que não haja problemas na sucessão.
Embora esperando ter vida longa – as estatísticas apontam para que, em 2050, haja mais de 10 mil portugueses com mais de 100 anos e eu espero ser um deles – toda a questão da sucessão está a ser devidamente tratada de modo a não haver surpresas e a empresa familiar poder prosseguir.
À minha maneira
Quem é o Teófilo Leite? Qual é o seu estilo de gestão e de liderança?
TL – À minha maneira… isso faz-me lembrar uma música e “chutos e pontapés” não é, de facto, a nossa maneira de liderar.
Apesar de apostar no calçado. Mas pode ser também em inglês o My Way do Frank Sinatra.
TL – Também pode ser. De qualquer modo, a nossa gestão, à minha maneira, é caracterizada por um foco que combina, por um lado, a essência da gestão técnica - que vem da minha competência de engenharia -, com a meritocracia dos meus quadros. Damos esse incentivo continuadamente, fazendo jus àquilo que é a norma de gestão ISO 9001, em que somos certificados.
Sim, conseguimos
Qual foi a maior adversidade que encontrou, seja ao nível da empresa, seja ao nível pessoal?
TL – Nós somos de 1986. Celebrámos, recentemente, 38 anos. Curioso que temos ainda no nosso efetivo cerca de 10% dos trabalhadores que têm mais de 35 anos [de casa] e cerca de 20% que têm mais de 25 anos.
Uma grande adversidade que tivemos de tratar foi em 1992, com a entrada de Portugal no sistema monetário europeu. A moeda de referência era o marco e, nessa altura, o marco valia, grosso modo, 100 escudos e 1000 liras. Portugal na altura aderiu e a Itália não aderiu, ficou de fora. Com essa sua posição, a Itália permitiu que a sua lira desvalorizasse de 1000 para 1300 liras para o marco. O que significa, num mercado importante como era o nosso na Alemanha, que a Itália passou a ter uma posição competitiva 30% mais favorável do que nós. Como estamos focados, desde o início, na exportação, foi um desafio tremendo para conseguirmos resolver este problema.
Mais recentemente tivemos o desafio Covid. Os meus colaboradores foram verdadeiros guerreiros. Por razões familiares, eu tive de estar isolado. Estive ausente durante dois meses e os nossos trabalhadores, os nossos trabalhadores foram verdadeiros guerreiros. Além de mantermos a produção, conseguimos produzir produtos novos, viseiras, máscaras.
Reinventámo-nos. Montámos um estúdio de televisão, os nossos comerciais treinaram-se a fazer a apresentação em vídeo, mostravam os modelos, as suas características, a mensagem a transmitir e comunicavam desta maneira com os nossos clientes, via online. A ligação mantinha-se e as encomendas apareciam. Tivemos de nos reinventar, mas com sucesso. Foi uma fase difícil, mas entusiasmante, que mostrou bem o espírito de camaradagem da equipa.
O Grupo, no passado, também teve investimentos na área da saúde. Guarda más ou boas memórias dessa experiência?
TL – Guardo boas memórias e estou contente por ter contribuído significativamente para aquilo que foi o desenvolvimento da hospitalização privada em Portugal. Fui presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada, detive a unidade Casa de Saúde de Guimarães, que mais tarde construiu o Hospital Privado de Guimarães, e, portanto, dinamizei ativamente aquilo que foi a hospitalização privada em Portugal e as suas relações internacionais, de que beneficiamos muito.
Portugal 2043
Em 2043, Portugal celebra os 900 anos do Tratado de Zamora. Simbolicamente, estando aqui em Guimarães, essa pergunta faz ainda mais sentido. Como é que que imagina e gostaria que estivesse o país nos próximos 20 anos?
TL - 1143. Tratado de Zamora. D. Afonso Henriques, com o seu primo, Afonso VII, e o reconhecimento do Condado Portucalense. Uma data interessante e que eu, dentro das perspetivas de que vou pertencer à categoria dos que vão ultrapassar os 100 anos, estarei nessa altura com 93.
Há dois pontos a que eu reputo muita importância para o futuro de Portugal. É que Portugal, realmente, é o maior país da Europa. Parece uma contradição…
Pela questão do oceano?
TL – É o maior país da Europa pela questão do oceano. A nossa zona económica exclusiva de 200 milhas marítimas confere-nos essa situação.
Imagino que, Portugal, utilizando de uma maneira sustentável todas estas potencialidades que o oceano nos pode trazer, possam daí resultar melhorias para a nossa população e acedermos a um nível de vida primeiro na Europa.
Mas, por outro lado, o oceano também é um elemento que nos interliga àquilo que são os PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa].
Já ligados aos PALOP pela língua, acho que o oceano contribui para essa ligação também. Temos de olhar para esta cooperação com os países de língua oficial portuguesa de uma maneira não saudosista, mas de cooperação, de cultura, nestes vários pontos do mundo, que, certamente, nos poderão guindar a um lugar conjunto de relevância mundial.