quarta-feira, 11 fev. 2026

Uma história de quadradinhos

As tolas promessas desta pré-campanha eleitoral recordaram-me algo que me aconteceu, com outros quadrados bem alinhados, onde também se podia escolher.

A coisa é tão simples, como imprimirem numa folha de papel uns quadradinhos alinhados na vertical para escolhermos onde colocamos um X, exaltando depois que exercemos um dever cívico. E bem. Porque houve pessoas que sofreram para esse nosso direito existir. O voto, na minha opinião, deveria mesmo ser obrigatório.

Contudo, as tolas promessas desta pré-campanha eleitoral recordaram-me algo que me aconteceu, com outros quadrados bem alinhados, onde também se podia escolher.

Esta verdadeira história passou-se numa solarenga manhã de verão, quando o Presidente da Junta de Freguesia de giz em riste, desenhou no chão da praça onde trona a igreja da vila, uma quadrícula branca, perfazendo quadrado a quadrado um desmedido retângulo. Lembrava-me os antigos jogos de crianças, onde pulávamos ao pé-coxinho. Coisa que nunca vira antes, no interior de cada quadrado um número de 1 a 100 fora escrito, marcando essa singela distinção entre todos eles. 

Umas meninas vieram vender-me senhas numeradas de cem a um. Qual era o prémio? Um porquinho, responderam-me. Pensei nos porcos de barro, típicos mealheiros do artesanato luso.

Umas horas mais tarde, era tempo para todos em alegre cavaqueira, despejarem umas minis naquele largo. E como eles, lá estava eu. 

Foi quando alguém chegou trazendo debaixo do braço um leitãozinho pejado de medo, que perante a algazarra geral foi largado em cima da quadrícula a giz branco no chão traçada. O bichinho assustado nem se mexia.

Que é isto? É o leitão. Agora vai ficar aqui, até descobrirmos o resultado da lotaria, escutei. Compreendi que o tal prémio seria aquele ser vivo, que de vivo que estava… alguém gritou "o porco fugiu, o porco fugiu!" E sim, lá ia ele, uma minúscula mancha rosa de quatro patinhas, esbaforido a correr rua abaixo. Para logo a população animadíssima, se libertar em alegre correria atrás do minúsculo animal. Era uma tourada inabitual para mim, alentejano que sou, mas com tradição naquelas paragens beirãs, percebi. 

Claro que o apanhavam, vindo de volta à praça e à quadrícula numerada. Mas de quando em vez, repetiam-se, a fuga e consequente captura. Era uma festa!

E o resultado da lotaria, quando sai? Ninguém sabia. Ninguém sabe? "Não", explicaram-me, "só o porco é que sabe!" A sério? Atónito olhei para o leitãozito, naquela redoma de gente que troçando e fazendo-lhe festas, o alimentava com pedaços de maçã.

A Paula, filha da dona Micas, sendo a única minha conhecida na vila da Beselga, sorrindo revelou-me o segredo: o porquinho é que decide quem ganha, porque vai andar naquele delimitado espaço, até cagar. Desculpem a brejeirice.

- Desculpa? E depois? inquiri.

- Então, no quadrado em que porco cagar, está um número escrito, quem tiver essa senha, ganha, ganhando-o. 

Nova gritaria geral ao nosso lado, teria o leitão fugido de novo? Não. Tinha cagado. Bendita cagadela! Pensei.

 "Foi no dezassete, o dezassete!" Repetia-se sem parar, batendo palmas.

"Foi o senhor Amável! O senhor Amável foi quem ganhou"!

E eis que um velhote muito velhinho, envolto num robusto casaco em lã, surgiu cambaleando com um cajado em jeito de bengala na mão esquerda, amparando-se e leitãozinho grunhindo debaixo do braço direito, acompanhando-o. Ambos felizes, ambos sorrindo. Ele, por não de regresso a casa sozinho, e o bichinho por finalmente dali abalar. "Sim, porque aquilo de vir a vila em peso, incentivar e aplaudir publicamente às nossas necessidades fisiológicas, não lembra a ninguém", terá o animal concluído.

Desta igual forma epilogo eu, questionando-me até que ponto o futuro voto de cada um, será semelhante à cagadela do leitão? E se for, quem ganhará?