sexta-feira, 08 mai. 2026

Insegurança no Mar Vermelho ameaça economia global

Operação Prosperity Guardian não foi suficiente para neutralizar a capacidade dos Houthis, que continuaram ataques no Mar Vermelho.
Insegurança no Mar Vermelho ameaça economia global

Desde novembro, no Mar Vermelho, houve um aumento de mais de 500 por cento nos ataques perpetrados por forças Houthis a embarcações alegadamente ligadas a Israel. A insegurança originou uma diminuição de 60 por cento do tráfego em dezembro. Um cenário de tensões prolongadas ou de um conflito regional teria profundas consequências para a segurança e o comércio internacional.

Evitar a guerra

Fundado por Hussein al Houthi nos anos 90 e liderado por membros da tribo Houthi, o movimento Ansar Allah, de matriz xiita, tem combatido a maioria sunita no Iémen. Neste momento, o grupo controla as regiões do país com maior densidade populacional incluindo a capital, Sanaa.

Após os primeiros ataques da operação Prosperity Guardian, dirigida pelos Estados Unidos e o Reino Unido, com o apoio da Austrália, do Bahrein, do Canadá e dos Países Baixos, John Kirby, porta-voz da Casa Branca, assegurou que os Estados Unidos «não tinham interesse» em entrar em guerra com o Iémen, afirmando também que os ataques tinham atingido a capacidade de armazenar, lançar e dirigir mísseis ou drones.

Mas os primeiros esforços da operação Prosperity Guardian não foram suficientes para neutralizar a capacidade dos Houthis, que continuaram os ataques contra embarcações no Mar Vemelho. Após a operação, os Houthis atingiram um navio pertencente aos Estados Unidos, que navegava com a bandeira das Ilhas Marshall, e um navio grego.

Em ano de eleições e com uma presidência fragilizada, a Administração Biden não tem interesse em abrir (mais) uma frente de conflito, apostando por isso numa intervenção cirúrgica com apoio internacional, tentando reproduzir a dinâmica que sustentou as operações antipirataria realizadas ao largo da Somália.

Mas num período que é de fragmentação, não parece existir uma frente unida. O Mar Vermelho e o Iémen são epicentro de velhas tensões e conflitos, internos e regionais. A Arábia Saudita, para os Houthis, é um país invasor. Mas o reino, que liderou a coligação que apoiou as forças governamentais contra os Houthis, tenta agora negociar um cessar-fogo com o grupo. Riade não tem interesse na guerra, que obrigaria a desviar recursos e atenção necessários à implementação da ambiciosa Visão 2030, chave para garantir não apenas a prosperidade mas também a estabilidade interna. O Ministério dos Negócios Estrangeiros saudita publicou uma declaração manifestando "grande preocupação" e apelando "à contenção e necessidade de evitar uma escalada".

Em reação aos ataques, o porta-voz dos Houthis, Nasruldeen Amer, prometeu uma «resposta firme, forte e efetiva». O representante da Rússia junto da ONU, Vassily Nebenzia, acusou os ingleses e os americanos de «desencadear o alastramento do conflito em Gaza a toda a região».
Londres e Washington, por sua vez, acusam o Irão de apoiar os Houthis com capacidade militar e de inteligência.

Riscos geopolíticos e geoeconómicos

A escalada de tensões no Mar Vermelho onde, em 2022, passaram cerca de 22.000 navios e 123,5 milhões de toneladas métricas de mercadorias, traz riscos geopolíticos e geoeconómicos. Primeiro porque, embora justificado como medida cirúrgica para garantir a segurança numa artéria vital do comércio internacional, os ataques podem desencadear um conflito de larga escala.

E o mercado já reagiu ao aumento de tensões, que condicionam a liberdade e segurança de navegação. Com os navios a serem forçados a seguir uma rota alternativa, contornando África, torna-se inevitável um aumento dos custos. Isto porque se trata de uma viagem mais longa, mais cara e que não está, também, isenta de riscos.

Juntando-se ao anúncio de redução da produção pela OPEC+, os receios em relação a uma disrupção prolongada do transporte deverão pressionar no sentido da subida do preço do petróleo nos próximos meses. E, esta semana, o Qatar anunciou que iria suspender o transporte de gás pelo Mar Vermelho. Na Alemanha, as disrupções obrigaram a fábrica da Tesla a anunciar uma paragem de duas semanas, devido à falta de componentes importadas da Ásia.