“Consumar é trazer algo até à plenitude da sua essência, conduzi-la tão longe quanto possível, producere”.
(Martin Heidegger, 1947)
O Manuel Bastos (1951-2024) ao longo da sua vida criativa e apaixonada pela doçaria conventual de Arouca foi capaz de transportar todos os aromas, todos os sentidos, todos os paladares às novas gerações. Desvendou segredos e receitas. Interpretou-as e materializou-as num vasto património que nos deixou. Pelas suas mãos muita massa, muito fio de ovos, muitas noites claras foram bem enroladas de acordo com receituários antigos que nos deram a saborear os docinhos conventuais, fossem eles as castanhas doces, os charutos, a bola de S. Bernardo ou o manjar de Arouca.
O Manuel Bastos soube dar a cada um de nós o prazer de saborear as castanhas doces, os charutos ou a bola de S. Bernardo em dias de festa ou de celebração, em família, em comunidade ou entre colegas e amigos. O doce era o elemento ligante que fazia de cada um de nós, um actor, um anfitrião digno de tão vasto e complexo património cultural.
A doçaria conventual de Arouca reinava pelas mãos do mestre doceiro, nos dias mais importantes do calendário religioso ou profano, fossem as Festas de Natal ou de Ano Novo, fossem os dias santos e padroeiros. Os doces confecionados por estas mãos sábias e delicadas, demasiadamente humanas e telúricas, também nos remetem para a natureza humana do seu criador. Um homem total que abraçou a arte e o belo, o bem e a justiça, a beleza na sua natureza criadora.
Estamos a falar de uma cozinha fina, delicada, criativa e complexa. Há neste património uma categoria substancial que nos remete para a dimensão criativa e artística do Manuel Bastos. Debaixo do sedimento açucarado e cremoso das suas obras primas, há todo um talento que se nos escapa pela guloseima da obra.
Não se trata de uma obra qualquer. Estamos a falar de uma obra verdadeira, autêntica, onde se conjugam “eros” e “poiesis”, desejo e produção. Aliás, tema discutido no Banquete de Platão, quando Diotime, sacerdotisa do amor descreve a Sócrates, o caminho ascendente de Eros. O Manuel Bastos era um ser luminoso e apaixonado pela natureza. A sua obra artística traduz essa inquietação, essa procura do Belo numa interpretação que conjugou sempre Natureza e Humanidade. Mas também nunca desvalorizou a dimensão do perceber e do conceber, do imaginar e do criar, que tornou possível a materialidade da sua obra na sua substância imaterial.
A doçaria confecionada por este homem sábio possibilita-nos a entrada num mundo mais ritualizado e simbólico, mais divino e celebrante -, em suma, demasiadamente simples e humano.