terça-feira, 14 abr. 2026

Holocausto. Pio XII foi avisado dos crimes dos nazis

Pio XII foi avisado dos crimes dos nazis. Em finais de 1942, um jesuíta alemão escreveu carta a falar dos judeus assassinados nos “fornos das SS”.
Holocausto. Pio XII foi avisado dos crimes dos nazis

Depois de décadas de controvérsia, as dúvidas parecem estar desfeitas. Uma carta datada de final de 1942 e revelada no passado fim de semana pelo jornal Corriere della Sera mostra que o Papa Pio XII tinha um conhecimento concreto dos crimes cometidos pelos nazis. Até aqui, a Igreja argumentava que as informações que chegavam ao Vaticano sobre o que se estava a passar na Alemanha de Hitler e nos territórios ocupados era vaga e difusa. Agora – e na sequência da abertura dos arquivos do Vaticano, incluindo as secções relativas à Segunda Guerra Mundial, decretada pelo Papa Francisco em 2020 – sabemos que Pio XII estava de facto informado.

Com data de 14 de dezembro de 1942 e dirigida ao secretário pessoal do Papa, Robert Leiber, a carta recém-descoberta não deixa margem para mais especulações. Nela, Lothar Koenig, um jesuíta que fazia parte da resistência ao regime na Alemanha, denunciava que cerca de seis mil polacos e judeus eram assassinados todos os dias “nos fornos da SS” no campo de concentração de Belbec, na Polónia ocupada. O documento refere ainda a existência de outros campos, como Auschwitz e Dachau.

“A novidade e a importância deste documento resulta deste facto: agora temos a certeza de que a Igreja Católica na Alemanha enviou a Pio XII notícias exatas e detalhadas sobre os crimes que estavam a ser cometidos contra os hebreus”, disse ao diário italiano o autor da descoberta, o arquivista Giovanni Coco.

Aclamado após o fim da guerra pela forma como conduziu a Igreja durante o difícil período do conflito, Pio XII foi depois acusado de inação e de cumplicidade com os nazis, ganhando mesmo a alcunha de “Papa do Silêncio”.

Mas não é exatamente verdade que o Pontífice não tenha dito nada. Na sua alocução de Natal, poucos dias depois de Koenig ter endereçado a sua carta ao Vaticano, Pio referiu-se às “centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa, por vezes só por causa da sua raça ou nacionalidade, foram condenadas a morrer ou a um lento extermínio”, no que parece ser uma alusão ao Holocausto. Porém, foi notado que essa era apenas uma breve referência, perdida num discurso de quase 30 páginas.

Quanto à ação do Pontífice, o historiador Saul Friedländer, por exemplo, falou num trabalho de bastidores que ajudou a salvar milhares de vidas, tendo sido dadas instruções para esconder judeus em conventos e colégios católicos.

Há também quem defenda que o Papa não foi mais assertivo por temer represálias sobre os católicos. Mas, ainda que o fosse, provavelmente pouca diferença faria – afinal, oito décadas depois, os apelos à paz do Papa Francisco continuam a cair em saco roto.