sábado, 24 jan. 2026

Marcas brancas ganham terreno e não vão ficar por aqui

Poder de compra reduzido dita tendência de compra dos consumidores que optam por produtos com preços mais baixos, diz estudo da Centromarca.
Marcas brancas ganham terreno e não vão ficar por aqui

Os portugueses estão a comprar menos em volume e a optarem por marcas próprias, mas a tendência é para se manter e, até mesmo, para crescer. Esta é uma das principais conclusões do estudo Redesenhar o futuro das marcas, realizado pela Centromarca, o que coloca vários desafios ao setor. «É possível aumentar a rentabilidade do retalhista, do fabricante beneficiando o consumidor. É o chamado triplo vencedor», revela ao Nascer do SOL, Nuno Fernandes Thomaz, presidente da associação.

O responsável diz que a ideia de avançar com este estudo deveu-se ao atual contexto que estamos a viver, lembrando que «nunca vivemos dois cisnes negros num espaço tão curto de tempo e estou a falar concretamente da pandemia e da guerra na Europa. Teríamos de recuar muitas centenas de anos para assistirmos a um fenómeno semelhante». 

Uma situação que, de acordo com o mesmo, criou uma disrupção das cadeias, seguido por uma crise inflacionista. «Os consumidores começaram a sentir uma redução do poder de compra, até porque a inflação apareceu de repente, com força e a reposição salarial ainda é insuficiente». A somar a isso há que contar ainda com o aumento das taxas de juro que penalizou quem tem crédito habitação, tornando os orçamentos familiares cada vez mais apertados e isso refletiu-se no padrão de compra do consumidor.

Todos estes fatores levaram «a uma quebra de vendas em volume, porque o consumo caiu, apesar dos números finais das empresas não refletirem essa redução. Mas é certo que os portugueses começaram a consumir outro tipo de categorias, deixando de consumir determinados produtos para passarem para outros mais baratos e se este fenómeno já estava a crescer, agora agudizou-se de uma maneira dramática e que passou pela transferência do consumo de marcas de fabricante para marcas próprias», salienta Nuno Fernandes Thomaz. 

No entanto, aproveita para destacar a sua importância: «As marcas dos fabricantes são quase uma garantia de estabilidade, representam um pilar de liberdade de escolha para os consumidores».

A par do preço que dita a decisão de compra, o estudo conclui ainda que já se começa a assistir a um abrandamento do comércio online, que registou um crescimento muito grande na altura da pandemia com o peso da venda a regressar às lojas físicas. Por outro lado, assistimos à redução da cesta. «Na pré-pandemia faziam-se várias compras e íamos a muitas lojas, depois com a covid e por uma questão de saúde pública, o consumidor só ia a uma e comprava tudo. Agora por causa da inflação e da redução do poder de compra adquire menos produtos», refere o presidente da Centromarca.

E as alterações não ficam por aqui. Também a demografia e como consequência o envelhecimento da população começa a ter um forte impacto na configuração do mercado e mais recentemente, as populações imigrantes que também começam a refletir o seu padrão de consumo. 

Desafios pela frente

Perante este cenário, Nuno Fernandes Thomaz, diz que não só os fornecedores como também o próprio retalho devem ser mais ágeis, no que diz respeito ao preço, à promoção e à proximidade. «Essa é uma recomendação clara que resulta deste estudo, não esquecendo, ao mesmo tempo, que é fundamental inovar e comunicar. Costumo dizer que se uma marca não inova nem comunica está-se a branquear».

Outra recomendação diz respeito à necessidade de reter talentos, apesar do responsável reconhecer que este é um problema transversal a todos os setores. «É muito difícil reter talento e preparar as equipas para o que virá a seguir que é uma recuperação do mercado. Isto é o mercado a voltar a enfrentar tempos mais simpáticos».

Também o tema da sustentabilidade não pode ficar para trás, como reconhece o presidente da Centromarca. «Não é por, num determinado momento, o consumidor ter deixado de dar importância à sustentabilidade que esse tema fugiu. E aí também deverá haver um esforço por parte dos fornecedores, em oferecer os melhores produtos sustentáveis, mas a preços mais acessíveis».