Por Manuel Pereira Ramos, Jornalista
Nunca e muito menos na época em que vivemos, a idade deve atuar como um elemento discriminatório seja em que circunstâncias for, um princípio lógico e normal mas que nem todos o parecem querer aceitar. O caso agora surgido com Eduardo Marçal Grilo é um exemplo da importância que se dá ao bilhete de identidade quando o que, acima de tudo, deveria prevalecer era a honestidade, os princípios ou a capacidade intelectual, qualidades que o injustamente visado possuiu e possui sem que isso admita discussão. O Eduardo tem as suas raízes numa respeitada família de Castelo Branco, aí nasceu e estudou para depois partir para a universidade e voar alto fazendo uma carreira brilhante que, entre muitas outras coisas, o levaram a ser ministro para grande satisfação dos albicastrenses de nascimento e dos adotivos, como é o meu caso, e que igualmente se sentem orgulhosos de personalidades importantes como outro adotivo, o General Ramalho Eanes a quem se acaba de atribuir, na cidade, uma avenida com o seu nome, ou o meu bom amigo António Lopes Pires Nunes, militar e grande historiador que aí continua a viver e a investigar procurando ensinar-nos e a fazer para que possamos conhecer melhor o que foi o nosso passado comum.
Todos eles, e muitos mais, pertencem a uma geração que com abnegação e perseverança quis construir o seu próprio futuro e deixar uma realidade melhor para os que viessem depois, uns fazendo os estudos a tempo inteiro porque tinham meios para o poder fazer, outros trabalhando para se manterem e, ao mesmo tempo, estudando até os cafés fecharem, com uma bica á frente, porque não havia para mais, alguns deles até tiveram que dar o corpo ao manifesto numa dura Guerra Colonial. Muitos, pela implacável lei da vida, ficaram pelo caminho, mas os que têm a sorte de ainda cá permanecer, continuam a usar a cabeça, se esta o permite, para ler, meditar, escrever e usar a sua experiência para mostrar aos netos quais são os melhores caminhos a seguir na vida. Exemplos não faltam de pessoas aos que a passagem do tempo vivido não impediu continuar na posse das suas invejáveis capacidades mentais, com os seus cem anos, Henry Kissinger continua a fazer ouvir as suas autorizadas opiniões sobre política internacional, o Prof.
Adriano Moreira, também centenário, manteve até ao fim uma. brilhante clarividência que muitos, com a metade dos seus anos, gostariam de ter, o prémio Nobel, Mario Vargas Llosa, com oitenta e muitos acaba de por termo a uma aventura amorosa ao reconhecer que não era o seu o mundo em que, através dela, tinha entrado, agora, sem essa atadura, levanta-se cedo, faz exercício para se manter em forma e concentra-se na escritura durante o resto do dia. Há pouco coincidi com um grupo de antigos nossos embaixadores que se juntam num restaurante de Lisboa, certamente para rememorar tempos passados, manterem firme a amizade que os une e talvez até para analisarem situações que agora se produzem e como as encarariam se as tivessem que encarar se estivessem ainda a trabalhar. Muita da nossa história diplomática senta-se naquela mesa todas as terças-feiras, estão reformados mas representam um capital imenso de sabedoria e experiência que deveria ser aproveitado, se é que ninguém o faz, a favor dos jovens diplomáticos agora no início das suas carreiras.
Há poucos dias discutiu-se no Parlamento espanhol uma moção de censura contra Pedro Sánchez movida pelo partido da extrema-direita, Vox, que apresentou como candidato a primeiro-ministro a Ramón Tamames que, com 89 anos, fez de tudo na vida, reputado economista, iniciou a sua carreira política no Partido Comunista, fundou a Esquerda Unida, passou pelo Centro até juntar-se a Vox, da mesma forma que sem ser comunista aproveitou o PC para lutar contra o franquismo, agora, sem identificar-se com ela, aliou-se momentaneamente com a direita ultra para, desde aí, poder criticar, na sede da soberania popular, ao governo ao que respeita porque foi legitimamente eleito, mas com o que em pouco ou nada se identifica. Como se esperava, Tamames não ganhou mas, no contexto do que aqui estamos a falar, o relevante foi que, no calor do debate que tinha a sua importância ao estar em jogo, nada menos, que a continuidade do governo, nem um só dos deputados optou por referir-se ou querer tirar partido da idade do candidato, nem uma única palavra mal soante contra ele por ser idoso, tudo muito respeitoso, como devia ser.
Diz o dicionário que velhote é «designativo de homem que é velho mas bem conservado ou bem disposto», mas, que é velho, 60, 70, 80, 90,100, ou 120 anos aos que, com os progressos da medicina, algum dia, não muito longe, se chegará? Diz o povo que ‘velhos são os trapos’ e que ‘há jovens-velhos e velhos-jovens’, tudo vai na cabeça de cada um. O que não devem esquecer os que agora ainda se sentem longe da velhice é que o tempo foge e que eles para lá caminham, oxalá que quando lá cheguem sejam os velhotes simpáticos e úteis que, como a grande maioria dos que já lá estão, todos os dias procuram ser.