quarta-feira, 14 jan. 2026

Senhores e doutores

O que me aborrece é quando se retira o Sr. da equação, dando socialmente primazia e superioridade ao título antes do nome.
Senhores e doutores

Por Paulo Romão, Designer

Conversava, há muitos anos, com um grande amigo de infância do meu pai. O Sr. Magalhães. Homem sábio, ponderado, inteligente, bom. Um verdadeiro Senhor, com “S” grande.

Sendo eu uma criança difícil de aturar, quer pela minha indisciplina, quer pela minha hiperatividade, foram sempre um mistério e uma surpresa a paciência, a generosidade e a disponibilidade que este Senhor sempre teve para comigo, ao ponto de desenvolvermos uma verdadeira amizade. Amizade algo improvável, tendo em conta a enorme diferença de idades e gerações. Era quase uma relação de avô e neto.

Tínhamos, então, longas conversas, sobre vários assuntos. O seu discurso era sempre motivador, formativo. Ao ponto de eu ter hoje a certeza de que, a par do meu pai, ele me transmitiu de forma muito evidente e perene ensinamentos que me moldaram e foram, em grande medida, responsáveis por quem sou hoje. Pela essência da minha personalidade.

Um dia falávamos sobre o futuro e sobre as profissões. Naquele registo de tentar descobrir o que queremos ser quando formos grandes. Comentei, a dada altura, que gostaria de ser doutor. Doutor de qualquer coisa. Porque nessa altura a minha opção sobre o que seria o meu futuro profissional era ainda uma incógnita absoluta. E o estatuto de doutor era algo desejável, apetecível, pelo seu forte reconhecimento social. E ainda é.

O Senhor Magalhães, recorrendo uma vez mais à sua sábia experiência, disse-me o seguinte:

- Não é o grau académico que irá definir quem vais ser. Tens que ser essencialmente um adulto competente. Competente nas tuas tarefas profissionais, sociais e familiares. O que importa é viver a vida alegremente de forma séria, com muito respeito pelos outros. A tua formação académica será certamente muito importante para adquirires conhecimentos e competências que vão melhorar o teu futuro. Mas nunca uses o título com soberba e superioridade face aos outros. O Dr. deve ser reservado apenas para o exercício da tua profissão, devendo prevalecer o senhor em todos os aspetos da tua vida.

Rematou o seu discurso com uma frase a que eu recorro algumas vezes, sempre que discuto este tema:

“Quando fores grande, podes ter a certeza de que vão existir muitos doutores. Mas Senhores serão poucos” - disse-me ele.

Reconheço-lhe alguma razão e percebo o sentido simbólico da frase, embora hoje saiba que ser Senhor e Doutor (por esta ordem) não é de todo incompatível. Longe disso. Encontrei bastantes ao longo da minha vida. Tenho bastantes na minha vida.

Esta frase tem que ser contextualizada numa época em que o acesso à formação académica era mais limitado e pertença de uma certa elite social, que ostentava os títulos com alguma sobranceria. Felizmente o acesso é agora mais fácil, mais generalizado a todos os estratos sociais, anulando quase totalmente esse estigma.

Reconheço também, de forma muito convicta, a importância que as profissões e trabalhos que não implicam grau académico têm na nossa vida. Artes, saberes e técnicas ancestrais que, se desaparecerem, paralisam o mundo e tornam muitos doutores e senhores verdadeiramente impotentes.

O que me aborrece é quando se retira o Sr. da equação, dando socialmente primazia e superioridade ao título antes do nome. Seria certamente a isso que o Sr. Magalhães se referia. Entretanto, fruto da minha formação académica, tornei-me um modesto Dr., mas, em homenagem e respeito à sua memória e aos valores que me transmitiu, tento humildemente ser um senhor. Todos os dias.

Paulo Romão (25/12/1965)
Designer

paulo@pauloromaodesign.com

www.pauloromaodesign.com

- Licenciado em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes do Porto (1991);

- Exerce atualmente design de comunicação em atelier próprio;

- Trabalhou alguns anos em publicidade, onde desenvolveu um gosto particular pela escrita;

- Não se assume como escritor. É somente um designer que tenta escrever e partilhar alguns pensamentos e histórias da sua vida.