quarta-feira, 21 jan. 2026

Revelados abusos em massa por sacerdotes em França

216 mil crianças foram abusadas dentro da Igreja nos últimos 70 anos, revela relatório.
Revelados abusos em massa por sacerdotes em França

França sabia que a comissão de inquérito a abusos sexuais dentro da Igreja Católica, entre 1950 e 2020, poderia ser um choque. Mas a estimativa de que 216 mil menores terão sido vítimas de abusos, revelada na terça-feira, mostra que o problema tinha uma escala avassaladora. E esse número poderá chegar aos 330 mil, se contarmos com abusos de membros leigos da Igreja.

Talvez mais grave ainda, a Igreja, enquanto instituição, mostrou uma “profunda, total, e mesmo cruel indiferença durante anos”, pelo menos até ao início deste século, verificou Jean-Marc Sauvé, vice-presidente do Conselho de Estado e responsável pelo relatório, pedido há três anos pelos bispos franceses, financiado com três milhões de euros, segundo o Figaro. “A Igreja Católica é, depois do círculo familiar e de amigos, o ambiente que tem a maior prevalência de violência sexual”, notava o documento.

Durante décadas, a Igreja não só escudou agressores de acusações judiciciais, como os manteve num ambiente onde estavam em constante contacto com potenciais vítimas, assumia o relatório. O facto de centenas de milhares de vítimas serem o resultado de apenas uns três mil pedófilos identificados só mostra a gravidade da situação.

São números “assustadores”, salientou Olivier Savignac, diretor da Parler et Revivre, uma associação de sobreveviventes, à Associated Press. “É devastador, por causa do racio entre 216 e três mil, é um agressor para 70 vítimas. Isso é assustador para a sociedade francesa, para a Igreja Católica”.

“Vocês são uma desgraça para a nossa humanidade”, resumiu François Devaux, fundador da La Parole Libéré, outra associação de vítimas, dirigindo-se aos sacerdotes na apresentação do relatório, citado pela France Press. “Neste inferno houve crimes abomináveis em massa. Mas ainda pior, houve uma traição à confiança, à moral, uma traição a crianças”.

Face ao escândalo, tanto os bispos franceses como o próprio papa Francisco acabaram a pedir perdão às vítimas. O sumo-pontífice sente “imensa dor”, assumiu o seu porta-voz, citado pela Associated Press, pedindo que as vítimas de abusos recebam de Deus “conforto e consolo para que, com justiça, o milagre da cura possa acontecer”.

O tema dos abusos sexuais de menores são debatidos há anos, chegando Francisco a convocar um encontro de bispos sobre o assunto, em 2019.