segunda-feira, 12 jan. 2026

Macedónia à beira de crise política

O resultado do referendo na Macedónia extravasa a questão do nome do país. É, sobretudo, a consequência de movimentos no xadrez geopolítico dos Balcãs.
Macedónia à beira de crise política

O resultado do referendo na Macedónia sobre a mudança de nome e consequente adesão do país à União Europeia (UE) e NATO poderá ter mergulhado o país numa crise política. Com apenas 36,9% dos macedónios - dos quais 91,4% votaram ‘sim’ - a terem ido às urnas, a consulta popular não atingiu os 50% de participação para ser legalmente vinculativa. Agora, um parlamento dividido terá de votar o acordo com Atenas e, se falhar, eleições legislativas antecipadas serão convocadas pelo líder do governo macedónio, o primeiro-ministro Zoran Zaev. Em causa não está apenas a mudança de nome para República da Macedónia do Norte, mas o maior movimento no xadrez geopolítico dos Balcãs desde a desintegração da Jugoslávia e consequentes conflitos, na década de 90. De um lado o Ocidente, do outro a Rússia.

«Nas próximas semanas vamos avaliar se conseguimos garantir a maioria [parlamentar] necessária para as mudanças constitucionais e, se não o conseguirmos, vamos convocar eleições antecipadas», revelou a ministra da Defesa macedónia, Radmila Sekerinska, citada pela Reuters. Se no parlamento a coligação governamental de Zaev detém a maioria (68 deputados em 120), esta não é suficiente para aprovar as necessárias alterações constitucionais, vendo-se obrigada a conquistar pelo menos 12 deputados da oposição para ter uma maioria de dois terços. Um cenário que se afigura difícil por o principal partido da oposição, o VMRO-DPMNE, se afirmar liminarmente contra a mudança de nome e ter apelado ao boicote ao referendo. «O fracasso da consulta popular é um triunfo para o partido da oposição VMRO-DPMNE, que declara o governo de Zaev um fracasso, assim como o acordo sobre o nome com a Grécia», escreveu Adelheid Feilcke, jornalista do Deutsche Welle, acrescentando que a oposição «sai reforçada com o sucesso do boicote ao referendo». Mas nem por isso Zaev deixa de pressionar os deputados da oposição: «Têm agora a obrigação de fazer com que a Macedónia se torne num país melhor para todos nós».

Em junho, Zaev e o seu homólogo grego, Alexis Tsipras, encontraram-se nas margens do lago Prespa, repartido entre Albânia, Grécia e Macedónia, para celebrarem o acordo alcançado após meses de negociações. Desde que a Macedónia se tornou independente, depois do colapso da Jugoslávia, em 1991, que Atenas sempre se opôs à adesão de Skopje à UE e NATO. Em causa estava o nome República da Macedónia, com os gregos a considerarem que essa denominação preservava ambições territoriais sobre a região homónima, cuja capital é Salónica, no norte da Grécia. Recorde-se que a Grécia é membro da NATO e possui uma importância geoestratégica relevante por causa dos seus portos, como o de Pireu e Salónica. Pelo meio, disputas históricas sobre qual o país que representa o legado de Alexandre, o Grande, ganharam força, impulsionando os nacionalismos nos dois lados da fronteira. Hoje, 130 Estados-membros da ONU reconhecem a Macedónia, com Atenas a ver-se cada vez mais isolada.

‘Oportunidade de uma vida’

O acordo de Prespa e a adesão de Skopje à UE e NATO é o maior movimento no xadrez geopolítico dos Balcãs desde a desintegração da Jugoslávia e consequentes conflitos. De um lado, a Rússia, do outro a NATO e a UE. A primeira quer manter a sua influência sobre os Balcãs, principalmente na Sérvia, Kosovo e Montenegro, enquanto os segundos querem expandi-la com novas adesões num momento de grandes tensões com Moscovo.

Nenhum dos lados se tem poupado a esforços para ganhar a disputa geopolítica. A chanceler alemã Angela Merkel, o secretário geral da NATO, Jens Stoltenberg, e o secretário da Defesa norte-americano, Jim Mattis, visitaram a Macedónia para defenderem o acordo e as adesões à NATO e UE. Nos seus discursos, apelaram aos macedónios para agarrarem a «oportunidade de uma vida», apostando capital político. Por outro lado, Washington acusa Moscovo de tentar interferir na política macedónia. «Não queremos ver a Rússia a fazer [na Macedónia] o que tem tentado fazer em tantos outros países», afirmou Mattis durante a sua visita ao país, em meados de setembro. Uma interferência que, alega Atenas, também se estendeu à Grécia. Em julho, o governo grego expulsou quatro diplomatas russos por, alegadamente, tentarem inflamar o sentimento anti-Macedónia em Salónica. 

Para Moscovo, o resultado do referendo comprova o falhanço «da campanha de propaganda em grande escala que interferiu direta e livremente nos assuntos internos de um Estado dos Balcãs», referindo que o «referendo não pode ser considerado válido» por os eleitores terem «escolhido boicotar as soluções impostas por Skopje e Atenas». 

Com o contexto feito para garantir a entrada da Macedónia na UE e NATO, voltemos à votação do acordo no parlamento macedónio. Se for chumbado no órgão legislativo macedónio, não restará outra alternativa ao primeiro-ministro Zaev que não convocar eleições legislativas antecipadas, o que, por sua vez, atrasará o processo negociado com Atenas entre 45 a 60 dias. Um atraso que poderá ser fatal para o sucesso do acordo e entrada da Macedónia na UE e na NATO: o eleitorado grego será chamado às urnas em setembro, com a Nova Democracia, principal partido da oposição e líder nas sondagens, a posicionar-se contra o acordo. «A ND fará todo e qualquer esforço para evitar que o prejudicial acordo de Prespa entre em vigor», afirmou o partido. 

Se Zoran conseguir conquistar a maioria de dois terços, terá ainda de se confrontar com a oposição do presidente macedónio, Gjeorge Ivanov, que caracterizou o acordo como «suicídio histórico» e revelou não ter qualquer intenção de o ratificar. «A maioria silenciosa decidiu», reagiu aos resultados do referendo.

As relações entre Atenas e Skopje nunca foram as melhores, com avanços e recuos, acusações e contra-acusações, mas o acordo firmado conseguiu unir as duas capitais ao ponto de Atenas atacar sem temor o chefe de Estado macedónio, o que pode figurar ingerência externa. «George Ivanov, esse terrível Presidente do país vizinho, disse que o referendo falhou e que tudo acabou», afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros grego, Nikos Kotzias. E colocou em causa a legitimidade democrática do Presidente macedónio: «Como é que uma pessoa eleita com meio milhão de votos acredita estar legitimada para invalidar 610 mil votos?».

ricardo.fernandes@sol.pt

Leia também

China alerta EUA para não recorrer a outros países para controlar a Gronelândia

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China garantiu ainda que a exploração chinesa no Ártico está de acordo com o direito internacional. “Os direitos e liberdades de todos os países para conduzir atividades no Ártico de acordo com a lei devem ser plenamente respeitados”, afirmou
China alerta EUA para não recorrer a outros países para controlar a Gronelândia

Parlamento Europeu proíbe entrada de representantes do Irão nas suas instalações

Segundo dados da organização não-governamental Human Rights Activists News Agency (HRANA), pelo menos 538 pessoas morreram na sequência da repressão dos protestos, que resultaram ainda na detenção de 10.675 pessoas, incluindo 160 menores de idade e 52 estudantes.
Parlamento Europeu proíbe entrada de representantes do Irão nas suas instalações

Espanha disponível para reforçar segurança da Gronelância na Nato

José Manuel Albares, o ministro dos Negócios Estrangeiros, prestou declarações a jornalistas em Madrid e considera que não se pode fazer "ficção política" em relação à Gronelândia
Espanha disponível para reforçar segurança da Gronelância na Nato