O Bairro Clemente Vicente, no Dafundo, voltou ontem a ser notícia pelas piores razões. O piso do rés-do-chão do número 32-A ruiu e provocou duas vítimas, tendo uma delas sido encaminhada para o Hospital de São Francisco Xavier. O outro ferido, de 28 anos, foi assistido no local.
Ao que o i apurou, a vítima que recebeu tratamento hospitalar era o responsável pelo condomínio do edifício, um homem de 70 anos que teria ido ao prédio para mostrar um apartamento a técnicos de eficiência energética. “O andar estava desabitado há cerca de dois anos”, contou ao i Rui Palma, morador no bairro. Ao entrarem no apartamento, o chão terá ruído. “Pelo que sei, o responsável pelo condomínio caiu de uma altura de cerca de três metros. Foi parar às caves”, relata.
LNEC tinha avisado
O Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) elaborou em julho do ano passado um relatório sobre o estado de degradação estrutural do centenário bairro operário onde, em 2015, moravam cerca de 500 pessoas. O documento foi entregue aos moradores em setembro e alertava para o perigo de derrocada. “É necessária uma intervenção global e profunda”, sublinhavam os técnicos, dizendo que as obras deveriam começar pelo local mais afetado pelo desgaste do tempo: as caves dos edifícios. O parecer do LNEC, que o i noticiou em novembro, terminava com um aviso: “É importante referir também que o risco de derrocada aumenta com o tempo.”
O bairro, composto por 240 apartamentos, foi construído para habitação operária e pertence atualmente a privados. No entanto, e face ao perigo público de derrocada, a Câmara Municipal de Oeiras instalou uma delegação na Junta de Freguesia de Algés, Cruz Quebrada e Dafundo onde tem recebido os moradores para tentar encontrar uma solução. Tem também sido feito um levantamento das condições sociais do bairro.
Ontem, o i voltou ao bairro durante a tarde e, apesar da derrocada e do relatório do LNEC, encontrou habitantes divididos. “São mais nozes do que vozes”, declara Rui Palma, que mora ali há dez anos. “Claro que há focos de perigo, mas não é assim tanto como pintam. Depende das casas”, considera. “Há problemas estruturais, mas também acredito que haja jogadas financeiras.” Para este morador, é inegável que o bairro se situa num local muito aprazível para os investidores. “Estamos na primeira linha de mar. Já compraram a quinta aqui ao lado, tenho quase a certeza de que querem ficar com isto para construção de imobiliário”, defende.
Sobre a hipótese de se mudar para uma habitação cedida pela câmara, o munícipe é perentório: “Não quero ser picuinhas, mas não vou para nenhum bairro social.”
Rui Palma diz não temer continuar a morar no bairro, mas está disposto a ouvir outras hipóteses. E, após o incidente de ontem, acredita que os processos de negociação com a câmara – que está a tentar mediar o problema – “andarão muito mais rápido”. Já João Paulo, que nasceu ali – e está de regresso ao bairro para cuidar da mãe –, admite que há algumas pessoas com medo. “A minha mãe é inquilina, mora aqui há 62 anos. Amanhã (hoje) faz 87 anos. Está doente, não sei como lhe iria dizer que tem de se mudar da casa que sempre conheceu”, assume.
Sobre a derrocada de ontem, sublinha que o problema não é, de todo, inédito, embora seja cada vez mais preocupante. “Quando tinha 14 anos lembro--me que uma passarela caiu (uma das estruturas metálicas que os habitantes usam como acesso às traseiras dos apartamentos). E lembro-me também de pelo menos duas pessoas terem partido uma perna nessas escadas.”
Bloco questionou governo
Em novembro, poucos dias depois da notícia do i, o Bloco de Esquerda questionou o ministro do Ambiente sobre as medidas que iriam ser tomadas pelo governo para “garantir a segurança dos moradores” face ao “risco de colapso” denunciado no relatório do LNEC.
A resposta do gabinete de João Pedro Matos Fernandes, a que o i teve agora acesso, chegou pouco depois: “O Ministério do Ambiente, diretamente ou através do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), não dispõe de competências ou atribuições que lhe confiram legitimidade para impor uma forma de atuação no Bairro Clemente Vicente.” Tal tarefa, diz o ministério, compete “aos municípios” em “articulação com as juntas de freguesia, nomeadamente nos domínios da ação social, da habitação e do ordenamento do território e urbanismo”.
Apesar da posição, o ministério diz estar a seguir o caso e que solicitou ao IHRU que “continue a acompanhar a situação”.