quarta-feira, 11 fev. 2026

Alô Alô. Leiam muito atentamente, só escreveremos uma vez

Gorden Kaye, o René de Alô Alô, faleceu hoje com 75 anos​
Alô Alô. Leiam muito atentamente, só escreveremos uma vez

Eternizou-se como René Artois, o dono do café na série da BBC “Alô, Alô”, mas nasceu como Gordon Fitzgerald Kaye e prevalecerá como Gorden Kaye, com ‘e’ e não com o mais comum ‘o’, por engano no formulário do hospital. Morreu esta segunda-feira, com 75 anos, na casa de repouso onde vivia, adiantou o seu agente, que, no entanto, não adiantou as causas da morte. A BBC, canal onde trabalhou durante anos, prestou tributo a “um extraordinário ator de comédia”. 

Gorden Kaye nasceu a 7 de abril de 1941, no Yorkshire, precisamente no período que mais tarde viria a retratar em “Alô Alô”, quando a Alemanha nazi ocupava a França e aterrorizava a Grã-Bretanha com bombardeamentos – o pai guiava um dos jipes do serviço nacional de prevenção a esses bombardeamentos. Filho único, gostava de jogar rugby. Na universidade, estudou gestão portuária ao mesmo tempo que fazia uns biscates em fábricas da região, seguindo a tradição da família, ligada à classe operária. Ainda na juventude, colaborou pontualmente com uma rádio local e acabou por ser ele a entrevistar os Beatles, no ano de 1965, quando a banda foi dar um concerto à sua terra-natal. 

Antes de conseguir o papel que lhe garantiu o estrelato, em “Alô, Alô” – papel que aceitou assim que leu o guião do episódio-piloto – teve papéis secundários em séries como “Coronation Street” e “Come Back Mrs. Noah”, ambas mais risonhas, mas também em policiais como “Shoestring”. 

Na série cómica passada durante a Segunda Grande Guerra, Kaye representava René Artois, proprietário e empregado de balcão de um café na vila de Nouvion, na referida França ocupada. René, que protagonizou os 84 episódios da popular série televisiva, vivia de agradar os oficiais alemães – entre os quais o mítico Tenente Grubers, amante de passeios no seu “pequeno tanque”  – namorar as empregadas do seu estabelecimento à revelia de Edith, que tratava carinhosamente como “mulher estúpida” – e a ser arrastado para conspirações da resistência gaulesa contra a invasão germânica. Tudo isto com cantoria, pancadaria e bebedeira à mistura e, fora do pequeno ecrã, mais de mil e duzentas atuações numa versão da série para o teatro que correu o mundo. Apesar de, a princípio, alguns críticos mais conservadores penalizarem “Alô, Alô” por “banalizar a guerra”,  a sitcom esteve no ar em mais de cinquenta países por todo o globo, e ainda hoje algumas frases icónicas, da personagem de Kaye e não só, prevalecem no vocabulário dos fãs. É o caso de “Listen very carefully; I shall say this only once”.

“Alô, Alô” começou em 1982 e durou até 1991 com um sucesso notável de audiências na emissora pública britânica. Mas nem por isso o ator deixou de se dedicar a outros projetos: dois anos depois da estreia, interpretou o Duque da Áustria na produção da BBC da peça “Rei João”, de William Shakespeare.

Um ano antes da última temporada de “Alô, Alô”, numa noite de tempestade, um outdoor de madeira abalroou o automóvel em que o ator seguia, deixando-lhe lesões no crânio que o internaram no hospital. Nunca conseguiu recordar-se do sucedido, nem sequer da entrevista que o “Sunday Sport” lhe fez enquanto convalescia. De tal forma que Kaye acabou por processar o repórter que assinou a peça, acusando-o de se aproveitar da situação; mas o tribunal não lhe deu razão. Os médicos não o livraram de uma cicatriz na testa, consequência do acidente. A memória, essa, recuperou-a a ver-se interpretar René na televisão. 

Em 2007, 15 anos depois da emissão do último episódio de “Alô, Alô”, Gorden Kaye tornou a vestir a pele de René para um episódio único de ‘revival’ em que a personagem escrevia as suas memórias. O próprio ator já o havia feito em 1989, numa autobiografia intitulada “René e Eu”. Na obra, revela o seu percurso, das origens humildes até à fama, admitindo a sua timidez e a sua homossexualidade, circunstância que gerou simpatia nacional pela coragem numa época menos tolerante que a contemporânea.​

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