segunda-feira, 11 mai. 2026

Secreta russa ao serviço do doping

Um documentário de uma estação televisiva alemã, exibido no final do ano passado, desencadeou uma investigação ao atletismo russo e, após a Agência Mundial Antidopagem (AMA) ter concluído que foram destruídas 1.417 amostras suspeitas de indicarem o recurso ao doping, os atletas russos podem ser banidos dos Jogos Olímpicos de 2016. Espera-se já hoje por uma decisão nesse sentido, ainda que provisória, por parte da Federação Internacional de Atletismo.
Secreta russa ao serviço do doping

Liderados por Dick Pound, antigo presidente da AMA, os polícias do doping divulgaram na terça-feira algumas das descobertas, que apontam para “uma corrupção tão abrangente” que tornam impossível pensar que “poderia ter acontecido sem o consentimento das autoridades do Estado”.

O relatório da AMA indica que os atletas que recusaram dopar-se foram marginalizados e os que aceitaram viveram protegidos por um esquema de encobrimento dos controlos positivos. Dick Pound e a sua equipa descrevem que a secreta russa (FSB, sucessora do KGB) “impôs uma atmosfera de intimidação” no laboratório antidoping de Moscovo, ao “vigiar e ameaçar” os seus responsáveis. Grigory Rodchenkov, diretor do laboratório, admitiu a destruição de quase 1500 amostras que poderiam comprometer vários atletas.

Para os investigadores, esta “cultura de batota” representa um “resquício dos tempos da União Soviética” e fez com que os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, tivessem sido “sabotados” pelo atletismo da Rússia. Maria Savinova, medalha de ouro nos 800 metros, e Ekaterina Poistogova, bronze na mesma prova, são duas ‘cabeças’ reclamadas pela AMA como prova de que a Rússia pretende acabar com estas práticas. A AMA exige uma suspensão perpétua de todas as competições a outros três atletas, além de médicos, treinadores e dirigentes da agência russa antidoping, antes de revogar a recomendação de suspender todo o atletismo russo com efeitos imediatos. Em causa, nos tempos mais próximos, estão o Mundial de pista coberta, em março, o Europeu ao ar livre, em julho, e os Jogos Olímpicos, no mês seguinte.

Sem entrar em detalhes, Dick Pound revelou ainda que a investigação se deparou com casos de alegados subornos e chantagens de atletas e altos dirigentes da modalidade, que foram encaminhados para a Interpol. Na semana passada, o antigo presidente da Federação Internacional de Atletismo, o senegalês Lamine Diack , foi detido em França por suspeitas de ter recebido dinheiro para encobrir casos positivos de doping.

O Comité Olímpico Internacional declarou em comunicado que o atletismo enfrenta “um terramoto”.


rui.antunes@sol.pt