terça-feira, 12 mai. 2026

As trutas de Coura

Paredes de Coura é, para muitos, apenas sinónimo de festival de música pop/rock, o único que mantém o espírito bucólico dos históricos ajuntamentos que criaram o conceito, do Woodstock de 1969 ao Vilar de Mouros de 1971. Mas Paredes de Coura é também terra de gastronomia, com destaque para o restaurante O Conselheiro que, durante anos, foi referência nacional na arte de bem comer e que, infelizmente, teve de encerrar portas. Mas desde o início do século que um novo espaço tem vindo paulatinamente a conquistar notoriedade. Não me lembro já qual o ano em que, tendo ido ao festival e num daqueles encontros conviviais em que o mesmo é pródigo, alguém me falou, como segredo bem guardado, da casa das trutas, uma estranha casa onde o cliente pescava o peixe que depois lhe era servido. E com esta imagem bruta me fiquei - a de uma taberna com um tanque cheio de trutas, onde se escolhia o espécime que se ia comer, servido por um patrão rico em personalidade -, pois na altura não tive oportunidade de lá ir e confirmar a veracidade do que me contavam.
As trutas de Coura

Aliás, só muitos anos e reiteradas citações depois é que, finalmente, me sentei à mesa da Casa do Xisto, a tal tasca das trutas. E o que vi não tinha nada a ver com essas histórias que me enchiam a imaginação.

De facto, o restaurante é um retilíneo e moderno edifício, com uma ampla e agradável esplanada num varandim ao ar livre, inserido no cenário paradisíaco de um parque de pesca desportiva - vasto espaço natural, com diversos lagos e viveiros para criação de trutas, muitos carreiros e singelas pontes de madeira, perdido na encosta da serra da Boalhosa, na freguesia de Insalde, uma dúzia de quilómetros a nordeste da vila de Paredes de Coura.

E se efetivamente quem quer pode pegar numa cana, das muitas que se encontram à disposição dos visitantes, e pescar dos lagos o peixe que quiser para comer grelhado no restaurante ou levar para casa, a oferta gastronómica está longe de se esgotar na truta grelhada. Há ainda a de escabeche, pequena, deliciosa, que se come inteira entre dois nacos de pão, e a assada, método reservado às maiores, que aguentam bem o forno. Mas há também as carnes, com destaque para os rojões ou o cachaço do porco bísaro, de produção própria, ou para o javali, que cresce pelas serranias próximas, acompanhados pelo já célebre arroz das matanças, uma variedade local da cabidela. Aliás, é o gosto manifesto pela cozinha regional, que apreciam como ninguém, que mais encanta nas conversas com Cila e Décio Guerreiro, o simpático casal proprietário do lugar. E o seu último orgulho é precisamente a recuperação de um velho prato minhoto, do tempo da guerra, quando a escassez de arroz no mercado o fizera ser substituído por milho partido, e que entretanto deixou de ser feito e ficou esquecido - o estrolho. Orgulho tanto maior quanto a receita se revelou um êxito e passou a constar da carta diária do restaurante. E eu posso atestar que é, efetivamente, uma deliciosa surpresa. Como tudo o resto na excelente Cada do Xisto…