quinta-feira, 14 mai. 2026

Edições de arte num Gabinete para muitos

Numa rua a meio caminho entre o Príncipe Real e a Academia das Ciências, em Lisboa, abriu há cerca de dois meses o Gabinete, um local onde se pode ver e comprar arte a preços que vão actualmente dos sete euros aos 20 mil. Esta grande amplitude de valores deve-se ao facto de as obras em venda serem múltiplos, ou seja, peças de arte em edições limitadas produzidas, além do mais, tanto por artistas com grande cotação de mercado como por criadores ainda em fase inicial de carreira. 
Edições de arte num Gabinete para muitos

Por sete euros é possível comprar a impressão em papel (uma edição de 100 exemplares) de Lisboa, 18 º Abaixo do Horizonte, de Ana Romana. Por 20 mil euros está à venda Penas, o conjunto de telas de Francisco Tropa. Entre estes limites o amante de arte poderá encontrar, por exemplo, peças de artistas como João Louro (que representa Portugal na edição de 2015 da Bienal de Veneza) com a impressão preto sobre preto Double Indemnity; um disco em vinil com as músicas dos vídeos de João Onofre e trabalhos de Julião Sarmento, de João Pedro Croft, de António Bolota, entre um conjunto muito alargado de nomes. A lista é grande e está em expansão. “Não trabalhamos com um catálogo fechado, queremos trabalhar com muita gente e usando técnicas variadas. O desafio é explorar as tecnologias que se adequam a cada um dos artistas. E podemos editar desde livros a peças em 3 D, ou em tecnologias antigas e caídas em desuso”, explica Delfim Sardo, o director artístico e um dos três sócios do Gabinete.

O projecto, cujo ponto de venda é na rua Ruben A. Leitão, passa por promover a criação de edições em série e não apenas vender o que já há. O primeiro desafio foi lançado a Jorge Molder, que produziu uma série com tiragem de três exemplares, em platinotipia, “uma técnica do século XIX, muito sofisticada, rara e difícil”. Foi feita por Manuel Gomes Teixeira, “que faz um trabalho de impressão verdadeiramente excepcional. Há poucas pessoas na Europa a trabalhar com platinotipia”, diz Delfim Sardo. Para Jorge Molder foi uma descoberta aliciante, e é esse um dos campos de acção do Gabinete: “Fazer esta descoberta e desafiar artistas a trabalhar com tecnologias que não usam mas que se adequam ao seu trabalho”.

A peça mais recente a ser posta à venda, no passado dia 4 de Julho, foi a REAT, um conjunto de elementos em bronze, atados por um fio e que Francisco Tropa fez para o Gabinete. Depois de Molder e Francisco Tropa, os próximos artistas com edições agendadas são André Cepeda, João Queiroz e Fernanda Fragateiro.

“A atenção é parte integrante do projecto. Se umas vezes produzimos, outras vamos buscar obras que já existem, coisas perdidas”, diz Delfim Sardo. E dá o exemplo disso. Numa conversa, Helena Almeida lembrou-se que tem uma edição de múltiplos feitos na década de 70 e isso irá também ser vendido no Gabinete. Outro dos campos de trabalho, é o dos desenhos dos arquitectos e das maquetes “maravilhosas, verdadeiras obras de arte que ficam esquecidas”. Até porque “não há ninguém a editar estes trabalhos”. Manuel Mateus será um dos primeiros arquitectos a integrar o projecto.

A ideia de criação do Gabinete partiu de Delfim Sardo, curador de arte e professor universitário, e de dois amigos - o engenheiro João Loureiro e o comissário cultural Rui Abreu Dantas - num jantar em que avaliaram a vontade que tinham há anos de fazer uma coisa em conjunto. Decidiram criar uma editora e loja de múltiplos. “Há muito tempo que queria trabalhar com múltiplos, para mim é um interesse semelhante ao dos livros”. Outro motivo, este filosófico: “É que os múltiplos correspondem a uma certa utopia do acesso democrático à arte”.

Quando partiram para a acção já sabiam que queriam um espaço com porta para a rua e cujo aspecto “configurasse mais uma loja do que uma galeria de arte”. E encontraram o que pretendiam no espaço de loja que já foi uma produtora de teatro e uma tipografia do Correio da Manhã e onde uma frondosa árvore enquadra a montra. E a metros da zona nobre do Príncipe Real.

Para o interior pretendia-se a simplicidade. O arquitecto João Luís Carrilho da Graça sugeriu que se fizessem umas mesas/bancadas espelhadas para expor os trabalhos. “Foi uma solução muito interessante para acrescentar possibilidades de exposição à superfície de parede. E as mesas acabaram por ser estruturantes para o espaço”. De terça a sábado, das 12h às 20h, o Gabinete é um local para explorar.


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