Modelo de financiamento das escolas do ensino artístico vai mudar

O Governo vai alterar o modelo de financiamento do ensino artístico, integrando as verbas pagas às escolas no Orçamento do Estado e excluindo-as do financiamento comunitário, mas as instituições recusam como contrapartida a redução do valor pago por aluno.
Modelo de financiamento das escolas do ensino artístico vai mudar

As escolas do ensino artístico especializado (EAE) tiveram conhecimento da intenção do Governo através de comunicados de entidades patronais do setor privado -- Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP) e Ensemble --, mas temem as consequências.

Disso mesmo deram conta aos deputados da comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, onde diretores de escolas artísticas e representantes do Movimento Reivindicativo do EAE foram ouvidos, na terça-feira, integrados numa comitiva da Federação Nacional dos Professores (Fenprof).

À Lusa, a diretora da Academia de Música de Almada, Susana Batoca, disse, no final do encontro, que, a ser aprovada, a proposta do Governo levaria a que "as 75 escolas da zona de convergência deixariam o Fundo Social Europeu e passariam a estar integradas no Orçamento do Estado", o que para as escolas "é um ponto muito positivo".

Contactado pela Lusa, o Ministério da Educação e Ciência confirmou a intenção de alterar o modelo de financiamento.

"Para o próximo ano letivo está previsto que o financiamento do ensino artístico passe a ser suportado pelo Orçamento do Estado deixando de ser financiado, em parte através de fundos comunitários, nas zonas de convergência, e em parte pelo Estado".

Segundo a tutela, "com esta alteração, todas as entidades ficam nas mesmas circunstâncias de financiamento, todas elas ficam com a garantia contratual dos pagamentos atempados das tranches, e não têm de esperar pela aprovação dos pedidos de reembolso (facto que atrasa por vezes os pagamentos do POCH [Programa Operacional Capital Humano]), sabendo desde o início qual é o montante do contrato, ou seja, o valor com que podem contar para todo o ano (ao contrário do que acontecia até aqui, na modalidade de custos reais, em que o montante aprovado era sempre inferior ao montante executado)".

Susana Batoca sublinhou, no entanto, que, se "é positivo" que o financiamento passe a ser suportado inteiramente pelo Orçamento do Estado, a proposta chegou com "grandes restrições orçamentais".

"O valor por cada aluno iria diminuir de 3.000 para 2.600 euros. E o valor seria o mesmo para cada escola independentemente das habilitações do corpo docente", disse a diretora da academia de Almada, que explicou ainda que, segundo a proposta que conhece, o Governo pretende eliminar os escalões de financiamento às escolas.

Susana Batoca disse que um dos critérios de financiamento vigentes separa as escolas artísticas especializadas por três escalões diferenciados, consoante a percentagem de docentes com um determinado nível de habilitação.

"Agora todas as escolas vão receber o mesmo, independentemente de terem professores em topo de carreira ou não", disse.

Questionado pela Lusa, o ministério não disse se pretende cortar o valor pago por aluno.

Às escolas preocupa ainda a possibilidade de o Estado pôr fim ao financiamento do ensino supletivo, na rede privada de escolas do ensino artístico especializado.

O ensino supletivo permite aos alunos do ensino regular, por exemplo, frequentar o ensino artístico especializado, sem que o percurso formativo tenha de coincidir com o ano de escolaridade.

Os alunos neste regime representam 25% dos matriculados no ensino artístico especializado, o que leva Susana Batoca a temer despedimentos de docentes e trabalhadores não docentes, na mesma ordem de grandeza.

A eventual eliminação do ensino supletivo da rede privada, levaria à exclusão do acesso de muitos alunos, o que, para Susana Batoca, é "uma violação do princípio da igualdade", pelo que foi pedida uma reunião com a tutela.

Contactado pela Lusa, o MEC assegurou, no entanto, que a atual proposta exclui o fim deste regime.

Lusa/SOL